Aurélio sexual

As novas terminologias no dicionário do tesão

Acabei de receber em meu consultório um sujeito que só tem tesão por mulheres pelas quais está apaixonado. Ele não tem essa coisa de desejar uma bunda ou um peito sem contextos. Ele é um “demissexual”. Pensei então em usar esse meu espaço para atualizar o seu “dicionário do tesão”.

Você já deve ter escutado sobre os “assexuais”. Não confunda com o termo ligado à reprodução (seres vivos assexuados, que não têm capacidade reprodutiva), pois a capacidade biológica dos assexuais está ali, o que eles não têm é vontade de se envolver sexualmente com alguém. Às vezes, o desejo está só no envolvimento emocional: são os assexuais românticos, que podem ser ainda hétero, homo, bi ou polirromântico. Já os arromânticos são os que se satisfazem com as relações fraternas de amizade e familiares, não querem relação afetiva nem sexual.

A terminologia e suas variações estão mais atreladas ao desejo na relação com o outro, à atração, e não ao desejo que se experimenta fisiologicamente no corpo, tipo “vontade de transar”. Uma recente pesquisa com 351 pessoas que se consideram assexuais concluiu que 75% dos homens e quase 50% das mulheres relataram ter fantasias sexuais e gostar de se masturbar – muito provavelmente uma maneira de satisfação fisiológica e só. Ainda nesta categoria, existem os grey-A, que não sentem desejo sexual na maior parte do tempo – só de vez em quando.

Bom, mas você que é “alossexual”, ou seja, sente atração sexual por outras pessoas, pode ainda não ter se enxergado em nada do que eu falei, mas também não se sentir um homem “comum”. Como somos seres que vivem em sociedade, é bem confortável nos vermos identificados e refletidos nos outros. Por outro lado, estamos sempre tentando nos destacar da boiada. Nesse sentido, manipulamos as estatísticas a nosso favor. Veja, por exemplo, o caso do pênis grande. Quando serve para impressionar os outros, ter um pau acima da média pode render ao proprietário aumento de autoestima. Já na hora de transar com alguém que se incomode com o tamanho, fazer parte da maioria pode lhe parecer vantajoso.

Então, para você que não se sente um cara cujo erotismo está sempre à flor da pele, mas que também não está no grupo dos que sentem zero atração, saiba que você é, segundo esse novo dicionário da atração sexual, um “grissexual”. Dentro da categoria gris, é possível que você seja um “demissexual”, como meu paciente lá do começo do texto, ou um “litossexual”, alguém que não quer ser correspondido em seu desejo. Ou quem sabe a sua sexualidade seja uma “fraissexualidade”, aquela cuja motivação está no ato de desejar – e, com a concretização sexual, vem um balde de água fria e acaba-se o tesão. Ou ainda, quem sabe, você pode se achar na categoria dos “sapiossexuais”, alguém que precisa primeiro admirar intelectualmente o outro: suas ideias, cultura, inteligência.

Seja o que for que move seu desejo, não perca tempo em se adequar à maioria. Tem uma porção de pessoas que podem ser iguais ou parecidas com você. Além disso, a satisfação sexual pode ser apenas uma vivência física, nem tão incrível assim para muitos, que deslocam seu desejo para outros fins, seja o trabalho, o esporte, a comunidade, os estudos e afins. O importante é desejar, o que move a vida. É como eu digo: sem tesão não há salvação!

Ana Canosa é psicóloga clínica, terapeuta e educadora sexual e acredita que as redes sociais podem ajudar as pessoas a treinar conversação