Guia VIP: como ser um cavalheiro

Não se engane: mesmo diante do mais do que justo empoderamento feminino, o trato fino às moças é uma obrigação na sociedade de hoje

Por muitas gerações, não houve dúvidas sobre o que fazer para ser um cavalheiro. Bastava pensar e agir como Cary Grant. Isso responderia aos desafios mais básicos da arte do cavalheirismo. Para os demais, havia o compêndio de etiqueta de Marcelino de Carvalho, que ensinava a ordem de uso dos talheres, o dress code apropriado para um cocktail party ou para um encontro white tie na embaixada inglesa e ainda como combinar vinhos e pratos

O problema, como disse o ator britânico Archibald Alexander Leach, é que “todo mundo quer ser Cary Grant. Até eu quero ser Cary Grant”. E sim, ele era Cary Grant (Archibald era seu verdadeiro nome). Para tanto, dizia ele, “eu fingi ser a pessoa que eu queria ser até que finalmente eu me tornei essa pessoa. Ou ela se transformou em mim”. “Fake it ‘til you make it”, de acordo com os americanos.

Mas relaxe. Mesmo fingindo muito bem, nem Cary Grant era Cary Grant o tempo todo. Por questões de “conforto”, afirmava, trocava suas cuecas por calcinhas femininas de algodão. E manteve um caso público com o ator Randolph Scott que sobreviveu a todos os seus relacionamentos com mulheres.

Mas a questão vai mais longe que a relevância atual de Cary Grant. Hoje ainda faz sentido ser cavalheiro?

Quando as mulheres clamam por cada vez mais igualdade, o cavalheirismo é uma espécie de ararinha-azul, extinto e visto apenas em livros de história? Cavalheirismo ainda tem lugar em uma sociedade na qual todo mundo fala em empoderamento feminino? Alguém ainda sabe quem é Cary Grant ou se importa com o que ele faria?

Diante de todas essas angústias contemporâneas, a VIP traz um breve guia de cavalheirismo para os dias atuais. Leia, aprenda, pratique.

Como devo me portar com as mulheres?

Crédito: Evandro Bertol

Crédito: Evandro Bertol

Não faça nada esperando sexo em retorno. Pequenas gentilezas – tais como abrir a porta, puxar a cadeira para ela se sentar, deixar que ela passe na sua frente na fila – podem e devem ser feitas, mas de forma natural, indiferente, rápida, precisa, cirúrgica e sem esperar um biscoito como um cão adestrado depois de um truque. Se esses gestos forem praticados com absoluta naturalidade, eles serão bem-vindos para a maior parte das mulheres – com um mínimo de reclamações. E sim, levante a maldita tampa do vaso. Ou urine sentado. Ao contrário do que diz a lenda, nunca jamais alguém perdeu a masculinidade fazendo isso. E ainda preserva as calças de respingos traiçoeiros.

Quem paga a conta do jantar dela?

Crédito: Evandro Bertol

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Você. Finja ir ao banheiro e pague a conta diretamente no caixa. Isso evita aquela briga constrangedora na mesa diante do time do restaurante. Se ela apontar uma faca para você e disser que pode se sustentar, que você não é o pai dela e que está insultando sua capacidade de ser sua própria provedora, diga que a gorjeta é por conta dela. Claro que, como cavalheiro, você já deu a gorjeta apropriada para o garçom, mas o moço que os atendeu vai ficar feliz, ela também e o jantar terminará em relativa paz.

De quem é a decisão de fazer sexo?

Crédito: Evandro Bertol

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Dela. Sempre. Sem condicionais. Sem discussão. Mesmo que vocês já tenham transado antes. Mesmo que vocês já tenham iniciado as preliminares e ela esteja seminua em cima do seu colo. O momento em que ela diz não é o momento em que você para. Simples assim, sem fazer cara de triste, sem chantagem sentimental.

Como devo me comportar na cama?

Crédito: Evandro Bertol

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A vida real não é um filme pornô. Se fosse, haveria mais entregadores de pizza e eles seriam muito mais felizes. O PornHub, sem prejuízo de seu entertainment value, não é um guia de comportamento sexual. Chamar a moça de “profissional do sexo” por seu nome mais popular, estapear suas nádegas (sim, sabemos que pode ser ótimo. Não é isso que estamos discutindo), usar orifícios alternativos – isso tudo pode ser feito, mas com consulta (e autorização. Lembre-se da parte da A-U-T-O-R-I-Z-A- Ç-Ã-O) prévia. E não é não. Na dúvida, qualquer prática menos ortodoxa deve ser consensual. E sim, sexo oral nela é obrigatório.

Claro, o uso de camisinha não está sujeito a debate. É obrigatório.

Posso ser condescendente?

Crédito: Evandro Bertol

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A gentileza devida à moça não inclui condescendência. Lembre-se de O Grande Gatsby (obrigatório. Por ordem de importância – e não meramente cronológica – o livro de F. Scott Fitzgerald de 1925, a versão de 1974 com Robert Redford e, se sobrar tempo, a versão pop de 2013 com Leonardo DiCaprio). Sua Daisy Buchanan era uma deslumbrada meio burrinha, mas Gatsby nunca mostra superioridade diante dela. Ela tem direito de acreditar em astrologia e de perguntar seu signo sem ouvir um risinho. Lembre-se de que você curte futebol e ela não ri do seu gosto (pelo menos, não diante de você). Condescendência é uma forma desprezível de mostrar superioridade.

Como trato minhas ex?

Crédito: Evandro Bertol

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Uma moça que algum dia compartilhou com você aquilo que Vinicius de Moraes chamava de “a moldura de minha cama” merece seu respeito eterno, não importa o quanto o final tenha sido desagradável. Logo, uma ex deve ser tratada com o máximo de cavalheirismo se você tiver entrado com o pé e ela com a bunda. E com o dobro de gentileza se for o caso contrário. E engula o rancor e aperte a maldita mão do companheiro dela.

Como trato os filhos dela?

Crédito: Evandro Bertol

Crédito: Evandro Bertol

Eles não vão gostar de você. Pelo menos, não imediatamente. Você está, em última análise, competindo pelo afeto da mãe ou do pai. Tente ajudar. Abaixe-se. Fale olhando nos olhos deles. Não tente posar de antenado discutindo estratégias para capturar Pokémons (ah, sim, ninguém mais está fazendo isso – nem a garotada com menos de 10 anos). Não fale que é o novo “tio” delas. Ela é quem diz quem você é e o seu papel na vida dela. Ou seja, nunca diga: “Sou o novo namorado da sua mamãe”. Diga seu nome. Não suplique pela amizade deles. Não force a barra.

Como trato a amiga gata dela?

Crédito: Evandro Bertol

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Como se a moça fosse a madre superiora do Convento das Carmelitas Descalças. E daí quem sabe, em uma possibilidade extremamente remota – e que jamais deve ser sugerida por você –, ela vire um unicórnio. Unicórnio, na comunidade dos swingers, é o ser mítico feminino que adora participar de threesomes. Elas são um pouco como o monstro do Lago Ness. Ninguém provou sua existência, poucos viram, mas vez ou outra se renova o boato de que elas andam entre nós.

Falando em sexo com mais de duas pessoas, qual o código de conduta em um swing?

Crédito: Evandro Bertol

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A escolha é da mulher – que tem o poder de veto. Ou seja, se ela recusar aquele casal em que a parceira é uma Marilyn Monroe melhorada e ele, um Costinha piorado, conforme-se. O acompanhante da moça deve ser tratado com toda a cerimônia. Nada de excesso de informalidade ou piadinhas. Nada de comparar performances. Nada de intimidade forçada. Vocês dois não estão dividindo um táxi. É verdade que muitos rapazes contratam profissionais do sexo para se passarem por suas mulheres nesses clubes apenas para desfrutar da sua parceira real. Fique atento aos mínimos detalhes. Esses são os dias em que vivemos – há uma escassez de cavalheirismo até nas mais veneráveis instituições.

Quando devo ceder a vez?

Crédito: Evandro Bertol

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Na fila, no avião, no ônibus, no bote salva-vidas em naufrágios, na escada rolante do shopping e, principalmente, na hora do orgasmo: damas antes. Sempre.

Como beber a dois?

Crédito: Evandro Bertol

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Don Draper, da série Mad Men, fazia as moças tomarem conta dele durante seus infinitos porres. Elas o assistiam com um enternecedor ar de carinho maternal enquanto ele vomitava nos banheiros públicos. Mas a série se passa nos anos 60, quando o alcoolismo tinha um ar de romantismo, desafio e não conformismo. E Don Draper é interpretado por Jon Hamm, que é bonito pra cacete, o que lhe dá alguns direitos e privilégios que a maior parte de nós não terá jamais. Se você não se parece com ele, nunca fique mais louco que ela. Ela é sua acompanhante, não sua enfermeira.

Qual o gesto definitivo de cavalheirismo hoje?

Crédito: Evandro Bertol

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Saber ouvir as mulheres. E desinteressadamente. A neuropsiquiatra Louann Brizendine afirmou que a mulher usa cerca de 20 mil palavras por dia, enquanto o homem usa apenas 7 mil. Desde então, diversos estudiosos se dedicaram a desmentir esse resultado. Não há base científica sólida para a conclusão de que mulheres falem mais que os homens. Mas basta conversar com qualquer uma delas para notar que todas têm a mesma reclamação: nós não as ouvimos – independentemente do número de palavras que elas proferem. O maior e mais sensível órgão sexual feminino não é o clitóris – é o cérebro. Um cavalheiro ouve sempre. Não se trata do quanto elas falam – o que faz de um homem um cavalheiro é o quanto processamos do que é dito. Além de ser um gesto de cavalheirismo atemporal, as mulheres acham muito sexy quem presta atenção no que elas falam.

A lição final

Por fim, um ensinamento eterno de alguém com mestrado em cavalheirismo: o mestre Oscar Wilde. Como ele definiu: “Um cavalheiro é alguém que nunca fere os sentimentos de alguém… sem ser de propósito”.

Crédito: Evandro Bertol

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