Pinheiros, reduto liberal (e progressista) de São Paulo

Saímos hoje (22/10) para caminhar e aproveitar o sol. No trajeto entre as ruas João Moura e Mourato Coelho, passamos pela feira de antiguidades da praça Benedito Calixto, em cujo entorno viam-se dezenas de comerciantes ilegais ensaiando um protesto, com faixas e inscrições: a polícia não deixou que eles armassem suas banquinhas de artesanato na […]

Nós compramos este tomate anômalo na feira livre da praça Benedito Calixto, que acontece às terças

Saímos hoje (22/10) para caminhar e aproveitar o sol. No trajeto entre as ruas João Moura e Mourato Coelho, passamos pela feira de antiguidades da praça Benedito Calixto, em cujo entorno viam-se dezenas de comerciantes ilegais ensaiando um protesto, com faixas e inscrições: a polícia não deixou que eles armassem suas banquinhas de artesanato na calçada.

Legal. Logo convocarão uma marcha pelas redes sociais, que é como as pessoas têm se organizado para cumprir suas agendas políticas. Mas você não vai a 90% dos “compromissos” aos quais “adere” no Facebook, não é? Também não eu.

Eles são infensivos, os protestantes, nos conhecemos de chapéu, nossas crianças passam pelos hippies e pelos maconheiros animadamente, como se em casa estivessem. O que eles querem, os protestantes, mais do que qualquer outra coisa, é poder curtir o sábado, principalmente um assim ensolarado. Em dias normais, eles ficam ali trabalhando e socializando até o começo da noite.

Escrevo do meu private Terraço Itália, no velho edifício Via Del Tritone. Num raio de 500 metros daqui, drogas lícitas e ilícitas são consumidas tranquilamente, sem repressão do estado. Politicamente, os profissionais liberais com suas famílias são mais à esquerda e os hipsters e a gente criativa ficam mais próximos de um modelo anarquista, na mais civilizada acepção do termo.

Sexualmente, imagino, há uma grande concentração de homossexuais, swingers e libertinos de todo o gênero. O cache de suas navegações pela web, os segredinhos e resíduos de alcova — tudo isso se materializa e corre à boca pequena entre seus zeladores, porteiros e empregadas.  

Será que o tempo vai armar no fim da tarde?

O bairro de Pinheiros é o mais divertido de São Paulo. É onde vivem quase todos os artistas plásticos, michês, escritores, filósofos, jornalistas, mitômanos, músicos, palestrantes, trambiqueiros, promoters e modelos da cidade. Por uma questão de logística, o pessoal da editora em que trabalho, em peso, escolheu o bairro para habitar.

O barulho do trânsito é insalubre, o mercado imobiário está surfando uma bolha — o preço de um apartamento de dois quartos é surreal — e há boas opções de bares, restaurantes, galerias de arte e sex shops.

Naquele mesmo raio de 500 metros estão Arturito, Buttina, Don Curro, Finnegan’s, Caverna do Bugre, Vianna, Bar do Biu, El Guatón, Andrade, Vento Aragano, Consulado Mineiro, La Marie, Le Jazz, El Cabong, Teta, Tasca da Maria e do Zé, entre outros. Dá uma olhada no site da Veja SP para ter as indicações.

Há, enfim, um certo clima de liberalidade no ar, algo que momentaneamente faz com que esqueçamos da hostilidade e da dureza das relações pessoais para além do centro expandido de São Paulo — e o que dizer dos rincões mais inóspitos. Pinheiros é, por assim dizer, um Quartier Latin de possibilidades.