Como a vida digital pode salvar quem está no maior baixo-astral?

Conheça o GPS da depressão!

Por Dagomir Marquezi

Os melhores cientistas são aqueles que não têm medo do ridículo. Buscam a simplicidade. Geralmente são os que conseguem mais resultados práticos. Dois pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard (Andrew Reece e Christopher Danforth) queriam descobrir formas alternativas de analisar pessoas com tendência à depressão. Descobriram resultados onde menos podiam esperar.

Reece e Danforth analisaram 166 usuários do Instagram. E perceberam que os que usavam tons mais cinzentos e azuis nesses filtros eram os mais propensos à depressão.

Outro cientista não concordou muito com essa tese. O doutor Stephen Schueller, professor em medicina comportamental da Northwestern University em Chicago, diz que não revelamos nossas verdades mais profundas nas redes sociais, mesmo inconscientemente. Segundo o doutor Schueller, o que mostramos na internet é um “retrato cultivado da vida de uma pessoa”.

Existe outro meio mais acurado de diagnosticar uma pessoa, segundo Schueller: pelo GPS. O celular no bolso de alguém não mente nem usa truques para disfarçar a realidade. Ele registra por onde uma pessoa andou, e em que ritmo. Pessoas em melhores condições psicológicas costumam se deslocar em ritmo regular e por caminhos mais estáveis.

Já pessoas com tendências depressivas tendem a variar seu ritmo de deslocamento e caminhar erraticamente. Se coordenado com uma agenda on-line do paciente, será possível ao psiquiatra verificar se, além dessas mudanças de ritmo, ele está faltando a compromissos e fugindo de atividades sociais – sinais evidentes de uma crise depressiva.

Não estamos falando de futilidades aqui. Pessoas com graves tendências suicidas estão sempre sujeitas a crises que podem gerar um suicídio – ou coisa pior, envolvendo outras vítimas. Esses novos recursos (análise do Instagram, monitoramento por GPS) são passos para evitar situações extremas. E essas pesquisas vão gerar outras utilidades não previstas. E métodos cada vez mais precisos e eficientes.

A revista Wired mostra que um grupo de pesquisadores da Dinamarca deu um passo além: passou a monitorar os pacientes deixando o microfone de seus celulares ligados permanentemente. Com isso, eles podem verificar as suas flutuações de linguagem. Durante crises, depressivos tendem a falar mais lentamente e com menos expressividade.

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A privacidade de uma pessoa é mais importante do que sua situação psicológica? Essa intromissão no cotidiano pode fugir ao controle? Estamos entregando nossa vida particular a forças que não conhecemos? Mais do que nunca, felizmente, essa é uma questão de opção pessoal. Nenhum “sistema”, nenhum estado controlador nos obriga a nada disso. E cabe a cada um de nós zelar para que continue assim.