Atores, apresentadores e empresários falam da vida com filhos

Os erros, arrependimentos e acertos de pais notórios – e as valiosas lições sobre as dores e delícias da paternidade

(Montagem: Bruna Guarizo/Revista VIP)

Marcelo Tas, Cauã Reymond, Felipe Andreoli, Dan Stulbach e outros famosos falam dos desafios da paternidade na vida moderna. Afinal, pai tem que participar.


Apoio x Negligência

Por: Marcelo Tas, jornalista e apresentador
Pai de Luc, 28 anos, Miguel, 16, e Clarice, 12

(Fernando Cavalcanti/Revista VIP)

“Meu pai era muito ocupado, tinha vários empregos. Cresci muito ligado aos meus avós, que moravam do lado de casa. E tinha uma vida muito livre, comecei a ser dono do meu nariz bem cedo.

Quando eu mesmo fui pai, nada foi planejado. Nunca tive esse sonho de ‘quero ser pai’. Sempre fui muito de viver a vida, o que acontecia naquele momento.

Só me enxerguei pai de fato quando o Luc saiu da barriga da minha primeira esposa. O homem é um ser primário. Tem tudo aquilo de sentir a barriga, os batimentos, e é claro que a gente se emociona, mas só cai a ficha quando o bebê sai.

Aprendi que criar um filho é tentativa e erro – e mais erros do que acertos. Não cometo irresponsabilidades, mas procuro dar a eles a mesma liberdade que eu tinha em Ituverava [interior de São Paulo].

Eles andam de transporte público, caminham na rua, os caçulas vão sozinhos para o cinema. Na minha infância também tinha riscos: por exemplo, ser picado por cobras.

É uma questão de conhecer a linguagem da violência de sua época e local. Uma questão de consciência de limites. A armadilha, o que não pode acontecer, é criar uma bolha. Apenas porque ela se quebra.

Se você quiser resolver a questão da violência de São Paulo andando de carro blindado, você está iludido – em algum momento, você vai ter que sair dele.

Converso muito com meus filhos. Miguel está na fase de falarmos sobre álcool e drogas, por exemplo. Eu gosto da hora da pizza. É preciso criar esses momentos: todo mundo junto e sem uma pauta, cada um pode falar o que quiser.

Outra coisa essencial é apoio. Luc é transgênero. Quando tornamos isso público, o efeito mais lindo foi despertar em outros pais e filhos uma vontade de compartilhar. Creio que a única saída seja esta: falar.

Praticar o verbo ‘apoiar’ é uma coisa tão simples e tão difícil. Apoio significa você estar quando ele o convoca ou quando você percebe que ele precisa mesmo sem ele falar nada. Apoiar não é controlar, tomar a frente, ser o protagonista.

Tomo muito cuidado com isso, mesmo nesse caso do Luc. A história é dele, não minha. Não quero e não sou o protagonista. Mas o que considero o maior desafio da paternidade é calibrar a participação com a ausência.

Creio que existe uma tentação de sermos participativos demais, e até do controle mesmo, que é um risco enorme nos tempos cheios de pressão que a gente vive.

Temos que colocar na melhor escola do mundo, oferecer as melhores experiências do mundo para postar no Instagram e mostrar que nosso filho é mais feliz que todas as pessoas.

Enxergar-se nessa posição pode levar os pais à loucura. Sempre procurei para eles escolas nas quais havia diversidade. Neste país já tão desigual, você colocar seu filho numa escola exclusiva o afasta da realidade. Apenas isso.

Tem muito pai que se ausenta da complexidade do mundo e acha que dar um beijo na testa resolve. Não. Você tem que olhar no olho. Sentir a angústia. E às vezes o bicho pega mesmo e não é bonito. Às vezes dá ruim.

A paternidade não é fácil. É difícil, árdua, às vezes dolorosa. Diante desse drama que é a vida, temos que não pesar a mão demais no controle ou soltar a mão demais na ausência. Só tem uma coisa que não se pode recuperar: o tempo.”


Menos preconceitos

Por: Facundo Guerra, empresário
Pai de Pina, 5 anos

(Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

“Como grande parte dos filhos criados na década de 80, minha relação com meu pai era relativamente fria. Ele era muito mais provedor do que pai de fato – era assim com os pais da geração do meu velho.

Não tinha muito contato íntimo, muito ‘eu te amo’. Hoje nossa relação é respeitosa, tenho muito carinho por ela, mas não é tão íntima e tão de amigo como a que tenho com a Pina.

Gerar um filho é fácil, ser pai é completamente diferente. Que tipo de filho eu quero ter? Que tipo de educação eu quero dar? De quanto tempo vou conseguir dispor para criar esse humano? Que tipo de preconceitos existem em mim que eu não posso deixar que sobrevivam na minha filha? Será que vou ter grana para dar conforto material para ela?

Minhas preocupações sempre foram mais ou menos essas. Nada é melhor do que o tempo que passo com a Pina. Ela virou minha medida para todas as coisas. Se vou para uma reunião e ela é completamente inútil, me pergunto: ‘Mais vale fazer essa reunião ou ficar uma hora e meia, duas horas com a Pina?’.

Se a resposta for o segundo caso, e grande parte das vezes é, eu não faço a reunião. Tento resolver por videocall, por e-mail.

Quero ser um pai participativo, responsável pela educação, um pai que não seja um bunda-mole, que imponha limites, mas que, ao mesmo tempo, encha a criança de amor. Ser pai para mim é uma questão de identidade.

Essa foi uma grande transformação que sofri: me ver como pai, assumir essa responsabilidade e desempenhá-la todos os dias.

Tento ensiná-la a não cometer os erros que cometi, não passar pelas exclusões que passei, mostrar para ela que a vida é linda. Quero que ela cresça otimista, que de alguma forma consiga mudar o entorno dela.

Tento fazê-la entender que encontrar uma criança numa situação de rua é errado, e que é papel dela também no futuro mudar isso. Quero que seja uma criança socialmente consciente e empática acima de tudo.

Tento estimulá-la o máximo possível com coisas legais, porque sei que essa é a fase que eu tenho para alimentar o cérebro dela com informação, formar olhar, ajudá-la a desenvolver suas aptidões, encontrar maneiras para ela se expressar, para dizer o que está sentindo e não se sentir oprimida.

Ser pai para mim representa uma puta de uma responsabilidade de não criar mais um imbecil. Todas as vezes em que vejo uma pessoa fascista, escrota, sinto um pouco de comiseração porque sei que a culpa não é dela.

O que faltou foi um pai e uma mãe que transmitissem os valores certos. Minha responsabilidade é não deixar que todos os meus defeitos se perpetuem na minha filha. Em algum momento a gente tem que parar de botar imbecis no mundo.”


Não sonhar por eles

Por: Dan Stulbach, ator
Pai de Anita, 6 anos, e Davi, 4

(Estevam Avellar/ Globo/Reprodução)

“Quando saí do hospital, com minha mulher e minha primeira filha no carro, indo para casa, foi que tive a exata sensação de que a partir dali tudo seria diferente. Era o fim do mundo como o conhecia. E estava tudo bem.

Minha principal preocupação era educar meus filhos para a vida. Que eles tivessem cabeça aberta, fossem atentos, curiosos e presentes. ‘Diga sempre por favor, obrigado e bom dia.’ ‘Ame e escute os mais velhos.’

Também me preocupo em perceber os talentos e personalidade e não fazer deles um projeto nem realizar meus sonhos através dos dois. Ao contrário: que eu curta e aplauda seus sonhos.

Me envolvi e me envolvo como posso no dia a dia da Anita e do Davi. Pergunto o que podem me ensinar. Vamos à padaria, plantamos vasos e cozinhamos pratos impressionantes.

A paternidade representa para mim um sentido real para o que acumulei. Um recomeço e um encantamento constantes.”


Vida social x tempo com ela

Por: Cauã Reymond, ator
Pai de Sofia, 5 anos

(Leo Aversa/Reprodução)

“Em todos os aspectos da educação, a gente sempre tenta encontrar uma forma de melhorar, de aprimorar o que aprendemos.

Segui com minha filha bastante coisa das experiências que tive como filho, mas também tento encontrar uma forma de fazer diferente.

Minha maior preocupação com a educação dela é transmitir bons valores. Desejo que ela consiga caminhar com os próprios passos, ainda mais em um mundo cada vez mais competitivo. E que encontre harmonia.

Procuro estar presente no cotidiano dela, dedicando tempo para estar com Sofia não apenas nos momentos de lazer, mas também nas atividades diárias, como levar à natação e à escola.

É preciso abrir mão de tempo para isso, da minha vida social. Mas não penso nisso. É muito bom estar junto, mesmo que seja somente acompanhando de longe uma brincadeira dela com as amigas.

Para mim, a experiência da paternidade é um amadurecimento diário e um amor imenso.”


Pai com culpa

Por: Thiago Fragoso, ator
Pai de Benjamin, 6 anos

“Para estar presente na vida do Benjamin, me privo do sono. Prefiro ficar na exaustão mas vê-lo todo dia, mesmo que só no café.

Mesmo assim, no auge da loucura de trabalho ele reclama. Às vezes, tem locação fora do Rio e fico 20, 30 dias sem voltar para casa. Aí o bicho pega. Salve o FaceTime.

Essa leva nova de pais, plugados na contemporaneidade, vive um sentimento de culpa. Brinco que sou um pai com uma culpa meio maternal.”


Ligação construída

Por: Bruno Ferrari, ator
Pai de Antonio, 1 ano

(Divulgação/Reprodução)

“Racionalmente, me senti pai assim que Antonio nasceu, mas levei um tempo para entender emocionalmente que era pai.

Assim que o bebê nasce, ele tem uma ligação e um contato muito maiores com a mãe. O pai é apenas um ser estranho, que vai se encaixando nesse meio. Aos poucos a gente foi se entendendo, se relacionando.

Antonio me deu mais coragem para a vida. Ele não me trouxe preocupações. Me deu a certeza de que tudo vai dar certo. Tempo para ele a gente faz, basta querer.”


Ética se aprende em casa

Por: Felipe Andreoli, apresentador
Pai de Rocco, 6 meses

“Ser pai é uma mudança total de vida. Se o homem soubesse, ele não pedia despedida de solteiro, e sim despedida de ‘sem filho’, porque é uma troca imediata não só de estilo de vida, mas de visão do que acontece no mundo.

Antes, olhava moleques e lembrava de quando eu era daquele jeito, me via neles. Hoje, vejo meu filho. Como ele vai ser, o que vai fazer, como vai agir? Como vai ser o futuro dele e o mundo do futuro? Foi muito impactante isso.

Tem que controlar essa ansiedade de tentar prever e antecipar as coisas e deixar tudo acontecer na ordem certa.

Sou um cara muito ético. Uma das coisas que mais me chateiam é que todo mundo fala mal dos outros e dos políticos, mas eles são só um reflexo da sociedade. E acho que a gente começa a mudar isso dentro de casa.

Meu filho tem um pai e uma mãe que são figuras públicas, e em algum momento ele vai entender isso. Mas quero que ele saiba sempre que ele é só mais um neste planeta Terra.

Sei que ele vai ter privilégios que a maioria do nosso povo não tem, mas a vida está sujeita a oscilações, passei por elas na minha juventude.

O que mais quero é ter um filho educado, ético, com civilidade, que saiba respeitar desde as pessoas que trabalham na casa dele e o professor no colégio até os superiores no trabalho lá na frente.”


Superproteção X liberdade

Por: Paulo Borges, empresário
Pai de Henrique, 12 anos

(Raquel Cunha/Folhapress)

“A verdade é que ser pai sempre percorreu meus pensamentos. Houve momentos em que achei que seria; em outros, que jamais conseguiria em função do meu trabalho, meu ritmo e estilo de vida.

A decisão final de adotar ocorreu quase sem planejamento algum, em 2007. Do momento em que decidi ir adiante com a ideia, no fim de junho, até sair a documentação toda, foram menos de três meses.

A grande maioria das pessoas deseja adotar uma criança recém-nascida, branca, menina, e, se puder, de olhos claros. Quando me foi perguntado o que eu queria, cheguei a levar um susto. Nunca tinha pensado assim.

Respondi, de pronto, que se era para ter um filho queria um menino, negro, mas já crescido, com 1, 3 ou mais anos. Isso, com certeza, foi o fator de maior agilidade no processo. O Henrique já nasceu meu filho. Sinto do fundo da minha alma.

Eu o vi pela primeira vez em 3 de agosto, no meio de mais de 40 crianças de todas as idades. Ele estava parado, com as mãos no bolso, olhando fixamente para mim, como se já soubesse que eu era o pai que ele estava esperando chegar. Foi um olhar.

Henrique mudou minha vida de forma contundente. Me tornei uma pessoa mais tolerante, ouvinte, amorosa, mais atenta às questões humanas, às adversidades deste mundo. Mudaram minhas prioridades. Os objetivos e sonhos são os mesmos, mas a forma mudou, o tempo para tudo.

Tenho a clareza de que temos, os dois, uma situação de certo modo especial. Eu sou gay; ele, negro. Sempre deixei claro o formato da nossa família antes de colocá-lo em uma escola, de nos inserirmos em um meio social.

Não quero nunca que seja ‘especial’, mas que seja aberto, diverso, que possamos ser quem somos e trocar com as pessoas. Hoje temos um grupo de amigos que se formou naturalmente a partir da classe da escola, todas as famílias ficaram muito amigas, e esse convívio fortalece diariamente a nossa vida, a formação dele.

As delícias de ser pai são imensamente únicas. Trata-se de uma relação sem igual. Um abraço, um beijo, um colo, uma conversa, um filme juntos, dormir, acordar, viajar, rir, tudo fica expresso de maneira única.

Há dores que, de certa forma, se fazem na mesma intensidade. Não sei se por tensão, pressão do desafio de educar nos dias de hoje. Dá uma certa sensação de ‘tortura psicológica’ que eu mesmo me provoco.

É o desafio diário de lidar com as situações desconhecidas, inesperadas e improváveis do dia a dia. Hoje todos esses jovens já nascem conectados.

O ponto central da criação de um filho é lidar com a dicotomia superproteção x excesso de liberdade. É uma questão que construo todo dia.

Tenho e sempre tive o hábito de conversar, dialogar. A questão é que a partir de uma certa idade, e o Henrique está nela, eles preferem falar menos, se expor menos, começam a criar o seu mundo, sob seu olhar e perspectiva. E isso faz parte do seu desenvolvimento.

Preciso ter a habilidade e, ao mesmo tempo, a atenção de dar o espaço solicitado e estar sempre junto. Não é simples, mas é necessário – senão, corremos o risco de criar uma pessoa dependente, insegura, mimada, com desvio de percepção do outro e do coletivo.”

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