[Ideias VIP] Facundo Guerra: a culpa de ser pai na era do celular

O celular virou uma parte de mim, que vive invadindo meus momentos com minha filha

(PIanofuzz/VIP)

Acho que qualquer pessoa que tenha tido filho nos últimos cinco anos se deparou com um problema nunca antes enfrentado pela raça humana: como ser pai ou mãe, atividade que exige atenção irrestrita a um humano em formação, vivendo em múltiplas dimensões simultaneamente, sem conseguir colocar foco em nada e em meio a uma pandemia de déficit de atenção?

Me explico: estamos iniciando um ponto de inflexão, na medida em que nos fundimos com a tecnologia que nos cerca.

Eu, por exemplo, tenho vivido com culpa ao lado de minha filha em razão do meu celular. Não considero o aparelho algo alheio a mim: ele é uma parte constituinte do meu ser, meu contato com uma esfera não menos real que o mundo palpável que me cerca (não existe nada tão obsoleto quanto a distinção noventista entre o real e o virtual), um portal para outra realidade que vive invadindo os momentos que tenho com a minha filha; ela, por sua vez, também está vivendo cada vez mais cercada de múltiplas telas e estímulos.

Estamos os dois juntos, mas ao mesmo tempo, não.

São raros os momentos em que existe uma conexão nossa que não esteja penetrada por essa dimensão tecnológica. Será que ela saberá lidar com o tédio? Será que ela saberá contemplar? Será que ela saberá ouvir? Ver? Ou será que, por ela ter visto a atenção do seu pai ser sequestrada por telas, ela será uma ludita, como um filho que vê um pai alcoólatra destruir sua família e cresce abstêmio?

O celular e suas notificações tentam me dragar todo o tempo para um mundo mais previsível e confortável, no qual tenho um controle através de comandos como “deixar de seguir” e “bloquear usuário”. É um espaço confortável na medida em que a diferença não precisa ser mais tolerada. Através desses comandos posso moldar esse meu mundo à minha imagem e semelhança, posso fazer tudo virar uma grande e egoica sala de espelhos.

Me sinto o próprio retrato de Dorian Gray: o avatar acessível através de meu celular é sempre jovem e feliz, as inquietações da vida não o tocam, enquanto o humano aqui fora que o alimenta cria cicatrizes e rugas.

Pudera: como romper com essa chuva de corações e de amor sintético em forma de curtidas? Como lidar com o crack de ser aceito e amado pelos que o cercam? É mais válido o amor simples e viral de milhares de seguidores do outro lado do negro espelho ou o amor confuso e complexo do humano diante de si?

E como lidar com esse amor complexo em sua dimensão social, tão rasa e ao mesmo tempo tão importante, porque é legitimada por ainda mais gente do que aqueles que o cercam do lado de cá do espelho de Alice? Como o amor complexo se traduz nesta outra esfera sintética de nosso ser? Somos o que postamos? Me diga o que curtes, e eu te direi quem és?

Como criar uma criança num mundo em que a medida de um humano grande parte das vezes é mensurada pela sua quantidade de seguidores? Pudera Pina estar confusa. Mas ao menos ela não conhece um mundo onde o tédio e o ato de matar o tempo eram corriqueiros. Hoje meu medo é o tempo me matar e eu não ter percebido que vivi.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia

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