Barra da Tijuca: a Miami dos cariocas

Um passeio pela Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, bairro que já foi sinônimo de lugar cafona e reduto de ricos frívolos

“Na zona sul você vê pessoas tomando um champanhe maravilhoso de sandália rasteira. Aqui na Barra, não. Aqui é salto alto”, deixa claro a advogada Ana Teresa Patrão, 46 anos, numa tarde de segunda-feira de março, durante o lançamento de um perfume de luxo numa loja do BarraShopping, o maior da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Capitaneado pela promoter número 1 do bairro, Nina Kauffmann, o evento recebe o pomposo nome de “experiência olfativa”. O perfume, da tradicional marca inglesa Creed, tem notas de rosas e tangerina – o que inspira o drinque oferecido no lançamento, com licor e pétalas de rosa, suco de tangerina, espumante e gim-tônica. A experiência se completa com uma apresentação sobre a marca, criada em 1760 pelo alfaiate do rei George III, da Inglaterra, e que 257 anos depois ainda aposta em um processo quase artesanal e em ingredientes naturais. Preço do frasco: R$ 1 441.

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A bela avenida Niemeyer (Fábio Teixeira/Reprodução)

O verniz ao consumo puro é dado pelo que cerca a tal experiência: conhecimentos sobre a história da Inglaterra no período da criação da marca. E isso serve para atender a uma demanda dos moradores da Barra, que brigam pelo fim do estereótipo de futilidade que os cerca desde que, nos anos 90, o termo “emergente” foi cunhado pela colunista social Hildegard Angel. A palavra passou então a ser usada pelos moradores da zona sul do Rio, de forma pejorativa, para definir o “barrense”, em referência aos novos-ricos preocupados apenas em gastar. Hoje, a jornalista prefere comparar, em seu blog, o “principado da Barra” ao de Mônaco, “com um IDH altíssimo, com seus aristocratas (os grandes pioneiros, que desenvolveram o bairro com seus altos investimentos), suas aristogatas, sua corte, seus endinheirados e todo o elenco que envolve um mundo encantado”, escreveu ela – desta feita, sem ironia alguma.

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Praia livre de arrastão (Fábio Teixeira/Reprodução)

Muitas das mulheres presentes no lançamento do perfume fazem parte da nobreza do bairro. E, no dia a dia, participam de ritos nos salões de grifes internacionais, quase sempre em cima do salto 12. No dia seguinte ao evento no BarraShopping, várias delas estavam num bate-papo com o psicanalista Manoel Thomaz Carneiro na Tiffany, no VillageMall, o mais luxuoso shopping do bairro. Outras tantas marcavam presença em um evento na Cartier na quarta e, na sexta-feira, em outro, na Dolce & Gabbana. Todos organizados por Nina, ex-moradora da Tijuca e Ipanema, que vive na Barra há duas décadas. “Quando me mudei para cá, precisava ir para a zona sul sempre. Hoje não há essa necessidade. Isso aqui é uma cidade, tem tudo”, diz a promoter, que rechaça o preconceito. “Em todo lugar tem gente que tem postura ou não. A Barra de hoje é terra de mulheres belíssimas e antenadas e homens elegantes.”

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O vizinho gastrobar (Fábio Teixeira/Reprodução)

A maior parte deles está em busca de sossego e agito na mesma medida – e não necessariamente na vida noturna. Adepto de trilhas e corrida de aventura, o designer Alexandre Castello Branco, 35 anos, passou a infância no Leblon, mas desde os 15 mora na Barra. Lembra da adolescência na night agitada do bairro, em boates que não existem mais, como o Studio 54, de Ricardo Amaral, ou a cervejaria DaDo Bier. Mas, aos poucos, foi migrando para o dia. “A Barra é excelente para esportes ao ar livre. Treino direto no Joá. Corro no Bosque da Barra e faço trilha na Pedra da Gávea, que tem cachoeira e, no alto, um visual alucinante. E a praia é extensa e limpa, corro muito lá”, diz ele, enumerando algumas das belezas naturais da região.

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O pianista Nelson Freire (Fábio Teixeira/Reprodução)

Na praia, aliás, em um domingo de sol, é fácil encontrar beldades como Maria Fernanda Cândido, Letícia Spiller e Isis Valverde desfilando seus biquínis e boa forma pelas areias, que não sofrem com os arrastões e a poluição que acometem as da zona sul. Com mais de 350 mil moradores que vivem em uma área de 165 quilômetros quadrados (equivalente a, veja só, o tamanho de Miami), entre dois maciços de montanhas e o Oceano Atlântico, a Barra é o local onde vários atores e atrizes da Globo moram, até para ficar mais perto do Projac, em Curicica.

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Praia e avenida largas (Fábio Teixeira/Reprodução)

Shopping é praia de quem?

Empresário no ramo de restaurantes, Sérgio Silva, 64 anos, é um dos sócios do Azzurra, no Rio Design, e do Mix Delícia Grill e Pizza, no condomínio Le Monde. Nascido em São Paulo, em 1994 mudou-se para o Rio e instalou-se no Leblon. Sua família, com mulher e duas filhas já crescidas, era dona de cinco carros, mas o prédio só tinha duas vagas na garagem – o que já é um luxo na zona sul, onde muitos edifícios nem vaga têm. Está na Barra desde 2001, onde não encontra problema algum com garagem – mesmo porque no bairro, como se diz, quase tudo é feito sobre quatro rodas. “Mas na zona sul, onde se faz tudo a pé, cada um desce na hora que quiser e sai para o seu próprio programa. E tem turistas aos montes, os restaurantes vivem com filas. Aqui, o tipo de vida faz com que as famílias saiam mais juntas. São muitos restaurantes excelentes, e sem fila, normalmente nos shoppings. Aliás, devemos ter a maior quantidade de shoppings por quilômetro quadrado. Mas neles, há 15 anos, só havia aquelas praças de alimentação com fast food. Hoje, há alguns dos melhores restaurantes do Rio.” Sérgio não está exagerando: são 13 shoppings centers médios ou grandes que se espalham pelas duas maiores avenidas do bairro.

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A praia ainda é limpa (Fábio Teixeira/Reprodução)

Boa parte da vida se dá dentro deles. O coração do bairro é o BarraShopping. Mas os ricos e os famosos são mais facilmente encontrados no Rio Design Barra e, principalmente, no VillageMall, onde você pode esbarrar com Fátima Bernardes fazendo compras numa tarde de sábado ou com Angélica levando os filhos para a área infantil no domingo. Com lojas de grife internacionais e restaurantes estrelados, como Naga e CT Brasserie, ele atrai um público que preza a discrição e tem dinheiro para gastar. Frequentador dos restaurantes do VillageMall e do Gabbiano, no Barra Garden, o diretor executivo da rede de cursos Yes, Rogério Gama, 60 anos, mudou-se para o bairro há 18, vindo do Grajaú. “A maioria dos moradores daqui é egressa da zona norte. Não sou diferente. Fiz um movimento bem característico quando fui passando da classe média para a média alta. Minha mulher queria ir para o Leblon, mas era mais caro, e na Barra havia mais espaço. Era um lugar perfeito para uma classe média emergente, da qual eu fazia parte. E falo isso sem nenhum tom pejorativo. Ser emergente não é defeito, é um movimento. O preconceito é que dá um tom ruim à palavra”, diz.

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Açogue gourmet na Olegário (Fábio Teixeira/Reprodução)

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Caio Castro é habitué da praia (Fábio Teixeira/Reprodução)

Além dos shoppings, a vida na Barra se dá em condomínios fechados – reflexo do constante estado de vigilância de muitos que moram no Rio. Neles, a palavra de ordem é segurança. O casal de advogados Rogério Reis de Mello e Ana Teresa Patrão morava na Tijuca até 2003, quando a violência no bairro o fez procurar um lugar onde pudesse viver sem tantos sobressaltos. Na cidade, poucos locais são mais seguros do que um condomínio da Barra. “Há monitoramento e vigilantes 24 horas. Há também qualidade de vida e, ao contrário do que se pensa, mais liberdade. Quando me mudei para cá, meus filhos passaram a brincar pelas ruas do condomínio, a descer sozinhos para encontrar os amigos. Cada condomínio é um minimundo”, diz Ana.

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Grazi, ilustre moradora (Fábio Teixeira/Reprodução)

Polo gastronômico

Até bem pouco tempo atrás, a ideia de sair da zona sul para ir à Barra da Tijuca era recebida com olhares enviesados e sorrisos irônicos.

– É longe! É brega!

– Só dá para ir de um lugar a outro de carro!

– É a Miami que não deu certo!

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Juliana Paes no BarraShopping (Fábio Teixeira/Reprodução)

Esses comentários continuam sendo ouvidos em Ipanema e no Leblon. Mas os moradores da Barra não estão nem aí. E retrucam, dizendo que muita gente faz o caminho contrário hoje e vai da zona sul para os bares e restaurantes da Barra. A “Olegário” – como os íntimos tratam a Rua Olegário Maciel – fica abarrotada de segunda a segunda. Foi o local escolhido por Thomas Troisgros, 34 anos, quando ele resolveu expandir sua hamburgueria, o T.T. Burger, há dois anos. “O T.T. é loja de bairro, shopping não está no radar. Desde o início, quando pensava na Barra, já imaginava a Olegário”, conta Thomas, filho do chef e apresentador de TV Claude Troisgros – que também tem um restaurante no bairro, o CT Brasserie.

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Se antes os shoppings tinham meras praças de alimentação, hoje eles contam com ótimos restaurantes (Fábio Teixeira/Reprodução)

Outro que aposta na Barra é Ricardo Amaral. O empresário já foi dono de academias, parque de diversões, boliche, tobogã, rinque de patinação, restaurantes, boates e casas de show. Ele ganhou o apelido de rei da noite carioca. Mas, por noite carioca, entendia-se a da zona sul, especialmente a do trecho entre os bairros de Ipanema e Leblon, onde mora. Nas últimas décadas, fez algumas importantes incursões barrenses, especialmente com a abertura do Metropolitan em 1994 e a da boate Studio 54, que não durou muito. “Era a época das gangues de jovens da Barra, tinha briga todo dia na boate. Por isso ela não deu muito certo, embora lotasse toda noite. Virou uma arena. Graças a Deus não se vê mais isso”, diz Ricardo, relembrando os famosos pitboys que infestaram o bairro nos anos 90 e início dos anos 2000.

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Novidade: T.T. Burger (Fábio Teixeira/Reprodução)

Agora, pela primeira vez a Barra parece ter se tornado a menina dos olhos de Ricardo. Em parceria com dois empresários, ele investe pesado no Vogue Square, shopping voltado para gastronomia, ao levar 12 empreendimentos para lá, três com a sua marca: o Gattopardo, o Boteco do Amaral e a casa noturna Le Club, que pretende funcionar como clube privê – para frequentar, a pessoa deve se tornar membro, pagando anuidade de R$ 2 500 para homens e R$ 1 000 para mulheres, com direito a acompanhante (sem consumo). O ambiente é exclusivíssimo. Recebe empresários, juízes, desembargadores, além de artistas como Flávia Alessandra, Juliana Paes e Vanessa Lóes com o marido, Thiago Lacerda, dono de uma unidade da charutaria Candice Cigar Co. no Vogue. “O Le Club é o que a Barra precisa em matéria de noite. Um local elegante, charmoso. O VillageMall, o BarraShopping, o Rio Design Barra, o Casa Shopping e, agora, o Vogue são locais que atendem muito bem esse público dos condomínios. Hoje, pode-se comparar esses condomínios aos melhores de Miami. Sempre olhei para Barra com olhos de Rio do futuro. É um exemplo do que se pode fazer em poucos anos numa cidade”, acredita. Ricardo está prestes a reinaugurar em maio seu mais famoso empreendimento: a boate Hippopotamus. Mas esta será em Ipanema.

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Ricardo Amaral, outrora rei da noite, abriu na Barra o Vogue Square, shopping voltado para a gastronomia (Fábio Teixeira/Reprodução)

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Charutaria Candice Cigar Co. no Vogue (Fábio Teixeira/Reprodução)


Guru da elite

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Manoel Thomaz Carneiro (Fábio Teixeira/Reprodução)

Espécie de guru de mulheres dos 30 aos 80 anos no que se refere a assuntos existenciais, o psicanalista Manoel Thomaz Carneiro começou a dar cursos em 1989, em Ipanema e, mais tarde, no Leblon. Desde o fim de 2016, abriu duas turmas na Barra, numa sala do hotel cinco estrelas Best Western, no Vogue Square, chamada Espaço Arte, Cultura e Psicologia. Em seu curso mais famoso, “Amar o amor”, fala de dores do coração e vazios da alma à luz de Freud, Lacan e outros psicanalistas e filósofos. Morador de Copacabana, Manoel já havia dado um curso na Barra há 15 anos, mas não curtiu o clima, com mulheres chegando de helicóptero – e atrapalhando a aula com o barulho – e uma boa dose de frivolidade. Hoje, não poderia estar mais feliz. “Minha turma da Barra é surpreendente pelo silêncio, concentração e valor que dá à informação. Há uma escuta tão interessante, tão inspiradora e tão diferente de 15 anos atrás… Há densidade. Eu lido com a elite, e vejo nela um desencanto com o dinheiro, uma atitude mais pé no chão. Eles não buscam mais simplesmente viver o luxo. Buscam um sentido para a vida. Em vez de vestir uma marca, o mais importante é deixar uma marca”, filosofa Manoel.

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