A economia verde da maconha, o mercado que mais cresce no mundo

A maconha, para fins medicinais ou recreativos, é a base da indústria que mais cresce hoje nos Estados Unidos e no mundo

O sofisticado, multibilionário e novíssimo comércio da maconha nos Estados Unidos tem algo em comum com o mercado de vinhos. Nas prateleiras, é possível escolher o tipo de erva, testada em laboratório. O consumidor pode selecionar terroir, potência e sabor. Usa para se divertir ou para se curar – a erva é tão danada que serve para as duas coisas. Somente aqui em Portland, uma das cidades mais progressistas dos EUA, existem quase 200 dispensários autorizados pelo governo a vender maconha. Há os pequeninos de bairro, as redes com várias lojas, aqueles que só vendem orgânicos, uns que só tocam reggae e outros que se recusam a tocar reggae. Para todos os gostos.

A recepção do dispensário Serra (estufa, em italiano) mais parece o lobby de um hotel boutique do que uma loja de cannabis. Entrego meu documento para a simpática recepcionista e sento numa poltrona italiana minimalista para beber chá de bergamota, cortesia para os clientes. Após o cadastro e a confirmação de que sou maior, bem maior de 21 anos, sou chamado para a sala principal onde o vendedor, aqui conhecido como budtender, irá me conduzir na árdua tarefa de escolher entre as mais de 50 espécies de flores disponíveis, produzidas em diferentes fazendas. O amplo e bem iluminado salão exala aquele aroma fresco e natural de quem acabou de cortar a grama do jardim. No centro, vejo uma estufa de madeira e vidro com as ervas repousadas em uma almofadinha que até João Doria, prefeito de São Paulo, acharia top. O jovem e bem treinado budtender logo percebe que sou um novato no assunto e dedica todo o tempo do mundo para explicar as diferenças, características, efeitos e origem de cada flor daquele aromático jardim.

economia-verde-maconha-consumo-comportamento-saude

No Serra, um dos quase 200 dispensários em Portland: cannabis para relaxar, abrir o apetite, amenizar a dor… (Divulgação/Reprodução)

Assim como no mundo do vinho, há algumas características que devemos aprender na hora de escolher a erva ideal. A primeira delas é definir entre indica e sativa, duas famílias de uma mesma espécie. A primeira é mais física e relaxante enquanto a segunda é mais cerebral, criativa, energética. Há também a união genética das duas, as chamadas híbridas, que promete o melhor de cada lado. Outra divisão importante é o princípio ativo que a planta contém: THC, sigla de Tetrahydrocannabinol, e CBD, sigla de Cannabidiol. O primeiro altera o estado da mente enquanto o segundo tem efeitos estritamente médicos, sem chapar ninguém. Mais uma vez há também a combinação dos dois. A educação do consumidor é um dos principais desafios nesse primeiro momento. Há muita falta de informação e uma infinidade de escolhas que podem mais confundir do que facilitar. No Serra, as categorias são divididas de acordo com cada objetivo: foco, alívio, relaxamento, energia, alegria e criatividade.

Escolhi um pouco de Bruce Banner (verde-clara como o Incrível Hulk), Biscoito de Tangerina e um teco de Massacre dos Reis, sugestivos nomes para diferentes ervas. “Você vai querer levar também alguns comestíveis? Vaporizador? Óleo? Pomada? Algum tipo de bebida? Temos água, sucos, energéticos…”, esclarece o budtender. Há também bongues, joias, peças em couro feitas à mão e camisetas com o slogan “Serra, drogas de qualidade”. Preferi deixar todo esse universo para uma segunda visita e segui para o caixa. Os três gramas custaram 36 dólares mais 20% de impostos – dinheiro investido em escolas públicas, programas de prevenção e também na polícia local. Estima-se que somente em 2016 cerca de 1 bilhão de dólares entrou nos cofres dos estados americanos pró-cannabis. Entrego meu cartão de crédito, de pronto recusado. Neste mercado tudo é pago in cash. Apesar da legalização estadual, a maconha ainda é ilegal federalmente, tipificada como “nível 1” ao lado de heroína, por exemplo. É por isso que bancos e operadoras de cartões de crédito não fazem parte desta corrida pelo ouro verde (ainda). Existe também um outro elemento em jogo causando mais insegurança jurídica: Donald Trump e sua equipe conservadora. Jeff Sessions, o novo procurador-geral da República e ministro da Justiça (nos EUA a mesma pessoa acumula os dois cargos), é o cara que disse que a Ku Klux Klan, seita de supremacia branca responsável pela morte de 3 446 pessoas, era “OK” – até descobrir que eles fumavam maconha.

economia-verde-maconha-consumo-comportamento-saude

(Divulgação/Reprodução)

Na mesma data em que Trump foi eleito, mais sete estados americanos, incluindo a gigante Califórnia, aprovaram alguma forma de legalização da maconha, medicinal ou recreativa. Dos 50 estados americanos, 28 já liberaram seu consumo. Juntos, respondem por um faturamento de 6,8 bilhões de dólares somente em 2016. Segundo a ArcView Market Research, principal fonte de dados do setor, a previsão é que o mercado americano triplique de tamanho nos próximos quatro anos, atingindo 21,8 bilhões de dólares. Valores de um mercado legalizado, com nota fiscal, recolhimento de imposto e empresas listadas na bolsa de valores. Trata-se da indústria que cresce mais rápido nos Estados Unidos e no mundo. É mato que não acaba mais.

A consultoria de riscos Viridian Capital Advisors criou um índice para acompanhar as ações das 50 maiores companhias listadas na bolsa de valores americana com atuação direta no potente mercado da cannabis. Enquanto a valorização média da bolsa foi de 10% em 2016, empresas amigas da maconha atingiram 256% de valorização. Já existe também uma aceleradora de negócios exclusiva para o setor. Além de investir até 80 mil dólares em novos empreendimentos, a Canopy oferece uma imersão de 16 semanas com todos os atalhos para a criação do modelo de negócios, recomendações jurídicas, contábeis, dicas de comunicação, gestão e tudo aquilo que fará com que a nova empresa tenha sucesso sem queimar na largada. A Canopy é parte do grupo ArcView, que conta com 625 investidores que já aplicaram mais de 91 milhões de dólares em 135 companhias.

Serviços sob demanda precisam ter alta frequência de uso, agilidade e disseminação popular para ter sucesso. A maconha tem tudo isso, é um casamento perfeito”

Keith McCarty, fundador do aplicativo Eaze

Uma das startups mais celebradas dessa indústria nasceu no Vale do Silício. Com o aplicativo Eaze o consumidor escolhe o tipo de erva, quantidade e acessórios, e espera sua encomenda chegar em casa em até 20 minutos. Lançada em 2014, a empresa já está em 100 cidades da Califórnia, tem 250 mil pacientes (somente quem tem a carteirinha de uso medicinal pode usar o serviço por enquanto) e recebe um pedido a cada 30 segundos. Keith McCarty, seu fundador, levantou 25 milhões de dólares em investimentos, o maior valor entre as empresas do setor. Eleito empreendedor do ano pelo Marijuana Industry Awards, McCarty já tem bagagem como empresário bem-sucedido. Em 2012 vendeu para a Microsoft a plataforma social Yammer, por 1,2 bilhão de dólares. “Serviços sob demanda precisam ter alta frequência de uso, agilidade e disseminação popular para ter sucesso. A maconha tem tudo isso, é um casamento perfeito”, explica McCarty. Muito mais do que um simples delivery, o Eaze já está se transformando numa referência sobre os hábitos de consumo do setor. “Neste segmento as informações são muito escassas. Nossa tecnologia permite saber quais cepas têm mais saída, em quais horários, para qual tipo de público, em quais regiões e assim por diante. Isso mostra o comportamento do consumidor em tempo real e permite que toda a cadeia produtiva possa se adaptar aos padrões de consumo”, diz.

economia-verde-maconha-consumo-comportamento-saude

Tela do aplicativo Eaze (Divulgação/Reprodução)


Em 1991, durante a Guerra do Golfo, 288 mísseis Tomahawks foram lançados a partir de navios da Marinha americana. Paul Tomaso foi o engenheiro-chefe que ajudou a desenvolver a tecnologia de navegação dessa arma. Agora, Tomaso investe seu talento em sistemas de extração de cannabis. Por lei, todos os produtos devem ser testados em laboratórios credenciados aferindo potência, origem e princípios ativos, como uma bula de remédio. Em apenas dois anos seu laboratório MRX tornou-se um dos maiores dos EUA. “Decidi inventar uma máquina para produzir o extrato da maconha em larga escala, capaz de processar 100 litros por vez”, diz. O óleo da erva é extraído num processo que inclui gás carbônico e pressão, preservando a potência da planta. A essência é encapsulada em cartuchos de um grama, vendidos por 60 dólares. Para fumar, basta atarraxar a cápsula em um vaporizador – cada grama garante 300 tragadas. Ele não dá conta da demanda, mesmo cobrando 750 mil dólares pelo equipamento. “Faturamos 20 milhões de dólares no ano passado”, afirma o empresário, que não consome maconha e é casado com uma goiana. “Maconha não serve só para ficar chapado. A grande revolução virá pelo uso médico.”

Decidi inventar uma máquina para produzir o extrato da maconha em larga escala. Maconha não serve só para ficar chapado. A grande revolução virá pelo uso médico”

Paul Tomaso, empreendedor

Pacientes encontraram no CBD, o princípio ativo médico da maconha, uma forma natural e eficiente para combater dores musculares, glaucoma, efeitos colaterais de tratamento de câncer, esclerose múltipla e estresse. Gigantes da indústria farmacêutica como Eli Lilly e Merck declararam preocupação com o assunto. Para especialistas, é questão de tempo para que o princípio passe a ser vendido em farmácias. Até lá seguirei encontrando simpáticas velhinhas de cabelo roxo e andador nos dispensários, tentando adivinhar se estão atrás de CBD ou THC.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você
E-mail inválido warning
doneCadastro realizado com sucesso!