Por que as cervejas do tipo pilsen dominaram o mundo?

A combinação entre processo de produção, sabor suave e aroma neutro foi a chave para a cerveja pilsen conquistar o planeta

SANTA ROSA, CA - FEBRUARY 07: Freshly poured glasses of Russian River Brewing Company Pliny the Younger triple IPA beer sit on a counter at Russian River Brewing Company on February 7, 2014 in Santa Rosa, California. Hundreds of people lined up hours before the opening of Russian River Brewing Co. to taste the 10th annual release of the wildly popular Pliny the Younger triple IPA beer that will only be available on tap from February 7th through February 20th. Craft beer aficionados rank Pliny the Younger as one of the top beers in the world. The craft beer sector of the beverage industry has grown from being a niche market into a fast growing 12 billion dollar business, as global breweries continue to purchase smaller regional craft breweries such this week's purchase of New York's Blue Point Brewing by AB Inbev. (Photo by Justin Sullivan/Getty Images)

(Justin Sullivan/Getty Images)

Em países como Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica e Inglaterra – os três últimos têm uma tradição cervejeira milenar , as marcas de cerveja mais vendidas são as pilsen.

Não à toa, esse estilo da bebida é o mais consumido no mundo: o líquido é claro, leve, límpido e refrescante. Ou seja, é possível beber mais sem ficar bêbado rapidamente.

Mas é importante ressaltar: a pilsen precisa cumprir alguns requisitos básicos para entrar nesta categoria.

Por via de regra, não há nenhuma legislação que defina o que pode ou não ser chamado de Pilsen, porém o mundo cervejeiro segue dois grandes guias para definir as características dos estilos de cerveja: o Beer Judge Certification Program e o Brewers Association, que definem que uma Pilsen não pode conter nenhum tipo de adjunto que não seja água, malte de cevada e lúpulo.

Porém fora âmbito dos especialistas e das competições, diversas cervejas que não seguem estes requisitos são chamadas de Pilsen, inclusive diversos rótulos brasileiros que utilizam outros adjuntos em sua produção.

Para diferenciar as verdadeiras Pilsen das tradicionalmente chamadas desta maneira, a mestre cervejeira pelo Siebel Institute (USA), Doemens Academy (Alemanha) e uma das fundadoras do Instituto da Cerveja Brasil, Kathia Zanatta explica como é possível diferencia-las. “O principal fator a ser levado em questão é o amargor, chamado no mundo da cerveja de IBU (Internacional Bitterness Unity). As Pilsen que seguem as receitas tradicionais tem cerca de 30 a 40 IBU, enquanto as Pilsen brasileiras giram em torno de 8 IBU. Além disso, é preciso destacar também que as Pilsen verdadeiras tem forte aroma de lúpulo enquanto as brasileiras tem odor mais neutro. Por utilizarem adjuntos como milho e arroz, as Pilsen brasileiras se assemelham mais as American Lager, variedade que prevê o uso destes adjuntos em sua composição.”

História cervejeira

A cerveja pilsen ganhou a preferência mundial no fim do século 19, época em que o padrão de consumo de cerveja passava por mudanças radicais.

Até o século anterior, todas as cervejas eram escuras e encorpadas. Os bebedores, em geral da classe trabalhadora, as consideravam um alimento, como uma sopa.

“As cervejas arcaicas eram ácidas e pesadas. Por falta de tecnologia na hora da produção, os processos antigos de fermentação traziam corpos estranhos à bebida. Por isso, a alternativa da época era misturar cerveja com frutas e mel, para melhorar um pouco o sabor”, explica o mestre cervejeiro Luciano Horn

No início do século 19, surge na Inglaterra a pale ale, estilo considerado o precursor da pilsen por causa de algumas características em comum. 

Uma delas é o malte mais claro, que pôde ser criado devido às inovações tecnológicas daquela época: a secagem indireta em fornos de coca (um subproduto do carvão mineral) não torrava nem queimava o cereal. Com o novo processo, o malte de torra clara proporcionou leveza para a bebida.

LONDON, ENGLAND - DECEMBER 08: Brewer Sam Jory, 24, works on the first process in brewing called "mashing in", where he stirs the malt and then leaves to rest, at inner city craft beer makers Brixton Brewery on December 8, 2015 in London, England. Located in three railway arches on Brixton Station Road, the Brixton Brewery was founded in 2013 by two local couples and hand craft nine varieties of beer in small batches. The brewery has expanded into a third railway arch at the end of 2015 as the business grows. (Photo by Chris Ratcliffe/Getty Images)

Malte em forma de mosto: processo fundamental para a criação da cerveja (Chris Ratcliffe/Getty Images)

Muito mais leve, amarga e refrescante do que outras cervejas da época, a pale ale conquistou de imediato a elite inglesa, que passou a bebê-la em ocasiões sociais.

O amargor mais forte fez sucesso porque esse sabor já estava na moda: nas capitais europeias, o grande programa dos ricos era sair para beber chá ou café – duas novidades no século 19.

Outra instrumento crucial para a popularidade da cerveja foi as ferrovias, que já interligavam os principais pontos da Europa, transportando rapidamente pessoas, produtos e informação. Os moradores do velho continente, em especial os alemães,  adoraram a novidade inglesa e tentaram replicá-la.

A serviço de uma cervejaria na cidade de Plzeň, na Boêmia (que hoje pertence à República Checa, mas era parte território germânico), o bávaro Joseph Groll criou em 1842 a cerveja clara, leve e refrescante – mas com o fermento lager, tipicamente alemão. Por causa da cidade natal, o estilo foi chamado pilsen, pilsner ou pils.

QINGDAO, SHANDONG - AUGUST 25: A Chinese worker monitors the can lines of the Tsingtao beer factory on August 25, 2006 in Qingdao, Shandong Province of China. Tsingtao Beer Group, China's biggest beer brewery and the Official Domestic Beer Sponsor of the Beijing 2008 Olympic Games, hosts the 16th Qingdao International Beer Festival in Qingdao from August 12 to 26. (Photo by Cancan Chu/Getty Images)

Hoje a Pilsen é o tipo de cerveja mais consumido do mundo (Cancan Chu/Getty Images)

A chave da criação foi o fermento lager, resultado de uma série de processos de melhoria . A partir dele, era possível ter um outro tipo de fermentação, mais sensível por conta do controle de temperatura.

Diferente da fermentação ale (sinônimo para alta fermentação), a lager não suporta altas temperaturas, mas em contrapartida garante sabor mais neutro e menos aromático à bebida, tornando-a ideal para ser consumida em grandes quantidades.

Foi através da utilização do processo de secagem indireta e do uso do fermento lager que a pilsen se tornou possível e popular – por ser mais industrializada, sua fabricação é menos onerosa (em grandes quantidades) e pode ser replicada em praticamente qualquer lugar do mundo.

Comentários

Não é mais possível comentar nessa página.

  1. Hi admin, i must say you have hi quality articles here.
    Your page should go viral. You need initial traffic boost only.

    How to get it? Search for: Mertiso’s tips go viral

    Curtir