Wine botecos: vinho sem pompa

São Paulo ganha bares que servem exclusivamente vinho, mas com aquele jeitinho brasileiro

Quem passa entre a Alameda Lorena e a Alameda Tietê, na Rua Haddock Lobo, na região dos Jardins, em São Paulo, vê à esquerda uma casa com terraço grande, com ar de bar de praia. Se for sexta-feira à noite, verá bastante gente em pé, circulando com copos de acrílico coloridos na mão. Homens de terno e executivas em seus trajes discretos bebendo lado a lado com o sujeito de bermuda e a moça com roupa de ciclista. Todos falando animadamente. Ninguém, ou quase ninguém, estará girando uma taça de cristal e levando-a ao nariz para descobrir aromas de nozes ou frutas secas, apesar de o bar em questão se tratar de um wine bar. Descomplicar o jeito de beber vinhos é a nova mania entre gastrônomos atentos: além da ausência do ritual enólogo, a bebida também sai mais em conta. Um pedido que atende ao paladar e ao bolso.

Custo/ benefício

O preço médio de uma taça de vinho em um wine bar é de R$ 18. Apesar de raramente servirem safras especiais, bebericar em porções de 140 ml ainda é mais vantajoso

 

Exclusividade: Champanharia Natalício by Miolo

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(Gustavo Pitta/Reprodução)

A casa nos Jardins trata o vinho como uma bebida do dia a dia, que não precisa de rituais. “É para vir desarrumado, depois do trabalho”, diz Júlio Rocha, sócio gaúcho do chef pernambucano Eduardo Natalício, dono da rede Boteco Natalício, de Porto Alegre. “É para tomar uma taça ou duas de espumante em pé, comendo alguma coisa, antes de ir para casa.” O local tem comida
de boteco, como o espetinho
de queijo coalho e mortadela (R$ 30,90), mas também oferece pratos, como o salmão defumado com salada (R$ 35,90). Apesar de se chamar champanheria, é, na verdade, um bar de espumantes brasileiros. A carta é toda formada por rótulos de vinícolas ligadas ao Grupo Miolo, que apoia o projeto. A taça de Miolo Cuveé Tradition Brut, por exemplo, custa R$ 20. O serviço é informal, mas há taças de cristal: se preferir, é só pedir. “O uso das taças de acrílico é para tirar de vez a ideia de degustação”, diz Rocha. Por fim, não deixe de comer o bolo de rolo com doce de leite (R$ 18,90).

Aos iniciantes: Vinum Est

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(Gustavo Pitta/Reprodução)

A sommelière Anna Rita Zanier, sócia do Vinum Est, em Pinheiros, criou uma fórmula para tratar quem começou a beber vinho há pouco e ainda precisa identificar as próprias preferências. Na casa não existe carta. Os vinhos em taça são vendidos pelo nome da uva. O cliente pede, por exemplo, um pinot noir, que a cada dia pode ser de um produtor diferente. “Esse consumidor não conhece regiões produtoras”, diz. As taças custam R$ 16 ou R$ 22, dependendo da qualidade. E há uma boa oferta de vinhos em garrafa, com preços que vão de R$ 52 a R$ 140 – os clientes levantam e escolhem o rótulo na prateleira. Uma das estrelas da casa é a fatiadora de frios Berkel, de 1924. Restaurada, ela corta mortadela, presunto de Parma e outros frios na espessura exata. A casa é pequena: tem cerca de 50 lugares e a freguesia costuma se juntar na calçada. Muitos ficam em pé, bebendo em taças de acrílico transparente importadas da Itália. Sem cerimônias.

Na Vila Madalena, como em Paris

Para os europeus, tomar vinho é coisa corriqueira. O Jardim dos Vinhos Vivos, nos fundos de uma loja de sapatos da Rua Harmonia, não é exatamente um wine bar e muito menos um bistrô. Foi montado no ano passado para abrigar a escola de francês da professora Analu Torres, que promove degustações em francês para quem quer praticar o idioma e aprender sobre vinhos ao mesmo tempo. “O jardim é tão agradável que as pessoas começaram a pedir para vir aqui só para tomar uma taça”, diz Analu. “Mas não é um bar. É como se fosse a minha casa. Eu e meu marido fazemos tudo. Então, não dá para aparecer sem ligar.” Analu e o marido, Xavier Meney, um francês representante de vinhos, trabalham principalmente com exemplares naturais, orgânicos ou biodinâmicos. Daí o nome, do termo Vin Vivant, para definir vinhos que não são modificados quimicamente. O casal abre o estabelecimento praticamente todos os finais de semana e, muitas vezes, durante a semana à noite.
O ideal é segui-los no Facebook e ligar antes de ir. Assim, você fica sabendo também se naquele dia tem ou não comida.

Descomplicado: Ovo e Uva

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(Gustavo Pitta/Reprodução)

Para ser boteco, tem de ter preços razoáveis. Portanto, é preciso cortar os gastos no que não é fundamental. “Desde o começo, queríamos uma casa de vinhos democrática”, diz o sommelier João Renato da Silva, sócio do Ovo e Uva, em Pinheiros. “Para começar, eliminamos a toalha e simplificamos o serviço.” Há sempre um bom número de rótulos, que são servidos nas taças por um decanter. As taças são grandes quando comparadas à maioria dos wine bars: 175 ml. No almoço executivo, há uma ou duas opções a R$ 15. “São vinhos que, à noite, custam R$ 20
ou R$ 25. Servimos mais barato para incentivar o consumo nesse horário.” Durante a happy hour – entre 18h e 20h dos dias da semana –, todos os vinhos em taça e todos os petiscos têm 20% de desconto.

Democrático: Los Mendozitos

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(Gustavo Pitta/Reprodução)

Primeiro wine truck do Brasil, o Los Mendozitos decidiu evoluir com esse consumidor e abriu uma loja/bar no Vila Butantan, um antigo ponto de food trucks que se transformou num espaço com lojas construídas dentro de contêineres coloridos. “Trabalhamos com um consumidor jovem. Pode ter 70 anos de idade, mas não tem ideias preconcebidas e está disposto a se aventurar. Nos trailers e nas bikes, só vendemos vinhos de, no máximo, R$ 75 a garrafa. No bar, temos uns mais caros, de até R$ 92. Ainda assim, para ter qualidade, fazemos uma curadoria cuidadosa”, diz André Fischer, sócio da casa. Eles só trabalham com vinícolas pequenas, familiares, desconhecidas do público. Os atendentes, segundo Fischer, não são sommeliers propositalmente, que podem ter uma linguagem viciada. São atores, cantores, jovens com facilidade para se comunicar com o público. No treinamento, eles experimentam cada rótulo e aprendem a história de cada família que o produziu. “O que nós queremos é contar a história do vinho”, diz Fischer.

De onde vem a onda

Muitos dos novos consumidores começaram a beber vinhos em encontros de food trucks. Agora, as vendas saíram das ruas e evoluíram para bares especializados

 

Produto nacional: Red Buteco de Vinhos 

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(Gustavo Pitta/Reprodução)

Daniel Rugani, sócio do Red Buteco de Vinhos, bar na Vila Madalena especializado em vinhos nacionais, conta que o nome da casa, grafado com “u”, foi escolhido para se desfazer da formalidade. Ser informal, no entanto, não significa um descompromisso com a cultura do vinho. O bar, que também é loja, organiza cursos e degustações. Totalmente dedicado às safras brasileiras, tem rótulos de praticamente todos os estados. “Só não temos de Goiás, pois a produção é muito pequena, e do Rio de Janeiro. A ideia é trazer vinhos que as pessoas não estão acostumadas a tomar.” Para dar uma forcinha, eles contam com as máquinas de servir vinho em taça (como torneiras de chope), capazes de conservar as garrafas abertas. Nessa máquina, o syrah mineiro Luiz Porto Dom de Minas, por exemplo, sai por R$ 7 (30 ml), R$ 14 (60 ml) e R$ 22 (120 ml).