[Ideias VIP] Ana Canosa: “prazer, mas não sou eu”

Como eu fui parar num app de relacionamento e o que você tem a ver com perfis fakes

Ana Canosa

(PianoFuzz/VIP)

Liliane Troncoso tem 38 anos. Seu perfil no app de relacionamentos Jaumo, uma espécie de Tinder alemão, está linkado ao perfil no Facebook. Como foto de fundo, uma bancada de madeira e alguns livros.

Sobre ela, dados tímidos: mora no Rio de Janeiro, estudou nas Faculdades Integradas Simonsen, frequentou o Colégio ADN. Um ou dois posts com frases de autoajuda, nenhuma outra foto além da do perfil. Quase recatada, eu diria.

Pois a tal da Liliane conversava com outra frequentadora do Jaumo, Vivian, à procura de afinidades. Liliane falou de sua vida como professora, sua paixão pelos livros e seu encanto pelo mar. Vivian, sobre a sua rotina de trabalho e o filho do primeiro casamento, desfeito quando ela pela primeira vez se apaixonou por outra mulher.

A cada bate-papo, iam descobrindo uma nova porção da outra e a chama de interesse ia aumentando. Vivian tinha a impressão de já tê-la visto em algum lugar, pela foto. Um dia, estava assistindo à TV e deu de cara com ela! … Ou melhor, eu.

Sim, a tal Liliane era eu. Ou melhor, ela tinha uma foto minha em seu perfil.

Fico aqui pensando que tipo de pessoa faria isso: um homem que se passa por mulher, para trocar papos quentes com outra, projetando a sua tão comum fantasia masculina? Uma mulher que não se julga assim tão atraente e se arvora na foto alheia? Um(a) fã que me idolatra e quer ser como eu (que medo)? Alguém próximo querendo me sacanear?

Não consegui dados estatísticos sobre perfis fakes na rede, nem sobre falsidade ideológica virtual (a não ser que pode dar cinco anos de prisão), mas notícias sobre os estragos que uma foto ou vídeo compartilhado por alguém, sem autorização do usuário, podem causar: são dezenas de adolescentes (em sua maioria) que deixam a escola e mudam de bairro, até os que se suicidam porque não aguentam a pressão desde que uma imagem íntima foi viralmente compartilhada.

Ok, não somos adolescentes, mas sofremos todos de uma crescente e descontrolada banalização do mal, como conceituou Hannah Arendt no meio do século 20. Praticamente nos afastamos da nossa capacidade de sermos piedosos e, como ressalta o pensador contemporâneo Theodor Adorno, nos tornamos insensíveis e apáticos à dor, ao sofrimento e à miséria alheia.

Somos convidados a compartilhar da experiência brutal e uniforme da modernidade.

No WhatsApp, quantas fotos você recebeu e compartilhou de pessoas em situações vexatórias? Ou quantas imagens manipuladas e editadas para “fazer rir”? Quantas outras sexuais, intimidades expostas, que não se sabe de onde vêm, se da indústria pornográfica ou do celular de alguém movido pela raiva, inveja ou falta de sensibilidade?

Vinte e oito por cento dos homens ouvidos pela pesquisa do Data Popular/ Instituto Avon em 2014 afirmaram ter repassado imagens de mulheres nuas que receberam pelo celular. Pois é.

Um amigo do meu marido, à procura de sua cara-metade, podia ter “me encontrado” no tal Jaumo. Alguém da família. Um paciente. Eu poderia ter tido um problema mais sério. Atrás da foto, um “corpo objeto” aparentemente distante, tem eu, a minha história. Tem a pessoa da Maria, do Pedro, do João.

Não tenho respostas, tenho perguntas. Não sei até que ponto, em nome do “é assim mesmo”, “são os novos tempos” ou “é só uma piada”, estamos todos a cada dia menos éticos e sensíveis. A você, Liliane Troncoso, coragem. Porque se eu me retiro de sua meia-vida, terá que lidar com a grande dificuldade de enfrentar a si mesma(o).

Ana Canosa é psicóloga clínica, terapeuta e educadora sexual e acredita que sexo e afeto são dimensões construtivas da vida humana.