África do sul fora do eixo: fuja do óbvio na terra de Mandela

Sem as óbvias Joanesburgo e Cidade do Cabo, um roteiro de road trip sul-africana dividido em três etapas

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O cenário de Wild Coast, na região do Cabo Oriental (Andrew Honey/Divulgação)

Mulheres da tribo xhosa com o rosto pintado. Pastos pontilhados de rondavels, as casas redondas típicas do país. Deserto, montanhas e oceanos (Índico e Atlântico). Campos forrados de flores coloridas, vinhedos e floresta.

Ainda que a bicharada do Kruger National Park e a beleza estridente da Cidade do Cabo sejam a comissão de frente do turismo na África do Sul, os viajantes que vão mais a fundo descobrem um país altamente denso, onde 11 línguas oficiais dão a medida da complexidade cultural.

Em três meses de road trip, divididos em três etapas, buscamos rotas alternativas na terra de Nelson Mandela. A seguir, os lugares que valem o desvio, peneirados em mais de 10 mil quilômetros de estrada.

Etapa 1: da west coast às montanhas de Cederberg

Saindo da Cidade do Cabo, o fluxo de turistas escoa para o leste, rumo às winelands – as cidades que concentram a maior parte da produção de vinhos do país – e às praias da Garden Route.

No contrafluxo, tomamos o rumo da West Coast. Esparsamente povoada, a Costa Leste do Cabo Ocidental é a verdadeira “rota jardim”. Entre julho e setembro, a região se cobre de flores selvagens, em um fenômeno comparável às lavandas de Provence ou as tulipas holandesas.

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A vibe pé na areia do bar Die Strandloper (South African Tourism/Divulgação)

Viajando no verão, perdemos o espetáculo flower power, mas fomos recompensados com a temporada do lagostim (que é robusto como uma lagosta pequena) e um vasto catálogo de praias brancas praticamente vazias.

Flores e crustáceos à parte, o maior achado é Paternoster, um vilarejo de pescadores instagramável. Nos últimos anos, o povoado foi colonizado por capetonians bemnascidos em busca de pouca densidade demográfica, o que fez com que cafés e restaurantes charmosos fossem incorporados à atmosfera low profile do lugar.

A paisagem mais impactante da região é a do West Coast National Park, com 27 mil hectares cercados de mar azul-turquesa. Nas águas da Baía de Saldanha é possível tomar um banho de mar a uma temperatura humanamente tolerável – e sem a presença de tubarões-brancos. Para ficar mais perto do parque, descolamos um aluguel via Airbnb (com diária de US$ 30) no Club Mykonos.

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O visual do Cederberg, no Deserto do Kalahari (South African Tourism/Divulgação)

O condomínio tem uma das praias mais bonitas da redondeza e fica a cinco minutos da cidade de Langebaan e do restaurante que define o espírito da West Coast, o Die Strandloper. Lá é servido um banquete rústico em dez etapas, tudo feito na brasa, ao ar livre: para comer com a mão, de pé descalço e cabelo desgrenhado pelo vento.

O contraponto à ventania fresca da West Coast veio com uma incursão às tórridas montanhas do Cederberg, uma região semiárida ao sul do Deserto do Kalahari com formações rochosas vermelhas em formas insólitas – parada ideal para quem se dirige à Namíbia.

Um hotel espetacular na região é o Kagga Kamma, que tem alguns quartos escavados na rocha. Mas optamos por uma cabana remota na fazendo do Traveller’s Rest, próxima a um rio e a cavernas com pinturas rupestres. Éramos visitados diariamente por antílopes de vários tipos e outros animais cujos passos ouvíamos na escuridão. Enfim, a sensação de estar na África sem filtros.

Etapa 2: De Jeffrey’s Bay a Coffee Bay

A praia de Jeffrey’s Bay é famosa por ter a direita mais longa do planeta (onda que, vista do mar, quebra da direita para a esquerda) e pelo vídeo viral da luta entre o surfista australiano Mick Fanning e um tubarão, durante o J-Bay Open 2015.

Essa meca do surfe tem uma das melhores relações custo-benefício de hospedagens e é um baita destino praiano, com sol garantido e ondulação viável para um banhista relativamente valente.

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A meca dos surfistas, Jeffrey’s Bay (South African Tourism/Divulgação)

O centro da cidade é triste de feio. Mas foi amor à primeira vista topar com as pousadas e casas que se abrem para um jardim à beira-mar, perto da escada de madeira que dá acesso ao supertubes (a seção mais famosa da onda que nunca termina).

Avançando 400 quilômetros rumo a East London, a R72 desemboca na Wild Coast, o nome fantasia para a província do Cabo Oriental que os sul-africanos ainda conhecem como Transkei, um dos bantustões (territórios designados aos povos bantus) forjados na época do Apartheid.

Mais de 23 anos após o fim do regime, a região continua sendo uma das mais pobres e negligenciadas do país, onde poucos turistas se dão o trabalho de ir.

Nativo do Cabo Oriental, Nelson Mandela nasceu no povoado de Mvezo e cresceu em Quno, onde foi sepultado – há planos de que o lugar seja aberto à visitação em 2018, no centenário de seu nascimento.

Foi emocionante passar pela região, entender de onde veio o grande herói nacional e atravessar vilarejos citados na autobiografia dele, Longo Caminho para a Liberdade (Ed. Nossa Cultura).

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A praia selvagem de Chintsa (South African Tourism/Divulgação)

Pelo Transkei você verá os típicos rondavels, cuidados por mulheres com o rosto pintado, e escutará o idioma Xhosa, fácil de reconhecer pelo estalar de língua e pelos sons guturais. De quebra, passará por 350 quilômetros de costa banhada pelo Índico, mais cálido que o Atlântico, e algumas das mais belas e virgens praias do país.

A começar por Chintsa, onde encostas verdes desabam numa praia selvagem e um rio deságua no mar, formando uma lagoa cristalina. Nesse cenário, o albergue Buccaneers ocupa um terreno de frente para a orla, com dormitórios, quartos econômicos e chalés de luxo – com churrasqueira (os nativos não vivem sem um braai!). A área comum tem bar, restaurante e piscina. Se não for sua praia, há opções de hotéis de alto nível.

A 260 quilômetros de Chintsa, Coffee Bay é outro achado.

A baía é protegida por um paredão rochoso e o clima é meio hippie, meio Jamaica: muito no problem, fumaça e ritmo lento. Dormir em um rondavel do rústico Sugarloaf rendeu umas 300 picadas de pernilongo, mas conheci ali algumas das pessoas mais interessantes da temporada.

Etapa 3: de Kimberley a Drakensberg

No caminho entre o Deserto da Namíbia e a sul-africana Kimberley, veio a constatação: esquecemos de verificar se o diminuto Lesoto, país incrustado na África do Sul e nosso próximo destino, exigia visto para brasileiros. Resulta que sim.

Cercados pela imensidão do Cabo Setentrional (a região menos povoada do país), qualquer plano B demandava centenas de quilômetros a mais.

Deixando para trás a aridez de Kalahari, a paisagem vai ficando mais bucólica e o ar, mais fresco. Eis que surge Clarens, na província do Estado Livre.

Aos pés das Maloti Mountains, essa cidade de 7 mil habitantes é um refúgio de artistas, com uma quantidade impressionante de galerias por metro quadrado, além de restaurantes incrementados e lojas sofisticadas.

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Uma das trilhas do Royal Natal National Park (South African Tourism/Divulgação)

Como se não bastasse, está a poucos quilômetros do Golden Gate Highland National Park, onde montanhas verdes são varadas por rochedos dourados.

O parque é um aperitivo para o Royal Natal National Park, já na província de KwaZulu-Natal.

Lá está o Amphitheatre, um paredão de oito quilômetros em formato de anfiteatro que compõe o cenário mais dramático da Cordilheira de Drakensberg. Tranquilo até na alta temporada, o parque tem cachoeiras com piscinas naturais gélidas, além de várias trilhas e escaladas.

A melhor vista do Amphitheatre é à beira do lago onde fica a área de piquenique. Outro passeio indispensável é ir ao Cathedral Peak National Park, onde a cordilheira adquire o contorno de um eletrocardiograma.

Em toda a região, tão bacana quanto o panorama da montanha é a vida rural dos caminhos que levam de um parque a outro, com povoados e aldeias típicas. O que era uma saída de emergência acabou nos prendendo por mais de uma semana. O improviso, afinal, é a alma de uma road trip.


Para antes ou depois: Oito programas locais na Cidade do Cabo

First Thursdays
Na primeira quinta-feira do mês, galerias e lojas ficam abertas até tarde e os bares da Bree Street reúnem o maior número de mulheres bonitas na galáxia

The Neighbourgoods Market
Mercadinho finíssimo aos sábados pela manhã

Beau Constantia
Vinícola com o wine bar (e a vista) mais cool da cidade

Música no parque
Os shows no Jardim Botânico de Kirstenbosch são o programa da tarde de domingo no verão

Praia de Llandudno
Afastada do centro, tem ondas, mansões e visual matador

Pôr do sol no The Bungalow
É o lugar para tomar umas taças, depois de pegar praia na badaladíssima Clifton

Mercadinho de Muizenberg
Todos os caminhos levam a este reduto de surfistas

A carne é o forte
Comparável ao da Argentina, o churrasco sul-africano (braai) atinge outro patamar no Carne SA e no Nelson’s Eye