Ativismo sexy

Não é só o país que está em crise. Existe uma outra que afeta a forma como nós trocamos mercadorias

Crise virou conversa de elevador. Me lembro que antes da Copa do Mundo nós, brasileiros, estávamos com tudo, 13º no bolso, era sexta-feira à noite e feriado na segunda, e não tínhamos hora para voltar para casa. Isso até um chato chegar para colocar água na fervura: “Espera até o fim da Copa”. Eu acho que o famigerado 7×1 nos colocou nesta ribanceira da qual não vemos saída: parece que compactuamos como povo que a crise nos abateria depois da Copa. E não é que tivemos de ouvir dos chatos pessimistas que eles não passavam de realistas e que nos alertaram que os tempos de estio chegariam?

Mas não é só o Brasil que está em crise: existe uma crise que é menos endêmica, ao mesmo tempo mais profunda, que cruza a economia, mas afeta também as identidades, o planeta, as fronteiras e as trocas entre humanos em um sentido mais amplo. A crise não é circunscrita a um território: a economia representa a ponta visível, nos nossos bolsos e entorno, de uma reconfiguração na maneira como nós, humanos, trocamos entre nós mercadorias, sejam elas concretas ou simbólicas, decorrente de a tecnologia cada dia mais servir de membrana através da qual essas trocas ocorrem. Se o capitalismo é a moldura que enquadra a maneira como 98% dos humanos trocam, uma crise no modo como realizamos isso representará também uma crise do próprio capitalismo, que vários autores apontam estar se fissurando como as geleiras na Antártica: não que seu lugar será tomado pelo comunismo ou socialismo, mas muita gente acredita que estamos iniciando uma era pós-capitalista, de um capitalismo mais granular, mais autoral, miúdo, territorialista, pequeno, “de autor”.

Esse capitalismo mais miúdo se manifestará de algumas formas: num sentido mais amplo, comprar será um ato político em breve. E não entenda política como algo que acontece na Esplanada dos Ministérios: chamo de política qualquer relação que seja ponto a ponto entre humanos e humanos e entre humanos e coisas. Dessa forma, compraremos de empresas que tenham rosto, que não nos encham de mentiras, que paguem bem seus fornecedores, que tenham preço justo e responsabilidade com o futuro do planeta, que sejam sustentáveis e que se preocupem com as gerações que chegarão. As corporações transnacionais que conhecemos nos dias de hoje, estruturas que só se preocupam com o lucro e com o acúmulo de riqueza dos seus acionistas, serão substituídas por empresas mais locais, com os pilares fincados na comunidade, em que a relação fornecedor-consumidor desaparecerá e será substituída por uma relação mais horizontal, na qual o antigo proprietário agora será visto como o líder de uma comunidade que também é composta pelos consumidores de um determinado produto ou serviço. Empresas sem ética, voltadas unicamente para o lucro, serão vistas como obsoletas. Se antigamente se dizia que nada melhor do que o sexo para vender, o que era manifestado nas peças de publicidade que expunham glúteos até para comercializar jazigos em cemitérios, hoje o ativismo e o propósito ocupam o lugar que antes era do sexo. Preocupar-se com o futuro é sexy; consumismo sem consciência, mórbido.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia