Como os narradores estão matando o futebol

Eles fazem o que sempre fizeram. Isso é mortal num mundo cheio de opções

Por Leandro Beguoci

Muita coisa mudou no futebol. Menos os narradores de TV. A maior parte deles (há exceções) é tão ou mais atrasada do que a CBF. Reproduzem frases que já eram batidas há 20 anos. Seguem contando o que as pessoas conseguem ver na televisão há, pelo menos, 40 anos. O modelo está congelado. Narrador de futebol é uma das profissões que menos mudaram ao longo dos anos.

O resultado é que nossa compreensão do jogo também não evoluiu. Os narradores são os professores de milhões de pessoas. É por meio deles que nós nos apaixonamos pelo esporte. Ao seguir fazendo o que sempre fizeram, estão desinformando milhões de seres humanos. Estão contribuindo para reforçar aquilo que eles tanto atacam nas mesas-redondas – a mesmice do jogo, a chatice da partida.

Queremos ter um 10 clássico no time – mesmo que a gente não saiba muito bem o que um 10 clássico faria de bom para o nosso clube. Está ganhando? Coloque um volante para segurar o jogo. Perdendo? Mais um atacante. Nossos cérebros estão mergulhados numa piscina olímpica de clichês. Quando vemos algo diferente em campo, travamos junto com a mesmice dos narradores. E os últimos anos têm sido férteis em novidades.

Guardiola e seu novo sistema de organização dos jogadores em campo. O Leicester na liderança do Campeonato Inglês. Os jogadores que não são nem volantes nem meia. Os atacantes que marcam e atacam como faziam os laterais dos anos 1990. Não precisa ser nerd de futebol para perceber que os jogadores e técnicos não se contentam mais em fazer o que viam fazer seus ídolos na TV anos atrás. A mudança faz parte da vida de todo mundo, inclusive dos atletas. Então por que continuamos aplicando aos jogadores de 2016 as regras de 1966, 1976, 1986, 1996 e de 2006? Você gostaria de ser avaliado pelo seu chefe com os mesmos critérios aplicados pela empresa há 30 anos?

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Fico desesperado quando vejo um jogo e percebo que nada mudou desde a primeira partida que assisti na TV. As emissoras e os narradores estão transformando o futebol, um jogo apaixonante também por ser imprevisível, em uma repetição eterna sobre os mesmos assuntos. Entendo, em parte, o lado deles. Os lugares conhecidos são sempre mais confortáveis.

O problema é que, ao não se reinventar, correm o risco de alienar uma nova geração de pessoas que tem à disposição todo o entretenimento do mundo. E, nesse excesso de informação e de opções, nós sempre vamos para aquilo que soa mais novo. Infelizmente, estão conseguindo transformar o futebol num jogo de uma nota só – embora a vida dentro do gramado seja uma sinfonia com dezenas de novos instrumentos.