O estrategista

Paulista de Quintana, 58 anos, técnico de vôlei tricampeão olímpico (1992 no masculino, 2008 e 2012 no feminino)

O estrategista

O VOLEIBOL CONSOME meu dia inteiro, todos os dias. Só não tomo bronca da mulher porque ela sabe que estou trabalhando. Jogou vôlei, minhas filhas também. Em grandes competições da Seleção, ela vai junto, faço questão. Ela participa de tudo que eu faço. Às vezes, sobra um domingo em que dá para ficar um pouco em casa. E minha mulher brinca: “Não vai dar treino hoje, não? Seu time precisa. Tem que jogar, tem que ganhar!…”

COMECEI NO VÔLEI por circunstância do destino. Nos mudamos para Santo André [na Grande SP] quando eu tinha 12 anos e fui estudar num colégio de periferia. O professor de Educação Física era também técnico da seleção de vôlei da cidade: Valderbi Romani, que depois treinou a Seleção masculina na Olimpíada de 1972. Ele levava as classes para treinar no estádio municipal e comecei a me apaixonar pelo vôlei e a treinar muito. Ele foi muito importante na apresentação do vôlei para mim. Outro foi o Lázaro Azevedo Pinto, técnico do meu primeiro clube, o Randi — que depois virou Pirelli. Ele me deixava treinar com todas as categorias. Então eu estudava de manhã, almoçava e ia para o clube para treinar com os times até 10h da noite. Tive sorte de estar com pessoas abnegadas e vivenciar treinamentos, viagens…

MEUS PAIS QUERIAM que eu fosse médico ou engenheiro. Mas eu já sabia o que queria: jogar e estudar educação física para sempre dar continuidade àquilo por que me apaixonei. Joguei vôlei dos 13 aos 34 anos, até 1988, e realizei o sonho de jogar uma Olimpíada em 1976. Mas desde cedo já procurava estudar para seguir carreira. Aprendia com os treinadores, fazia cursos, tudo para saber o que é necessário para comandar uma comissão técnica.

TREINAR A SELEÇÃO era um sonho que veio bem cedo. Em 1989, o Bebeto de Freitas [ex-jogador e técnico da Seleção] me chamou para ser assistente dele na Seleção principal masculina. Depois do Mundial de 1990, ele foi para a Itália e entrou outro técnico. E eu fui para a Seleção feminina juvenil. Até que, em 1992, o Nuzman me chamou para ser o técnico da Seleção masculina na Olimpíada. Faltavam só cinco meses para o torneio. Mas não vamos esquecer que eu tinha sido assistente do Bebeto e já conhecia todos os jogadores. Isso ajudou muito a ganharmos.

EM QUALQUER EQUIPE, a gente trabalha com pessoas de diferentes culturas, religiões, raças. E tem que ter um time uniforme com os mesmos objetivos, que vá na mesma direção. O grande desafio é aproveitar o melhor das características diferentes de cada um.

ANTES DO VÔLEIO, eu gostava mesmo era de futebol. Por isso, foi uma experiência legal trabalhar no Corinthians em 1999. A Hicks Muse [fundo de investimento americano que fez uma parceria com o clube] me chamou para ser o diretor. Sempre tive planejamento para tudo. E a Hicks já tinha um planejamento de cinco anos para todo o departamento de futebol: times de base, time de cima, instalações, fisioterapia… Isso demanda tempo e investimento, mas já fomos bem no primeiro ano: campeões do Paulista, do Brasileiro e do Mundial. Um dia, em 2000, meu chefe me disse que o fundo já queria vender os jogadores da parceria. Luizão, Vampeta, Edílson, mais alguns. Respondi: “Mas isso não era o planejado. Você vai me desculpar, mas estou fora. Não vim com esse intuito”. E saí. Mas foi bom entender a realidade do futebol por inteiro. Tudo na vida é aprendizado.

(em depoimento a Marcelo Orozco)