Coração amarelo

Tite nos fez voltar a querer ver um jogo da seleção, o que não acontecia muito antes do 7 a 1

A maior contribuição de Tite para a seleção brasileira não é a classificação precoce para a Copa de 2018, na Rússia. É a nossa vontade de ver um jogo do Brasil. E isso havia se perdido. Muito antes do 7 a 1.

Da conquista do pentacampeonato em 2002, com o trio de craques globais jogando o fino – Ronaldinho, Ronaldo e Rivaldo –, até a estreia do ex-treinador corintiano, a seleção viu corroer seu sentido mais profundo: ser um elemento de identidade brasileira, simbolizado pela camisa amarela. Ricardo Teixeira, CBF, CPIs, Parreira, os mesmos Ronaldos inchados de corpo e ego em 2006… E depois Dunga, Felipão de novo, o Mineirazo, Dunga reloaded. Foram muitas lavagens a esbranquiçar o tecido.

A simpatia que nós, brasileiros, alcançamos no mundo tem muito a ver com o futebol e a seleção. Quem viajou por outros continentes sabe. Quando nos apresentamos como brasileiros, é comum arrancar um sorriso do interlocutor. Porque, mesmo com todos os nossos problemas, gringos ainda nos identificam com alegria e felicidade. E aquela camisa amarela era o símbolo que melhor traduzia esse patrimônio intangível.

Para nós, entretanto, a seleção foi perdendo valor, transformada em fonte de corrupção, vítima de marketing predatório e ferramenta política nas mãos de velhacos. Jogadores passaram, inclusive, a desdenhá-la, pedindo dispensa ou atuando com desleixo. O distanciamento foi também físico, já que os amistosos passaram a incluir Estados Unidos, Europa, Ásia e pouco o Brasil. No mercado interno, muitos passaram a chamar a seleção de “time da CBF”. Praticamente uma capitulação.

Nesse meio tempo, cansei de ouvir e também perguntar: “Hoje tem jogo do Brasil?”, como se fosse um evento qualquer, banal. E era. Até que chegou Adenor Bachi.

Tite não é nenhum gênio da raça. Mas trouxe, além de competência e seriedade, paixão ao comando da seleção brasileira. Esse sentimento revela uma compreensão do que significa esse time de futebol que se reúne de quando em vez. Não é justo conosco transferirmos para a camisa amarela toda a ira santa contra Havelanges, Teixeiras, Marins, Del Neros. Pelo contrário, é preciso limpar aquele tecido dessa lama. E isso Tite está fazendo, mas não sozinho. O líder do time, Neymar, digno representante da linhagem de Pelé, Garrincha, Zico, Romário e Ronaldo, joga na seleção com prazer e dedicação visíveis.

Ganharemos a Copa da Rússia no ano que vem? Sei lá. Não importa. O que mais vale é a vontade genuína de torcer pela seleção. E isso está de volta.

Maurício Barros é jornalista, mestre em ciência política, blogueiro, comentarista dos canais ESPN e foi diretor de redação da PLACAR. Siga-o: @mauriciobarros