O indigesto

Quase ninguém no meio gastronômico suporta o polêmico barbudo Julio Bernardo, mas todo mundo o lê. Conheça o crítico mais ranzinza do Brasil, que considera quase tudo o que prova uma merda

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Era uma segunda-feira atípica no restaurante Jiquitaia. Dois dias antes, a edição de VEJA SP Comer & Beber chegara às bancas anunciando a casa como uma das melhores da cidade. O público era o dobro de um começo de semana comum. “Quando o vi chegando, pensei: ‘Meu Deus, ele vai detonar tudo’ ”, conta Marcelo Bastos.

O motivo da apreensão do chef tem 1,80 metro, 128 quilos, uma barba enorme, voz aguda, língua ferina e se chama Julio Bernardo. Nos últimos cinco anos ele se tornou o crítico de gastronomia mais temido (e odiado) de São Paulo.

De sua trincheira, um blog com média de 40 mil acessos por mês, Julinho, 39, como chamam os amigos, não economiza nas críticas, que vão com dose extra de veneno para chefs mais afamados.

Em fevereiro do ano passado, aliás, ele se meteu no mais famoso de seus entreveros até aqui. Enquanto tomava um Negroni no balcão do D.O.M., foi abordado por Alex Atala. “E aí, vai falar mal da gente hoje?”, disparou o chef brasileiro mais premiado em atividade, a quem o crítico detona, entre outras coisas, por “viajar mais do que cozinhar, se promover mais do que à cozinha brasileira” (procurado por VIP, Atala estava em turnê por Japão e Europa, lançando seu livro mais recente, e não se pronunciou).

“Eu fiquei constrangidíssimo”, diz Julinho à VIP, enquanto prepara um Negroni no apartamento onde vive, em Pinheiros. “Alex está num patamar tão alto que jamais imaginei que fosse se incomodar comigo.”

Tímido de doer, ele ficou tão constrangido quanto chateado. Na mesma conversa, Atala lhe deu um peteleco: na crítica que escrevera meses antes sobre o Dalva e Dito, também do chef, Julinho malhou o fato de a receita do porco na lata anunciado no cardápio não ser mesmo feita na lata. Nem poderia, inclusive por questões sanitárias. Deu o braço a torcer e publicou uma errata.

Atala ainda o acossou dizendo que, se quisesse saber mais a respeito de confitar (a técnica de preparo do porco), podia emprestar uns livros em francês. Assim, ele atacava outro flanco de Julinho, que nunca saiu do país – lacuna que alguns usam como indicativo de sua suposta falta de embasamento.

“Sim, pode ser que me falte esse referencial, que não é o único possível”, confessa ele, que, ainda assim, demonstra uma ligação afetiva, quase íntima, com a comida. Filho único de um casal de feirantes, Julinho cresceu nas feiras públicas de Osasco, onde a família tinha uma banca de frango e miúdos de boi. Aos 12 anos, quando o pai anunciou que mudaria de ramo, o “autista”, como era chamado na escola por ser calado, disse que largaria os estudos e queria tomar conta da banca.

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“Não dou, mas posso alugar”, respondeu o pai, “daqueles bem severos.” A adolescência e o começo da vida adulta (como parte da infância), Julinho passaria acordando de madrugada, recolhendo produtos nos fornecedores e disputando fregueses com outros comerciantes bons de grito.

“A nossa casa parecia uma festa havaiana”, diz ele sobre as caixas de frutas e verduras adquiridas no escambo, que é prática entre feirantes. Comia-se bem. Na cozinha, o fogão era domínio da mãe, baita cozinheira, que ele gostava de observar enquanto preparava os pratos. Aprendeu tudo. Ela morreu há dois anos, vítima de um câncer.

A morte precoce do pai, aos 41 anos, levou Julinho a largar a feira e abrir um entreposto para atender feirantes. Deu errado. E daí caiu no mundo, pulando de negócio em negócio. Foi camelô, DJ (inclusive num puteirinho do Centro, onde tocava rock clássico), até ser convidado por dois amigos “para dar uma mãozinha” num restaurante/ bar em Pinheiros.

Tomou gosto e tinha talento. Logo se meteu também na cozinha. Com os mesmos amigos, virou sócio de dois bares. Um só deu prejuízo, o outro se pagou e com parte do espólio ele abriu um bufê de almoço. Foi quando começou a escrever sobre os restaurantes que visitava na cidade.

O negócio durou cinco anos. “Cansei da vida e passei o ponto”, conta. A boca da rua aponta o fracasso do seu maior empreendimento como outro indicativo de que ele não faz ideia do que fala e só quer fazer polêmica.

Ele se defende: “Eu não fali, só cansei. E outra, qual a ligação imediata entre o meu talento como administrador e o meu paladar? [risos] Quando eu digo que um pão é ruim, é porque eu sei o tempo necessário de fermentação, é simples! Eu não estou chutando”.

Foi nesse restaurante, inclusive, que ele recebeu a primeira das abordagens mais enfezadas por causa do que escrevia. Depois de acusar uma crítica de gastronomia de copiar trechos de um release numa de suas matérias, passou a atacá-la diariamente. Ela foi tirar satisfação no fim de um expediente (“derrubou um saleiro quando foi embora”).

Julinho é parte de dois fenômenos da internet. O primeiro, dos “monstros de pelúcia”, que alimentam na rede uma imagem agressiva e polêmica e, pessoalmente, são tímidos e gentis. O segundo, da crítica que há alguns anos era restrita a grandes jornais e revistas e encontrou assento na rede, dando voz a desconhecidos que, com o reiterar da atividade, ganham cada vez mais público e relevância.

“A diferença é que ele sabe mesmo do que fala”, diz a crítica de gastronomia Alexandra Forbes. “E, quando ele quer, consegue ser agressivo e machista como poucos.”

Untitled-1Forbes tem uma boa ideia do que fala. Durante meses, aguentou ataques de Julinho, por causa de um comentário sobre restaurantes orientais em São Paulo. “Dei uma volta nele”, gaba-se. Um dia, o encontrou num restaurante da Liberdade. Por iniciativa dela, se cumprimentaram; viraram
amigos de copo e de hashi. “Ele só quer carinho”, acusa ela, que ressalta a importância dele para o mercado.

Um ponto de vista endossado pela sommelière Alexandra Corvo. “Ele não é necessário apesar dos excessos, é justamente por causa dos excessos. Não tem essa de disfarçar os preconceitos, ele é honesto, imparcial e se assume assim. Chega dessa crítica pálida e falsamente justa, tem que ter
mais gente como ele para dar uma sacudida.”

Julinho é solitário. O que explica muito de sua paixão por balcões, um atracadouro de figuras taciturnas, e seu gosto por restaurantes orientais, cerimoniosos e discretos. Dorme tarde, acorda tarde, tem um Fusca, vive na companhia de dois pugs (Negroni e Shoyu), nunca se casou nem
teve filhos e faz todas as refeições fora de casa. Quando cozinha, gosta de fazer arroz, feijão e bife.

O gosto por Negroni vem do pai: “Ele bebia aos domingos, na época em que era só um drinque de velho”.

Desde que largou o bufê, se dedica ao que mais gosta: comer, beber e escrever (atualmente está escrevendo um livro, que será lançado neste ano pela Companhia das Letras). Não revela quanto gasta por mês em restaurantes, mas uma conta rápida no blog chega fácil em cinco dígitos.

É outro ponto do qual gosta de se jactar. Julinho desembolsa cada centavo do que consome e acha que, por isso, tem mais liberdade, “menos rabo preso”.

O seu longo rol de críticas não poupa nem os amigos. Como Benny Novak (ICI Brasserie, ICI Bistrô, Tappo). “Ele é destemido. Coloca a opinião de forma agressiva às vezes, inclusive sobre os meus estabelecimentos”, conta o chef.

E emenda: “Leiam ou não, concordem ou não, justo ou injusto, agressivo ou generoso, o cara se faz falar em todos os cantos onde a gastronomia reina. Sacudiu, sim, a cena gastronômica, independentemente de como fez isso”.

Foi o que VIP auscultou ouvindo cerca de 20 chefs, críticos, donos de restaurantes e maîtres.

Todo mundo do meio o lê, seja para alimentar ódio eterno ou justificar juras de amor. E repetem como um mantra: ele é implicante (“é o cara que lê todas aquelas letrinhas miúdas de um contrato, enche o saco do chef, de todo mundo”, diz uma das fontes), agressivo e, alguns admitem com pesar, relevante.

“Ele começou a postar fotos dos nossos pratos (como a costelinha ao molho barbecue de tamarindo) no Instagram onde tem 2 600 seguidores] e de repente comecei a receber muitos clientes que nunca tinham vindo aqui, só por causa da recomendação dele”, conta Marcelo Bastos, o amedrontado chef do Jiquitaia, que se tornou, para a sua surpresa, um dos restaurantes queridinhos de JB.

“Teve gente aqui me ligando, querendo saber como ele havia me tratado, como ele era. Mas ele é sempre muito educado e afável”, diz.

Jefferson Rueda, do Attimo, escolhido chef do ano pela VEJA SP, é outro dos raros chefs que só conhecem o lado de pelúcia do monstro. “Tô te falando: meus colegas me ligam perguntando ‘O que diabo cê fez pr’esse cara gostar d’ocê, Jef?’ ”, diz com sotaque caipira e cai na gargalhada.

Rueda foi testemunha de um dos dias mais sérios da vida de Julinho. Semanas antes de abrir seu restaurante, há um ano e nove meses, o chamou para degustar o menu (ele também aceita convites!) e dar seus pitacos. Assim que chegou, Julinho descreveu sintomas de um mal-estar que o perseguia tinha dias. “Ocê num tá infartando? Eu acho que tá, viu? Vamos no médico é já!”

“Vou, mas só depois de comer”, foi a resposta de Julinho. Finda a refeição com uns bons goles de cachaça, correu para o pronto-socorro, onde foi internado imediatamente sob o olhar assustado do médico.

Uma rodada de exames detectou dois acidentes vasculares cerebrais que ele nem sequer notou, e um bem recente, responsável pelo quadro que apavorou Rueda. Além disso, diabetes e hipertensão.

A recomendação era clara: diminuir o ritmo, comer menos, beber menos, fazer exercícios físicos. Se arrastando por uma rua de Pinheiros com seus pugs, num fim de tarde do mês passado, Julinho conta que nunca mais voltou ao médico; promete um novo check-up para este ano.

Além de manter (“até que a grana acabe”) a disposição para a briga e as sentenças curtas e graves que acompanham alguns dos mais renomados chefs e restaurantes paulistanos quando mencionados na conversa: “Uma merda”, “Um troço horroroso”, “O horror, o horror”.