O caso Belle Knox

Sem saber como pagar para frequentar a universidade, Miriam Weeks resolveu fazer vídeos pornográficos e hoje batalha para ser respeitada na profissão que escolheu. "Eu literalmente apenas procurei no Google ‘como ser uma atriz pornô’. As respostas traziam essas agências de modelo. Eu mandei fotos minhas e meu peso e minha altura e, dentro de dias, eu estava recebendo ligações", diz. Leia mais a seguir

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Belle Knox não é um nome real – a mulher por trás dele, contudo, é bem verdadeira. Aos 18 anos, a estudante de Direito da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, luta em diversos campos de batalha ao mesmo tempo: briga contra o sistema de financiamento educacional dos EUA, que pode levar famílias à miséria; briga contra o alto valor da educação particular, que cobra cifras absurdas por um assento na universidade; briga contra a opressão masculina, que transforma mulheres em objeto.

Sobretudo, Belle Knox batalha para ser respeitada na profissão que escolheu: atriz pornô.

Apenas 12% dos pretendentes passam na prestigiada Universidade de Duke. Ao lado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT e da Universidade da Pensilvânia, Duke é a sétima melhor universidade dos EUA. E custa caro: 60 mil dólares por ano.

De família de classe média baixa, Miriam Weeks passou no curso de Direito de Duke. Não tinha toda essa grana para bancar a escola. Pensou em um empréstimo, mas não queria deixar dívidas para a família. Cogitou ainda trabalhar como garçonete, experiência que já tinha de outros tempos, mas sabia que receberia não mais que 400 dólares por mês.

Em novembro, com o intervalo das aulas se aproximando, Miriam teve uma ideia: fazer pornô. “Eu realmente amo sexo e sempre amei assistir pornô, então me pareceu que eu poderia pagar minha faculdade fazendo algo que eu realmente amasse”, conta a jovem em entrevista ao NY Daily News.

Para não usar seu nome real, Miriam Weeks inventou Belle Knox – Belle é uma alusão à personagem Bela (sim, do desenho A Bela e a Fera) e Knox, uma homenagem à Amanda Knox, garota acusada de matar uma colega de quarto durante um jogo sexual. “Eu literalmente apenas procurei no Google ‘como ser uma atriz pornô’. As respostas traziam essas agências de modelo. Eu mandei fotos minhas e meu peso e minha altura e, dentro de dias, eu estava recebendo ligações de pessoas que diziam que realmente me queriam [em seus filmes].”

Miriam era a aluna de Direito que desejava se especializar em direito da mulher; Belle, a atriz pornô que não fazia questão se contracenava com homem ou mulher. Tudo andava separado na vida da jovem, sem maiores conflitos. A família, os amigos e os colegas de Miriam não sabiam de seu alterego, e tudo caminhava bem. Belle ganhava até 1,5 mil dólares por cena – de novembro até hoje, já fez entre 25 e 30 cenas.

Até que um colega a reconheceu.

Durante a semana em que se escolhem os novos integrantes das fraternidades, Thomas Bagley contou aos demais “irmãos” que uma aluna de Duke era atriz pornô. Na sexta, 10 de janeiro, Bagley revelou a identidade da aluna aos amigos da fraternidade. No dia seguinte, a aluna havia recebido mais de 230 novos pedidos de amizade no Facebook.

De acordo com a Cosmopolitan, “[Duke,] A faculdade de elite da Carolina do Norte tem uma reputação hedionda de slut-shaming [ato de inferiorizar mulheres por causa de comportamentos sexuais; em português claro, achar que mulher que gosta de sexo é puta], moral dupla e hostilidade sexual para com as alunas.”

Ou seja, não demorou para que os alunos de Duke se manifestassem – em boa parte, das piores maneiras. Houve quem achou uma afronta pisar no mesmo lugar que uma atriz pornô, fez uma petição on-line pedindo a expulsão da garota e a ameaçou de morte; houve quem se fez de solidário apenas para dormir com uma atriz pornô, conforme mostra o vídeo do Huffington Post.

Este ambiente inóspito que se tornou a Universidade de Duke se deve ao comportamento padrão da escola – e de grande parcela da sociedade –, que inferioriza as alunas e reprime qualquer expressão sexual. “Sinto que as garotas de Duke têm de esconder sua sexualidade. Somos pegas nessa dicotomia virgem-puta“, disse Miriam ao Duke Chronicle.

Ela explica a dicotomia ao Campus Blueprin: “É um padrão insidioso que temos injustamente colocado diante das mulheres. Elas devem ser, por fora, puras e modestas e, ao mesmo tempo, sexualmente atraentes e disponíveis. Se uma mulher não faz sexo depois de um encontro, ela vai ser rotulada como uma puritana. Se ela faz sexo, ela será referida mais tarde como uma puta ou uma vagabunda.”

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Miriam se diz feminista. Quer lutar pelo direito das mulheres depois de formada. O Duke Chronicle ressalta o entrave existente em ser uma atriz pornô feminista. “O reconhecimento do amor de Laura [nome fictício usado no artigo] pelo trabalho com sexo e o machismo existente na indústria pornô colocam uma feminista contemporânea entre a cruz e a espada: é melhor apoiar a autonomia radical de uma atriz pornô como Laura ou sua participação é uma afirmação de um sistema inerentemente sexista?”, questiona o artigo.

Ainda que não haja uma resposta, o machismo já sentiu um impacto. Sobretudo na consciência de quem começou toda essa história. “Ela disse que eu arruinei a vida dela”, conta Bagley ao Duke Chronicle, “que assim como foi uma decisão dela entrar para essa profissão, também é uma decisão dela escolher a quem contar. Eu retiraria o que eu disse.”

Belle Knox ocupa, hoje, a segunda posição no ranking de atrizes pornôs do Pornhub.

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