Eu, Tu e Ela

Uma provocação: por que intervenções externas na relação, como amante, são vistas como nocivas?

Estou apaixonada por uma série da Netflix, Eu, Tu e Ela. Leve e contemporânea, ela trata de uma questão muito atual. Jack e Emma são um casal sem filhos e com o casamento desgastado pela rotina, pouco sexo e todas aquelas coisas que vêm com o tempo numa relação. Resolvem chamar uma acompanhante para apimentar a relação e a história toma rumos inesperados: os três se envolvem emocionalmente – com todas as confusões que isso traz, claro – e a relação do casal volta a ficar apaixonada e o sexo, ótimo. O terceiro elemento (que no caso era uma acompanhante gata e muito fofa), em vez de atrapalhar, como seria esperado, salva.

Já vi algumas vezes isso acontecer. Não necessariamente com uma acompanhante, claro, mas com intervenções externas que, na visão do senso comum, seriam nocivas – mas que acabam causando uma melhora inesperada. Recentemente, uma amiga me contou que o clima estava ótimo com o namorado, que ele era incrível, o cara mais foda. Fiquei chocada porque, um mês antes, ela só reclamava do sexo acomodado com o namorado e do sexo incrível que tinha rolado com um outro cara numa viagem que ela fez sozinha. Ela me explicou o ponto de virada: ela contou a traição para o namorado. Ele, depois de uma revolta inicial normal, se tornou o namorado ideal. Diante do medo de perder, voltou a querer conquistá-la e trouxe à tona de novo aquela voracidade da qual ela sentia falta. E ela se apaixonou de novo.

Isso me lembra um conto do Nelson Rodrigues em que a mulher do cara, nada sexual e mal-humorada, vira um furacão na cama. O marido aproveita até que descobre que o motivo daquela alegria toda era um amante. Fica puto, entra em crise. Certo dia, o amante a larga e ela volta a ser a mulher desanimada de antes. O marido então liga para o amante implorando que volte para esposa.

A monogamia como regra é um sistema que precisa ser revisto. Não falo como alguém adepta do poliamor. A maioria das minhas relações foi monogâmica e essa é minha tendência. Mas cada vez mais vejo que a flexibilidade – com respeito, conversa e carinho – traz uma leveza e frescor que a monogamia definitivamente não tem. Traz o brilho no olho de quem não se sente num cativeiro. Excita porque faz você ver o outro como outro novamente, como um ser ativo, desejado. Traz a verdade, essa coisa tão subestimada. E a verdade traz cumplicidade, aproxima.

Precisamos mudar o mindset que liga ficar com outra pessoa a algo do mal. Poderia ser como nas amizades. Temos amigos que são perfeitos para a balada. Outros, para ir ao teatro e ter papos intelectuais ou para ir a um jogo. Meu ponto é: geralmente não rola ciúme nas amizades porque o amigo da balada sabe que não vai tirar o lugar do amigo intelectual nem do amigo do futebol. Cada pessoa tem seu lugar dentro da gente e esse lugar não precisa ser visto como ameaça ao lugar do outro. Por que não termos essa mentalidade também nas relações? Fica pra pensar.

Carol Teixeira é filósofa, escritora e autora do livro Bitch (Record). Siga-a: @carolteixeira_