Carl Honoré, líder do movimento Slow

Não se trata apenas de desacelerar, mas, sim, respeitar a velocidade de cada momento. Precisamos viver o presente, tanto os momentos bons como os ruins

Certo dia, o jornalista escocês Carl Honoré leu sobre algo que pareceu a solução de seu “problema”: uma coleção de livros de história de ninar em 60 segundos. “Não tinha a menor paciência de contar histórias para meu filho à noite. Aquilo parecia uma perda de tempo. Fazia leituras dinâmicas de Branca de Neve em que havia só três anões”, brinca. Quando pensava em comprar a coleção, teve o estalo que mudou sua vida: por que, afinal, ele vivia com tanta pressa? Por que as pessoas estão nessa corrida frenética contra o relógio? Como todo bom jornalista, começou a pesquisar e descobriu alguns movimentos que pregavam o pé no freio, como o italiano Slow Food. Escreveu um livro, Devagar, que virou a bíblia do Movimento Slow no mundo. Ele esteve em São Paulo em abril a convite da The School of Life– cujo objetivo é, por meio de palestras, conversas e cursos, ajudar as pessoas a desenvolverem a inteligência emocional por meio da cultura – e nos recebeu para esta entrevista. Com muita calma.

Quando falamos de Movimento Slow, tem gente que pensa tratar-se de fazer tudo bem devagar. Mas não é essa a ideia, certo?
A filosofia Slow não significa fazer tudo a passo de caracol. Isso seria um absurdo. Não sou extremista nem fundamentalista da lentidão. Sou uma pessoa rápida. A essência do Movimento Slow é pregar que temos de fazer as coisas em uma velocidade justa, correta. Há momentos em que temos de ser rápidos, e em outros devemos desacelerar. É muito pobre e muito triste estar fechado em uma jaula em que tudo funciona em uma velocidade só. O problema é que fazemos isso e, em geral, é na velocidade máxima. O Movimento Slow, no fundo, é um esforço para recuperar a autonomia temporal, o controle sobre nossos próprios tempos.

Quando você começou a estudar o Slow, a tecnologia não era tão presente em nossas vidas. Como ela impacta nisso?
Meu livro Devagar saiu em 2004. Naquela época, a tecnologia estava começando ainda a dominar a vida cotidiana, e a mudança até hoje foi brutal. Adoro aparelhos tecnológicos e acho que a tecnologia não é boa nem ruim, depende do uso que fazemos. A revolução digital caiu como uma bomba em uma sociedade já hiperacelerada, e a abraçamos para viver ainda mais acelerados. Mas a contracorrente do Slow já tinha força suficiente para aguentar essa bomba e também para reagir. Recebo muitos convites e contatos das empresas tecnológicas do Vale do Silício. São as próprias pessoas que estão metidas nesse mundo que se dão conta de que não há lógica em viver assim, distraídos, improdutivos, sem conseguir se conectar com seus filhos e parceiros. Eles buscam um equilíbrio. Me sinto mais otimista hoje do que há dez anos. A tecnologia é uma tentação, mas seguimos sendo seres humanos, com as mesmas necessidades de reflexão, descanso, conexão.

(Divulgação/Reprodução)

Como começar a desacelerar?
Com pequenos passos. Dá medo desacelerar. Em muitos casos, as pessoas estão correndo para escapar de grandes perguntas, dúvidas, problemas. “Não tenho tempo para pensar nessas coisas tão profundas.” Uma das grandes ironias é que temos tanta pressa que queremos desacelerar rapidamente. Queremos aproveitar a calma interior do Dalai Lama em uma hora. Não é assim. É um processo lento. E sem fim. Acho que temos sempre que estar atentos, alertas, vendo os perigos, as tentações, tentando evitar as armadilhas da velocidade. Não é preciso que você desligue o celular uma semana inteira a partir de amanhã. É impossível. Mas você pode desligar por uma hora.

Como foi para você?
Com o celular foi duro, eu estava sempre muito conectado. Cheguei ao ponto de dormir com o aparelho do lado. O primeiro passo foi tirá-lo do quarto. Uma regra básica: tentar ter pelo menos um cômodo, de preferência o quarto de dormir, livre de tecnologia. Um lugar onde as pessoas possam se juntar sabendo que não vão ter distrações, estímulos. Eu fui então repensando o uso do aparelho. Para cada passo que dava, avisava as pessoas que não estaria mais disponível 24 horas, sete dias por semana. Percebi que muitas começaram a fazer a mesma coisa, como se eu tivesse dado permissão para elas. E também cortei minha agenda. Estava tentando fazer coisas demais, e isso equivale a fazer tudo rápido. Temos que saber priorizar. Olhei tudo o que queria fazer em uma semana e criei uma lista em ordem de importância. E fui cortando o que era menos importante. Percebi que fazia muitas coisas por inércia, para agradar outras pessoas. E tinha medo do vazio, do tempo ocioso. Hoje sou o mestre dele. Minhas palavras favoritas são “modo avião”. E continuo sendo produtivo, mas aproveito muito mais tudo hoje. Outra dica importante é habituar-se a dizer não para um convite, pedido ou compromisso por dia.

O exercício é simples: desmarque ao menos um compromisso por dia. Priorize as atividades. Não tente desacelear de uma hora para outra. Você não vai conseguir desligar o celular por uma semana. Mas pode desligar por uma hora

A velocidade afeta nossos relacionamentos também. Estamos acelerados demais inclusive no sexo?
Há pouco tempo saiu uma notícia na Inglaterra de um casal que ia se divorciar e, quando o juiz perguntou a razão do divórcio, o marido contou que a gota d’água foi quando eles estavam fazendo amor: o sujeito fechou um pouco os olhos e, quando abriu, viu que a mulher estava com o smartphone na mão mandando um e-mail. Uma em cada cinco pessoas interrompe o ato de fazer amor por causa do celular! Precisamos reaprender a nos conectar com nós mesmos. Muita gente só cai em si quando fica doente ou quando um relacionamento termina porque você não tem tempo para o outro.

Para você, o que é qualidade de vida?
[Pensa muito] Para mim é viver plenamente cada momento, tanto os ruins quanto os maravilhosos. Creio que quando as pessoas são mais velhas e olham para trás em suas vidas, os arrependimentos em geral surgem da falta de ter vivido coisas ou da falta de relações humanas muito profundas. Isso, sim, é perda de tempo.