Futebol vintage

Público cresce no Clapton FC, da nona divisão, atrás de experiência impossível em grandes arenas

Música e bola são minhas paixões terrenas. De uns tempos para cá, fundiram-se em um mesmo nome: Clapton. Do Eric eu já gostava desde que ouvi pela primeira vez os riffs e versos de Layla (a versão de estúdio, não a acústica), uma súplica de amor para se gritar de joelhos. Pois agora venero também o Clapton FC, um pequeno clube de futebol do leste de Londres que disputa a Essex Senior League, equivalente à nona divisão do futebol inglês.

Fundado em 1888, quase 40 anos antes de o pai de Eric nascer, o Clapton viu o público de seus jogos multiplicar-se por dez nas últimas duas temporadas. Ok, estamos falando de um salto de 50 para 500 pessoas no Spotted Dog Ground, um campinho onde se pode acompanhar o jogo tanto sentado na arquibancada de cimento quanto em pé, à beira do alambrado, de onde é possível até puxar o calção do adversário para atrapalhar a cobrança de lateral. Mas eu não o aconselho a fazer isso. Você vai tomar uma vaia daquelas.

O Clapton FC é um clube “do bem”. Não tolera trapaças. Mais: assume posições contra o racismo, a homofobia, a xenofobia, o fascismo, a intolerância em geral. Há cânticos inspirados em valores humanistas. Os ingressos são baratos, com promoções para desempregados e refugiados (3 libras, menos que 12 reais). No Spotted Dog Ground, qualquer excesso é reprimido pela própria torcida – mas eles são raros, pois quem procura os jogos do Clapton quer paz, quer viver uma experiência em torno do futebol que é impossível nas arenas dos grandes. Uma delas é ir ao jogo do Clapton com a camisa do Manchester United, na companhia de um amigo vestido com o uniforme do Chelsea e sentado ao lado de um desconhecido trajado de Liverpool. O clubinho londrino ama unir as diferenças, e isso tem atraído famílias com crianças, jovens descolados, grupos engajados e mesmo gente cuja causa é apenas o futebol, e que está ali porque é o que cabe no bolso.

Se você mora em São Paulo, um pouco dessa atmosfera que faz dos jogos do Clapton FC um programa cool pode ser sentido na Rua Javari, no mítico estádio onde joga o Juventus. O clube da Mooca, hoje na Série A2 do Paulistão, reserva ao visitante um programa completo de “futebol vintage”. Os ingredientes de quem busca uma experiência mais acolhedora em torno de um jogo de futebol estão todos lá. E, curiosamente, o nível técnico em campo é o que menos importa. Só quem entende o quanto é sagrado o espaço de um estádio sabe curtir o irresistível charme de um chute de canela. Dê uma fuçadinha. O Brasil está cheio de Claptons FC para você chamar de seu.

Maurício Barros é jornalista, mestre em ciência política, blogueiro, comentarista dos canais ESPN e foi diretor de redação da PLACAR. Siga-o: @mauriciobarros

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