Corrida contra o câncer: o relato corajoso de um maratonista

Como o esporte foi fundamental para Erick Ferrari na luta contra o câncer e o levou para a linha de chegada

Erick Ferrari sempre manteve uma vida fisicamente ativa: já correu sete maratonas, 29 meias-maratonas, lutava boxe e fazia musculação. O comissário de bordo de 36 anos mora em Paris, na França, há nove anos e hoje se prepara para correr mais uma vez a maratona do Rio, desafio que almeja desde que passou pelo pesadelo do câncer.

O diagnóstico

A descoberta do tumor veio por acaso. Um tratamento para dor na lombar exigiu doses de anti-inflamatórios que lhe causaram problemas gástricos e uma endoscopia revelou que havia mais do que uma lesão ali e seria necessário fazer uma biópsia. Ainda sem um diagnóstico, durante um voo Paris-Rio, Erick sofreu uma hemorragia interna – um vaso próximo ao tumor se rompeu -, precisou ser hospitalizado por 11 dias e recebeu uma transfusão de sangue. De volta à França recebeu o resultado: um adenocarcinoma no estômago, câncer extremamente agressivo.

A cirurgia e o início do tratamento

A primeira etapa foi uma consulta com um cirurgião famoso. O doutor francês Najim Chafai atrai pacientes de toda a Europa e o contato rápido foi possível graças à médica particular de Erick. Vale ressaltar que todo o tratamento foi bancado pelo sistema público de saúde francês. Foi necessário submeter-se a uma cirurgia que durou 8h30 para retirada do estômago e esôfago e com material estomacal saudável refazer um novo esôfago para ligá-lo diretamente ao intestino. Sim, Erick não tem estômago. Por isso, a preocupação após a cirurgia era como seu corpo reagiria, uma vez que poderiam haver complicações.

As complicações apareceram. Sem poder beber água, foram 16 dias na UTI sendo hidratado apenas pela veia. Erick conta que o processo foi doloroso, pois seus lábios, boca e garganta ressecaram e ele começou a ter pequenos sangramentos. Além disso, remédios fortes, dores, sem poder movimentar o corpo, causaram momentos de paranóia, delírio e até surtos de agressividade. Ele lembra que hoje sua mãe e amigos contam que era assustador o aspecto que ele adquiriu com o passar dos dias. “Na época, todos entravam no quarto sorrindo, dizendo ‘Mas você está tão melhor!’… Mentira deles.”

O Dr. Chafai foi uma pessoa importante nessa fase e também uma grande inspiração para Erick não desistir de voltar a correr. “As mãos dele guiaram uma cirurgia delicadíssima e muito limitada, num corpo muito fraco, sem que eu pudesse perder mais sangue. E ficou do meu lado dizendo tranquilamente que eu ia conseguir. Ele salvou a minha vida”, lembra. A alta veio depois de 23 dias internado e logo após começaram as sessões de quimioterapia com uma visita do Dr. Chafai a cada três meses.

A importância da maratona

Quando Erick saiu do hospital, mal conseguia andar 100 metros e mesmo com todos os efeitos colaterais da quimioterapia se inscreveu para a Maratona do Rio, que acontece no dia 18 de junho de 2017, e deu a notícia no Facebook: “Eu vou correr os 42.2 km pela oitava vez! Faltando pedaço, fazendo quimioterapia, com os pulmões danificados ou não, eu juro que vou conseguir!”. A corrida tem uma grande carga emocional para Erick e vencê-la é seu grande objetivo. Era a corrida que o mantinha motivado para continuar o difícil tratamento e o esforço foi fundamental para sua recuperação.

Mas antes da chegada de seu maior desafio, Erick já enfrentou as pistas. Em sua primeira prova, cinco meses após a cirurgia, ele correu empurrando uma cadeira de rodas com o grupo Pernas de Aluguel, grupo voluntário criado para ajudar pessoas com dificuldade motora. Ele recorda que mal conseguia respirar, mas todos os 103 participantes da corrida o esperaram na última curva da prova batendo palmas. “Aquilo me revigorou!”, conta.

A Maratona do RIO

A Maratona do Rio é especial, pois foi onde Erick correu pela primeira vez , no ano de 2012 “Foi a maior vitória da minha vida. Meu pai invadiu a pista para correr os últimos metros do meu lado.” Em 2014, ele quis parar de correr, mas sua irmã correria pela primeira vez no ano seguinte e queria que ele estivesse junto. Agora, em 2017, ele deve correr aMaratona do Rio pela primeira vez desde que ficou doente. Com a notícia, amigos se inscreveram para correr junto com ele e apoiá-lo. Erick promete que dará a medalha para o Dr. Chafai, o “Homem de Ferro”. Enquanto ele busca completar os 42 km, o cirurgião correrá apenas metade da prova, já que também disputará o Ironman em julho.

Os cuidados que Erick precisa ter

Quantos às restrições por causa da retirada do estômago, Erick explica que sua dieta não teve muitas alterações. No entanto, ele deve tomar cuidado com o açúcar, pois, sem o estômago, vai direto e puro para o sangue causando um desequilíbrio na taxa de glicose. Da mesma forma o álcool: uma dose cai no sangue como se fosse injetado na veia. Erick não bebe, mas fez o teste e garante: meio copo de cerveja já é o suficiente para embriagá-lo. Sem estômago, ele também é incapaz de sentir fome e saciedade.  Uma leve dor de cabeça é o sinal que seu corpo encontrou para alertá-lo que precisa comer. O esôfago ligado ao intestino também se adaptou às necessidades de Erick, mas não é elástico, e, portanto, não pode encher demais. É necessário muita disciplina para saber quando é a hora de parar mesmo quando a refeição está muito boa, caso contrário, pode render horas de desconforto.

Com o sistema digestivo abreviado, há a possibilidade de absorver menos nutrientes, principalmente o ferro. Logo, há a necessidade de suplementação. Ele assegura que a intolerância mais evidente é com açúcar. “Minha dieta hoje é bem parecida com a de um diabético. Evito também a lactose e gorduras saturadas. Essas não me fazem mal, só são um pouco desconfortáveis para digerir.”

No treino não há mais restrições, está totalmente cicatrizado e sem tóxicos da quimioterapia. Na maratona, não poderá contar com gel ou bala no meio da prova, o apoio deve ser natural com frutas secas já que a frutose não lhe faz mal. “Não é tão difícil de adaptar… vou simplesmente correr como um diabético normal.”

Erick recorda que recebeu centenas de recados de pessoas de todos os lados e que isso o ajudava muito. Pessoas que acreditavam que ele conseguiria superar tudo e que ele não queria desapontar. Sua mãe também sempre esteve ao seu lado acreditando que tudo terminaria bem. O desejo de ver o pai e a avó de novo, de visitar Ibiza e, claro, correr mais uma vez a Maratona do Rio, foi o que o ajudou a manter-se confiante. 

“Eu estipulei vários objetivos que tinha que cumprir para deixar bem claro na minha cabeça que não estava na hora de partir, pois eu ainda tinha coisas importantes para fazer.”

(Erick Ferrari/Reprodução)

O próximo desafio

Agora, com a proximidade da Maratona do Rio, ele começa a pegar mais pesado no treino, pois demorou um tempo para conseguir voltar a correr de verdade. Durante a quimioterapia e até dois meses depois, seu sangue não transportava oxigênio com eficiência e ele não tinha fôlego para correr. Os pulmões também sofreram danos com a inflamação. No entanto, Erick manteve-se firme e continuou a treinar. “Eu disse que treinaria até conseguir correr sem respirar. Sou maratonista e ninguém vai tirar isso de mim.” Em fevereiro, um ano depois do diagnóstico do câncer, ele concluiu os 21 km da meia maratona internacional de São Paulo. “Foi uma vitória e tanto, mas mostrou que ainda falta treino para os 42 km do Rio em junho. O tempo é curto, mas eu vou conseguir sim.”

Ele conta que o esporte foi fundamental antes, durante e depois do câncer. “Eu tenho absoluta consciência de que não teria a menor chance de resistir a uma intervenção cirúrgica tão grande seguida de quimioterapia usando um dos sistemas mais tóxicos apenas uma semana depois de sair do hospital.” Durante a quimioterapia, os médicos encorajam os pacientes a se movimentar e fazer exercícios para manter o sistema imunológico funcionando. “Nessa hora foi fundamental não ter pena de mim mesmo, encarar que não havia outra saída. Eu não conseguia respirar direito, o ferro gelado dos pesos na academia queimava onde eu encostava sem luvas, eu não tinha força nenhuma, mas eu ia treinar sempre que conseguia assim mesmo.” Os efeitos colaterais muitas vezes pesavam, mas eu só precisava conseguir se levantar novamente para voltar correr. 

“A magia da corrida de rua é essa. Não importa se vai bater recordes ou só tentar se manter vivo. Cada vez que calçamos os tênis e saímos, já vencemos.”

(Erick Ferrari/Reprodução)

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