[Ideias VIP] A verdade prática por trás do “puta na cama”

Provérbios, como clichês, existem para serem usados, pois revelam atitudes e convicções

Depois de 17 anos de casamento, para dar uma reviravolta no mingau morno que aquela vida sexual matrimonial havia se tornado, uma amiga resolveu fazer um ensaio sensual. Como não tinha esse perfil “ponho mesmo a bunda de fora, coisa mais natural do mundo”, precisou se armar de coragem. Mas foi lá e fez.

Descobriu-se sedutora, exibicionista, a rainha da sacanagem dentro do sagrado lar (as fotos foram tiradas em casa). Já havia comprado lençol preto de cetim, uma porção de acessórios eróticos. Entrava na guerra para vencer. Coisa de gente firme. Não é para qualquer uma.

O marido não é assim tão extrovertido, ousado. É um homem que aprendeu, como tantos outros, que filme pornô se assiste sozinho e que a mulher casada deve, por princípio, manter certo recato.

Dar um book sensual de presente para um homem silencioso e introvertido é bem, bem difícil – assim como fazer isso para um desses insensíveis e egocêntricos (estou pensando no marido de uma amiga que, ao chegar em casa e ver a escada cheia de velas acesas, reclamou que parecia uma sala de velório, enquanto ela esperava na cama cheia das melhores e eróticas intenções).

Enfim, nosso homem em questão, após um jantar regado a queijos, vinhos e espumante, abriu seu presente. Paralisou na quinta página do book, entre a bunda empinada na cama e um mamilo empinado no quarto. “Quem tirou? Quem viu?”

Entre o deleite de ver a mulher em pose mais explícita que calendário de borracharia e imaginar a sua privacidade invadida, fez a segunda opção. Aquilo foi demais para ele. Ela saiu do quarto e terminou a garrafa de espumante sozinha na sala.

Claro, um homem pode ser pego desprevenido por não estar esperando um arroubo erótico da sua garota, assim, de supetão. Pode estar cansado e não achar aquela cena tão excitante ou mesmo estar em um dia ruim.

A situação pode ter acessado suas crenças mais profundas sobre nudez, pudor e intimidade, e ele pode ter paralisado nem tão simplesmente por ser machista, ciumento ou possessivo – as respostas mais óbvias –, mas por ter descoberto algo novo, tanto em sua mulher quanto em si mesmo.

Não é porque nós, mulheres, estamos a todo momento às voltas com moças nuas, lindas e em pose sexy que nos sentimos assim. Não é fácil esfregar a bunda no pau do pole dance, fazer striptease com cara sensual ou, menos ainda, tirar foto seminua.

E, embora a gente faça esse tipo de coisa para alimentar a nossa Afrodite interna, é também um ato transgressivo de amor. Valeria a pena guardar o próprio desconforto e fazer cara feliz.

Dias depois, ele resolveu levar a mulher no motel para “terminar aquele assunto”. Pediu desculpas, dizendo que o problema estava mesmo com ele, terminou de ver as fotos e se deixou conduzir pela vontade da mulher de assistir um pornô ao seu lado e atiçar fantasias. Fizeram sexo adoidado, com todos aqueles aparatos que ela havia comprado, falando um monte de sacanagens.

Provérbios, como clichês, existem para serem usados. Mesmo que você não se enquadre em suas “verdades”, eles revelam atitudes e convicções do povo. Aquele que relata o sonho masculino de “ter uma mulher puta na cama…” foi desta vez certeiro.

Ana Canosa é psicóloga clínica, terapeuta e educadora sexual e acha que em certos momentos da vida nos identificamos com algum dito popular