Max Petrucci: “o trabalho precisa refletir nossa essência”

Para Max Petrucci, CEO da agência de comunicação Garage, marcas e consumidores precisam buscar um propósito

Max Petrucci completa 50 anos este mês, mas tem cabeça de millennial – millennial não, já que ele não acredita nessas classificações etárias. “O que você faz em cada idade é um problema seu, depende do momento em que está e o que espera para sua vida. Nosso poder de transformacão é enorme”, afirma. Formado em administracão pela Fundação Getúlio Vargas, trabalhou como executivo de empresas como Gillette e Johnson & Johnson, em São Paulo e Nova York. No Brasil, implantou o Webmotors e o MSN. Em 2006, abriu a Garage, pela qual realizou projetos como “A Nova Cara da Terceira Idade”, em que redefiniu o desenho dos idosos nas placas (em vez do velhinho curvado surgiu o corpo ereto e o número 60 +).

Quem somos

“O trabalho precisa refletir a nossa essência. Não dá para você ser uma pessoa das 9h às 17h e ser outra coisa depois. O americano, por exemplo, é bem assim, ele faz qualquer coisa para subir na carreira, dentro da lei, mesmo que seja amoral. Ele ferra quem tiver de ferrar para ser bem-sucedido. Mas de que adianta ser assim e depois ir à igreja no domingo? O mundo é um só. Nosso trabalho tem de ser uma ferramenta fundamental para construir o mundo que a gente quer. A grande crise geracional hoje é esta. As pessoas dedicam anos e anos a uma empresa que não reflete sua essência.”

O que é trabalhar

“Sou fascinado pela cultura da startup, por essa ambição de querer transformar o mundo de um jeito muito rápido e muito intenso. O mundo precisa mudar para melhor, no sentido mais holístico. Trabalho ainda é importante para o homem, mas o que mais existe além do trabalho? É muito importante que a gente ressignifique o trabalho. O que é trabalhar? É uma forma de sustentar, sim, mas tem de ser o mais sistêmico possível. Aqui na Garage bebemos muito da fonte do chamado propósito, que é olhar para o mundo que precisa ser consertado em uma série de instâncias, nessa busca por um crescimento exacerbado, não consciente, cheio de individualismo e competição. ”

Existem muitas maneiras de uma marca atuar. O Google Campus é aberto, abriga empresas residentes, é uma maneira de a empresa devolver algo para a sociedade. Não é filantropia, está dentro do propósito de negócios deles

Max Petrucci

Pessoas e marcas

“Quais são os efeitos globais do que você faz, como empresa? Essa será a pegada do universo do trabalho dos próximos dez, 15 anos. O mundo digital ajudou a gente a se conectar, a cortar intermediários, a achar atalhos, mas é um meio para o fim, o propósito é o fim. A questão é: como a gente pode de fato fazer a roda girar, consertando as coisas e não criando refugos, problemas? A Garage, o nome já diz, é inspirada nas garagens do Vale do Silício, e tem o digital como agente transformador. Queremos que essa semente que liga as empresas com as pessoas, que é o trabalho de marca, seja muito mais transformadora do que só a comunicação. A comunicação é a ponta do iceberg de mudanças que você consegue fazer na cultura da empresa, em produtos, em serviços. Quando você cria um canal de rede social para falar com as pessoas pode chamá-las para dar sugestões, cocriarem soluções com você.”

Poder do consumidor

“Tem uma frase de que eu gosto muito: o seu real tem um poder de transformação da sociedade muito maior que o seu voto. Não há sistema melhor que o capitalismo. Se a gente comprasse direito, se fosse radical, dissesse que não daria mais um real para uma empresa que não ajuda a resolver os grandes problemas do setor em que está inserida, tudo seria corrigido.”

Um novo capitalismo

“O mundo vai mudar muito nos próximos dez, 15 anos. A inteligência artificial vai estar em tudo. O Elon Musk já está defendendo o salário básico de sobrevivência. O Bill Gates está falando em taxar os robôs. Faz sentido. A máquina já faz tudo, análise, planejamento, gerenciamento, criação. Mas as pessoas não vão sumir do planeta, então de alguma forma o planeta vai ter de prover isso. Seria um redesenho do capitalismo .”

Propósito das empresas

“Há cinco, seis anos senti necessidade de me transformar, de uma procura espiritual, de práticas mais equilibradas. Parei de usar produtos que tivessem químicos, desodorante, xampu, mudei minha alimentação. Como agência de comunicação, preciso ajudar essas empresas a encontrar seus propósitos. Por que a propaganda não pode ser isso, só dizer que meu produto é mais cheiroso. Legal, mas qual o poder de transformação? Não estou dizendo que essas empresas estão erradas. Mas queremos ajudar as marcas a perceberem que existe aqui uma oportunidade de negócios.”