O paradoxo da fórmula para a longevidade

A receita para viver mais e melhor é simples – aplicá-la é que pode ser um tanto complexo. Saúde e vida longa dependem de seu estilo de vida. Apenas isso.

Ter uma vida longa e saudável é um sonho cada vez mais próximo. Mas ela depende totalmente de nosso estilo de vida, o que inclui uma alimentação mais natural, a prática de exercícios físicos diários e bons hábitos de sono e relaxamento. Chegar inteiro aos 100 anos é possível – mas devemos nos preparar a partir de agora

A ciência descobriu, após anos e anos de pesquisas, que devemos voltar ao básico. A matemática é a seguinte: bons hábitos alimentares + exercícios físicos constantes + atividades para combater o estresse = você saudável aos 100 anos.

Durante centenas de anos, até mais ou menos o século 18, moradores de vilarejos chineses tinham como costume pagar por suas consultas ao médico da comunidade apenas quando estavam sãos. Se adoecessem e precisassem dele, o atendimento era gratuito – já que o sujeito não havia sido bem-sucedido em sua missão de promover a saúde. Hoje, no Ocidente, procuramos um especialista apenas quando estamos doentes. E, aí, sim, não medimos esforços e gastamos o que podemos. “Não pensamos nunca em prevenção, achamos que não vale a pena investir nisso”, afirma o nutrólogo Thiago Volpi, do Espaço Volpi, em São Paulo.

Se você só passou a ouvir o termo nutrólogo recentemente, não se preocupe: você não está sozinho. A nutrologia é relativamente recente, foi reconhecida como especialidade médica há menos de 40 anos, em 1978. Ela estuda a relação dos nutrientes com nosso organismo, como respondemos ao que consumimos e se temos insuficiência de algum mineral, vitamina ou hormônio.

“Não pensamos nunca em prevenção, achamos que não vale a pena investir nisso”, diz o médico Thiago Volpi. Por outro lado, quando adoecemos não medimos esforços. “A nutrologia tem uma atuação muito forte em prevenção, que é o grande foco da medicina no século 21”

“A nutrologia tem uma atuação muito grande em medicina preventiva, que é o grande foco da medicina no século 21. A principal forma de prevenir doenças não é através de remédios – é, sim, de mudança de estilo de vida”, afirma o médico, que atende na clínica gente como a apresentadora Luciana Gimenez e o empresário Bruno van Enck, da Barbearia Corleone. Com a vida cada vez mais corrida, a epidemia de obesidade que assola o país e o mundo e nossos péssimos hábitos de vida, o nutrólogo – que, como o antigo médico chinês, assumiu a missão de pensar na saúde – passou a ser a bola da vez.

“Somos produto do nosso estilo de vida, não somos mais tão reféns da nossa genética”, afirma o nutrólogo Theo Webert, que tem consultórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília – e clientes como a atriz Graziela Massafera e o alfaiate Alexandre Won. “E mais: não somos apenas o que comemos, como diz o ditado. Somos a forma como digerimos o que comemos. As pessoas chegam aqui com queixas a respeito da qualidade do sono, com sobrepeso e estressadas. E eu falo a elas que não há receita de bolo, mas que também não há outra forma de vivermos melhor se não tivermos uma alimentação mais saudável, sono em quantidade e qualidade suficientes e praticarmos exercícios físicos frequentes.”

Mais feira, menos mercado

Para Theo, quanto mais natural nossa alimentação, quanto menos produtos industrializados comermos, melhor para nossa saúde – e, consequentemente, para nossa longevidade. É aquela história de fazermos menos mercado e mais feira. “Não adianta consumir barrinha de cereal industrializada e achar que está tudo bem”, explica. O médico prefere um cardápio rico em carnes brancas e proteínas vegetais, como quinoa e grão de bico, e com menos carne vermelha. Ele prioriza as frutas vermelhas e cítricas, que contêm antioxidantes, substâncias responsáveis por proteger as células sadias do organismo contra a ação dos radicais livres, que promovem o envelhecimento celular e estão associados a doenças. Produtos integrais, oleaginosas (como castanhas, nozes e amêndoas) e peixes ricos em ômega 3 (caso do salmão e sardinha) são também essenciais em uma dieta saudável.

Segundo os nutrólogos, o consumo de álcool não está proibido, somente limitado a cerca de quatro doses semanais. Os especialistas sabem que hábitos totalmente restritivos podem acabar com a vida social da pessoa, o que atrapalha seus relacionamentos – no fim das contas, essenciais para a qualidade de vida. “Ela pode se permitir determinadas coisas em ocasiões específicas, sem que isso comprometa o resultado final”, afirma Thiago Volpi. Porque, afinal, divertir-se é preciso também.

“Não há outra forma de vivermos melhor se não tivermos alimentação saudável, sono de qualidade e praticarmos exercícios físicos frequentes”

Dr. Theo Webert

Eles condenam ainda os radicalismos alimentares ou os modismos, como a incriminação do glúten ou lactose – a não ser em casos em que haja realmente alguma intolerância. “Tudo na vida é equilíbrio”, diz Caio Henrique Cavalcanti, médico especializado em nutrologia e longevidade, que atende em São Paulo e Maceió. Isso inclui, para ele, não enxergar a comida apenas como um monte de nutrientes, mas sim como um alimento. Esse foi o centro da recente polêmica envolvendo a apresentadora e empresária Rita Lobo, que se recusou a ensinar um seguidor nas redes sociais a fazer maionese com óleo de coco e iogurte dando duas justificativas: “Isso não é maionese” e “trate seu distúrbio alimentar”. “As pessoas cada vez mais estão vendo os alimentos apenas como nutrientes. Elas estão com medo de comida, e isso tem um nome, ortorexia, o que é perigoso”, diz Caio. “Muitas dessas pessoas estão deixando de viver momentos com família e amigos por não poderem ir a um restaurante e comer a comida daquele local. Elas não sabem ponderar.”

Menos estresse

Outra coisa da qual você não vai poder abrir mão se quiser viver mais e melhor é a prática de exercícios físicos. E não há combinação melhor do que mesclar aeróbicos e musculação. “Ou treinamento funcional, se você não gostar ou enjoar dos exercícios com peso”, diz Thiago Volpi (ele mesmo praticante de jiu-jítsu desde a infância). Só que não adianta pedalar de vez em quando ou jogar futebol no fim de semana e achar que está tudo bem: eles devem ser feitos pelo menos cinco vezes por semana – seis ou sete, de preferência. “Quando a pessoa vem me dizer que não tem tempo para praticar exercício, pergunto: que horas você acorda? Como é seu horário de almoço? Sempre tem um jeito de incluir a atividade na vida dela.” Além de combater a obesidade, um grande inimigo da vida longa e saudável, exercícios físicos também promovem uma melhora significativa em nosso humor e diminuem os níveis de estresse.

Atividades físicas, ainda mais se aliadas a técnicas de relaxamento, como a meditação, podem realmente fazer com que evitemos visitar consultórios médicos (a não ser que estejamos procurando prevenção). Estudos que vêm sendo conduzidos há 40 anos pelo médico Herbert Benson, diretor do Benson-Henry Institute e professor de Medicina de Corpo e Mente de Harvard, mostram que entre 60% e 90% das consultas médicas têm alguma relação com o estresse, que provoca, entre outras coisas, problemas cardíacos, disfunções gastrointestinais e dores crônicas.

“A verdade é que temos que voltar ao simples”, afirma o nutrólogo Theo Webert. “Até algum tempo atrás, era bacana e desejado ter um carro do ano luxuoso, fumar, beber sua dose de uísque. Isso era glamour. Hoje, é se manter saudável. É ter consciência sustentável, ir trabalhar de bicicleta, se alimentar bem, estar ativo ao longo do dia. Os valores mudaram. A sociedade está começando a ver que precisamos cada vez menos de remédio e cada vez mais de qualidade de vida.”

ZZZZZ...

Há um último item que não pode faltar nessa equação da vida longa: o sono de qualidade. Estudos recentes mostram que sete horas são suficientes para descansar o corpo e a mente. Mas não é só: dormir menos de cinco horas é muito ruim, pois contribui para o envelhecimento do cérebro. Uma reportagem publicada na revista Time em fevereiro mostra que o sono picado ou insuficiente pode comprometer o funcionamento do corpo inteiro, do cérebro ao coração, passando pelo sistema imunológico. Quem dorme mal ou pouco tem mais chance de desenvolver doenças que podem provocar morte prematura, como problemas cardíacos, diabetes, pressão alta ou obesidade. Ou então problemas que afetam o cérebro, como depressão. Ela conclui: “Nossa inabilidade – ou falta de vontade – de dormir suficientemente é uma das piores coisas que podemos fazer para nossa saúde”.