O que é ícone?

É mais do que um ídolo. Ele precisa aparentar um quê de rebeldia, causar alguma ruptura, permanecer atemporal – e se tiver estilo, melhor

Quem inspira você? Responder a essa pergunta é o primeiro passo para identificar um ícone. O que pode significar que muitas vezes trata-se de uma escolha bastante pessoal. Mas esses casos são exceções. Ícones são aqueles que influenciam o coletivo, mobilizam sociedades, mudam comportamentos. A principal fonte de formação de ícones na era contemporânea tem sido o esporte, o mais perfeito palco da vida que já inventaram. Conquistas, viradas, superação, solidariedade… com um mínimo de fantasia, conseguimos transpor para nosso cotidiano comezinho as enormes emoções geradas por ele.

Importante, nesse caso, é não confundir ícones com ídolos. Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar… são todos ídolos, que até podem um dia transformar-se em ícones. Estão no mesmo patamar que Ronaldo, Zidane, até mesmo Zico, Sócrates. Um degrau acima estão Platini, Beckenbauer, Maradona, símbolos não só de ótimo futebol como de soberania nacional. E, acima de todos, está Pelé, o maior sob qualquer prisma. Nosso rei conseguiu dobrar até mesmo os Estados Unidos, a terra por excelência da meritocracia. No último Super Bowl, um vídeo homenageou os maiores mitos do esporte para os americanos: Michael Jordan, Muhammad Ali e ele, Edson Arantes do Nascimento, entende?

Pelé fez mais do que levar torcedores ao delírio: ele nos livrou da síndrome de vira-lata, como escreveu Nelson Rodrigues, e ajudou a moldar nossa identidade nacional. Se hoje o Brasil é reconhecido por ser a terra do futebol, isso se deve à imagem daquele menino de 17 anos chorando sobre os ombros do experiente goleiro Gilmar. Um parêntese: a imagem não seria tão forte se não fossem as lágrimas do craque, libertadas num tempo em que ao homem era vetada a manifestação de sentimentos. Pelé, sem saber, foi um precursor de um novo comportamento masculino. Mas esse é outro assunto.

Beckham é um caso raro de ícone que mudou de categoria. Como jogador, foi pouco mais que bom – nem craque exatamente era, convenhamos. Mas virou uma referência em estilo, primeiro como metrossexual, termo em desuso, thank heavens, depois como símbolo de… simplesmente símbolo de um estilo próprio, como o estilo deve ser. Segue, em outra direção e talvez em menor proporção, a linhagem de dândis como Errol Flynn e Clark Gable, de rebeldes da estirpe de Marlon Brando, que fez da camiseta branca um clássico, e Johnny Depp, que transformou óculos de acetato em acessório fashion e atitude de enfado com a vida em ar blasé.

Ícones nos inspiram em diferentes aspectos da vida. Você pode ser influenciado pela masculinidade de Charles Bronson e Sean Connery (ou Daniel Craig, o mais pop dos James Bond), sem deixar de lado a sensibilidade. Vibrar com um ás da velocidade como Steve McQueen, the King of Cool, piloto exímio dentro e fora das pistas (o homem mais estiloso de todos os tempos, na minha pouco qualificada opinião), ou Ayrton Senna, nosso segundo maior ídolo do esporte, sem sequer ter carta de habilitação. Admirar a inteligência de Jô Soares e achar ridículo usar gravata-borboleta. Impressionar-se com a empatia e a capacidade de comunicação de Chacrinha e Silvio Santos e relevar suas posições políticas.

Quem sobreviverá ao tempo? Essa talvez seja a segunda pergunta mais importante na hora de classificar um ícone. É mais fácil identificar os do passado. Por quê? Primeiro porque já sabemos quem são nossas referências, o tempo consegue trazer distanciamento. Mas também porque, antes, os ícones eram mais fáceis de ser encontrados, surgiam em ambientes mais controlados. Estavam nos campos de futebol, nas quadras, nos palcos do teatro, nas telas de cinema, em quatro ou cinco emissoras de TV, uma ou duas dezenas de revistas relevantes. Na era das redes sociais, reality shows, Netflix, os ídolos se multiplicam, brilham em pequenas esferas. Você já ouviu falar no comediante piauiense Whindersson Nunes? Nem eu, até dar um Google e descobrir que o cara tem 12 milhões de inscritos no YouTube. Ele virará um ícone? Muito provavelmente não – mas quem pode garantir?

Difícil, portanto, apontar os ícones do presente e ainda mais do futuro, mas temos algumas pistas por aí. Sabemos que os empreendedores são os heróis do momento, os novos craques do futebol. Mark Zuckerberg nos ensinou que a fortuna pode nascer da garagem de casa, e não batendo o ponto da firma, enquanto Steve Jobs nos mostrou que mudar o mundo é possível (e desejável) e que um temperamento irascível pode, com certa benevolência, ser interpretado como manifestação torta da busca por perfeccionismo – sem contar que, afinal, o combo tênis New Balance + jeans lavado + suéter preto tem lá seu charme.