Daniela, a libertina

  “Amigo leitor, prepara teu coração e teu espírito para o relato mais impuro já feito desde que o mundo existe.” O Marquês de Sade abre assim Os 120 dias de Gomorra. Achei bom para chamar a atenção dos executivos high flyers, gestores agressivos, ambiciosos profissionais liberais cumpridores de metas escorchantes interessados em conhecer a […]

A dominatrix Daniela de Paula em retrato de Marina Bitten

A dominatrix Daniela de Paula em retrato de Marina Bitten

 

“Amigo leitor, prepara teu coração e teu espírito para o relato mais impuro já feito desde que o mundo existe.”

O Marquês de Sade abre assim Os 120 dias de Gomorra.

Achei bom para chamar a atenção dos executivos high flyers, gestores agressivos, ambiciosos profissionais liberais cumpridores de metas escorchantes interessados em conhecer a libertina gaúcha Daniela de Paula – ou Dommenique Luxor.

Eles são a maioria, atraídos por imagens e textos que a personagem loira mantém na internet. No primeiro contato há quase sempre um tom desafiador, antagônico, de ambas as partes. Ela aplica um questionário para avaliar as restrições do cliente. As práticas devem ser necessariamente sãs, seguras e consensuais (SSC), sem sangue, sem fezes.

Se aceitos, vão ao apartamento da dominadora, em São Paulo, para experimentar violência física e psicológica, bondage (restrição de movimentos e sentidos), eletrochoques, inversão, estímulo e negação do orgasmo, asfixia.

Não é, note bem, para voyeurs ou aventureiros em busca dos prosaicos serviços de uma prostituta. Há um acordo tácito no momento em que a porta se fecha: ali será encenada uma sessão de dominação e ambos têm papéis definidos.

Dommenique Luxor [Foto: Marian Bitten]

Dommenique Luxor [Foto: Marina Bitten]

Não haverá tempos mortos nem small talk. Muitas vezes, a Ressurreição de Mahler será a moldura sonora da cena. Daniela vai mandar, invariavelmente. Humilhados, hostilizados, cuspidos e imobilizados com a cara no chão, os escravos que, lá fora, são pais de família control freak, se tornam lixo, são nada, coisas inanimadas. Dominados, exultam de prazer e/ou choram desesperadamente.

O projeto

Daniela nasceu em Canoas-RS, em 1977, numa família de classe média, de tradição militar. Coetânea, portanto, dos escritores gaúchos da nova geração da literatura brasileira, sobre a qual pouco sabe, porque está interessada nos clássicos e em David Foster Wallace, Roberto Bolaño, Eric Stanton, Hilda Hilst e Bataille. É também autora, publicou, na esteira do sucesso comercial dos 50 Tons de Cinza, um relato confessional em que alterna a narração de estados de espírito e peripécias sádicas. Quase naturalista. Livro irrefletido, “controlado”, como diz, pelas contingências mercadológicas. Ainda assim, não arrasou Paris em chamas.

Herdou o ímpeto do trisavô Firmino de Paula (1844 – 1930), um dos personagens mais polêmicos da história do Rio Grande, conhecido pela atuação na sangrenta Revolução Federalista comandando a 5ª Brigada da poderosa Divisão do Norte, acusado de protagonizar o violento episódio conhecido como a Degola do Boi Preto, no qual soldados foram decapitados. Há relatos de profanação de sepulturas.

O espírito agressivo, desde pequena, manifestou-se contra as mais corriqueiras formas de controle — família, escola, burocracia acadêmica. Um incômodo sentimento de inadequação que, anos mais tarde, redundou na adoção do lifestyle. O status atual do Face a descreve como Poderosa Chefona at Dominatrix Bitches School.

Estudou economia, trabalhou em banco, devorou as teorias da história e da psicanálise, completou sua educação nos subterrâneos da internet. Anda escrevendo um ensaio, que terá versão em inglês. Parte importante, talvez o primeiro passo, do projeto. Contém reminiscências, dissertações, estados d’alma e muita ação.

Amante de pornografia, zerou o xvideos.com diversas vezes. É obsessivamente fetichista e tem referências refinadas que em nada lembram o cafona típico da cena BDSM. Contesta lugares-comuns da academia e diz conhecer, na prática, os interstícios mais sórdidos das relações humanas. É leitora, portanto, do Divino Marquês, de quem tem a obra completa.

 

Látex [foto: Juliana Robin]

Dominar é, antes de tudo, acting [foto: Juliana Robin]

Sade

Sade, o maior de todos os libertinos, morreu há 200 anos, em 1814. É impossível dimensionar a influência de seu legado, mas muita gente acha que sua filosofia radical de liberdade precedeu o existencialismo em mais de um século e forneceu as bases para psicanálise. Todo mundo bebeu daquela água, dos surrealistas ao Lars Von Trier. Daniela é a mistura de suas personagens mais conhecidas: a ingênua Justine e a abjeta Juliette. Ambas são representações das ideias de Sade, envolvidas em paixões crudelíssimas como que buscando um ponto de superação, de apogeu civilizatório.

O verbete “sadismo”, em sua primeira acepção: “aberração horrível do deboche, sistema monstruoso e anti-social que revolta a natureza”. Daniela, autointitulada sádica, sente-se à vontade para cumprimentar com um beijo no rosto o garçom de um modesto botequim da avenida Moema, sob os olhares bovinos de aposentados em desalinho bebendo cerveja, enquanto pede um chope e confidencia os planos de expansão de seus domínios.

Primeiro, há um projeto estético. Dominar é, antes de tudo, acting. A preparação é minuciosa e cara. A dominação perfeita presume não haver cacos, o discurso precisa se instalar e ocupar atmosfera, a pressão deve ser total. “Meu trabalho é minha forma de expressão. Construí um personagem de ficção, Dommenique Luxor. Para mim não existe separação entre vida e arte”. Ao mesmo tempo, o ofício não gera um legado e é, na essência, impermanente e incidental.

Na mesa surgem os nomes de Lartigue, Doris Kostler, Irmãos Chapmam, Goya, Sacher-Masoch, Antonin Artaud, David Bowie (o preferido), Velvet Underground, Sonic Youth, Brian Eno, Lupicínio Rodrigues e muitas outras coisas do reino da disforia. “Enjoei de Radiohead”.

Vive o dilema dos artistas. Ao mesmo tempo em que não gosta de fazer concessões, sabe que precisa de uma base material para avançar. A imagem que criou e os sinais que emite atingem gente poderosa e bem-educada mas, às vezes, um ajudante de obras trabalha meses para pagar 500 reais e poder estar na presença da dominatrix. “Por um momento, tive pena, ameacei ser condescendente com o homem. Foi uma lição: tudo o que ele queria, assim como o mais sofisticado dos escravos, era ser duramente maltratado”.

 

Domme [foto: Marian Bitten]

Domme [foto: Marina Bitten]

Segundo, há um propósito curativo. Embora as mais distintas alcovas acolham práticas sadomasoquistas desde tempos imemoriais, a dominação profissional nunca esteve tão sintonizada com o espírito do tempo. “Conheci pessoas aparentemente bem-sucedidas e poderosas que, no fundo, estavam destruídas, mortas. Independentemente da superfície, todos estão sob o jugo do estado, da religião, do trabalho, das relações sociais. E isso gera angústia e ansiedade.” Ela explica melhor o processo de depuração: “Há quem tenha orgasmos, mas não ocorre necessariamente. Muitos choram. Quando eles me abandonam, a missão está cumprida.”

Portanto, se alguém adentra o flat-masmorra de Dommenique Luxor, deve estar buscando suspender momentaneamente as responsabilidades civis, perder o controle e ouvir a verdade essencial: você é uma insignificância, um ente sem importância. Isso, para muitos, senhoras e senhores do júri, faz bem.

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Este texto está publicado na edição de fevereiro da revista VIP, com design de Cris Naumovs e edição de Renato Krausz.

 

Foto ótima de Juliana Robin

Foto ótima de Juliana Robin

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