Qualidade de vida: Guga

Vinte anos depois da primeira conquista de Roland Garros, ele encontrou a equação ideal — trabalhar muito e relaxar sempre

1-Diminutivo de Gustavo 2-Apelido de Gustavo Kuerten, atleta que encantou o país e o mundo em 1997 ao vencer Roland Garros, o torneio de tênis mais charmoso do planeta 3- Tenista aposentado apelidado de labrador por causa de sua simpatia 4-Atleta que sempre soube equilibrar a carreira com a vida pessoal

Gustavo Kuerten não é um labrador. E, embora possa soar o contrário, isso é um elogio.

Para não ser apedrejada por fãs do atleta (ou do cão), explico. Não há dúvidas de que Guga, cuja primeira das três vitórias em Roland Garros completa 20 anos no mês que vem, seja um sujeito afável e bem-humorado. Quando chega ao nosso encontro, marcado por ele no SC401 Square Corporate – um ambicioso empreendimento corporativo em Florianópolis que tem como investidora a RGK, braço imobiliário de sua empresa GGK –, o ex-tenista não se furta a abrir a todo momento o largo e característico sorriso. Mas, logo que surge de bermuda cáqui, camisa polo e chinelos slip on, fica claro que ele não é um garotão, daqueles que se recusam a crescer. Guga é um homem completamente consciente de seus 40 anos e dos fios grisalhos que disputam cada vez mais espaço na cabeça que já ostentou uma longa, encaracolada e rebelde cabeleira loira. É concentrado, atento a tudo, sério até. Faz reflexões profundas sobre as coisas pelas quais passou, suas escolhas, seus projetos futuros e sobre os momentos fortuitos que viveu, mesmo que não encontre explicação para alguns – como, aliás, diz ser o caso de sua primeira vitória em Roland Garros.

Mas Gustavo Kuerten gosta e parece fazer questão da imagem de labrador humano. O que também ajuda a dizer bastante sobre o temperamento cordial do manezinho que, há 20 anos, em suas próprias palavras, “nascia para o mundo” e conquistava “a maior façanha” de sua vida, a “vitória mais divertida da carreira” nas quadras de saibro de um dos torneios mais importantes de tênis do mundo. “A única forma de vencer naquele contexto era assim, sorrindo, brincando”, relembra Guga, já descalço e sentado em um espaçoso sofá da ainda vazia recepção de um dos prédios do complexo, cuja inauguração oficial está marcada para junho. “Brinquei de ganhar Roland Garros. Inconsequentemente, sem saber o real significado de tudo aquilo. Caso contrário, seria um colapso. Hoje eu entendo e consigo enxergar o que realmente aconteceu. Desafiei os maiores tenistas do planeta num momento superinspirado e num lugar que foi sempre meu templo sagrado do tênis. Tirei não sei de onde todo tipo de energia possível para ganhar de caras muito melhores do que eu.”

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Vestido de “pilha Rayovac”, destoando dos discretos tenistas de Roland Garros, Guga foi despontando em 1997, derrubando adversários um a um (Michael Steele/Getty Images)

Foi a partir da proeza em Roland Garros que Guga se tornou um dos maiores ídolos do país. “Ele é o substituto de Ayrton Senna no coração do brasileiro”, afirma o jornalista esportivo Renato Maurício Prado, que estava por acaso no torneio de 1997. Superintendente do jornal O Globo na época, ele tinha ido a Paris para estudar a infraestrutura para a Copa da França de 1998 e, num intervalo de dois dias entre acabar sua pesquisa e começar a cobertura do Torneio da França de futebol, em que a seleção de Zagallo jogaria, resolveu assistir a alguns jogos de tênis. Só lá descobriu que havia um brasileiro meio desconhecido na disputa, um sujeito que usava um uniforme berrante e destoava da imagem clássica e elegante de um tenista. “Parecia uma pilha Rayovac, de amarelo e azul”, brinca Renato. “Aquele sujeito que eu nunca tinha visto foi ganhando, ganhando, e a coisa começou a ficar séria, a ponto de eu desistir de acompanhar o torneio de futebol. Avisei ao Globo: ‘Vou ficar aqui até esse menino perder’.” Renato ficou até o fim do campeonato.

Prazer, Guga

Renato Maurício Prado, eu, você e o mundo descobrimos Guga ao mesmo tempo. “Pra mãe, pra minha família e uns gatos pingados que acompanhavam tênis no Brasil, eu era alguém. Mas para bilhões de pessoas no mundo todo eu nasci naquela semana, derrubando um a um os maiores gênios da época”, conta ele. “A vida se transformou por completo.” Os grandes veículos de mídia, vendo Gustavo Kuerten crescer no saibro e fazer o improvável, mandaram seus correspondentes internacionais, que costumam cobrir política e economia, para o evento – ninguém, portanto, familiarizado com o esporte. A jornalista Diana Gabanyi, assessora de imprensa que acompanhou Guga do começo da carreira até a aposentadoria, em 2008, foi chamada às pressas por Larri Passos, treinador e mentor do atleta. “Ele me pediu para ir a Paris porque precisavam de mim. As pessoas não sabiam o que era saibro, a importância de Roland Garros e nem quem era o Guga. E eu também tinha que atender os repórteres estrangeiros, que queriam saber quem ele era. Fui vendo aquilo acontecer e não acreditava também”, relembra. Certa vez, em um café da manhã, o jornalista esportivo da Globo Armando Nogueira, morto em 2010, juntou os repórteres para dar um curso rápido de regras do tênis.

O mundo foi aprendendo a se apaixonar e a torcer por aquele sujeito não apenas por sua alegria, simpatia e pela silhueta divertida – magra e comprida, com os cabelos desgrenhados e jeitão de surfista –, mas também pelo tênis que ele jogava. Guga revolucionou o esporte no saibro, antes lento e clássico, de jogadas de fundo de quadra, em que os atletas esperavam o erro do outro. O brasileiro, ousado, não: atacava com golpes poderosos, deixadas surpreendentes e saques potentes. Os adversários faziam o que podiam, mas assistiam aturdidos às vitórias do manezinho. “Era um tênis que eu não conhecia e era assustador”, revela Guga hoje. Ele não tem falsa modéstia – ao contrário, faz uma constatação bastante racional, fruto, ele diz, de muita reflexão. “Tem que ser extraordinário para vencer um Grand Slam”, continua, referindo-se a um dos quatro mais importantes torneios do tênis: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e o US Open. “São sete jogos, os melhores só perdem para os melhores – não foi o caso em 97 – e sem atalhos. Eu desconhecia o tênis que joguei, mas ele aparecia em cada partida um pouco mais e eu conseguia levar para o outro jogo. Isso é muito difícil. Nunca tinha feito uma semifinal de qualquer tipo de torneio daquele nível. De repente, quando cheguei à de Roland Garros, tive certeza de que seria campeão. Porque o caminho até lá tinha sido muito difícil.”

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A mãe, Alice, e a avó Olga são alguns dos pilares da carreira e trajetória vitoriosas (Antonia Ribeiro/Reprodução)

“Temos tantas histórias juntos que eu precisaria ser um baita mentiroso para dizer que achava que ele ganharia Roland Garros naquela primeira vez”, conta Fernando Meligeni, ex-tenista profissional, hoje comentarista do esporte da ESPN e amigo de Guga desde antes dessa época. “Ele usava da brincadeira e tirava a pressão de si mesmo. Dizia que era sorte, que nem ele esperava ganhar cada partida que vencia. Não trazia nenhuma credibilidade para ganhar Roland Garros, todo desengonçado, bonachão. Mas, ao mesmo tempo, depois da partida com Muster [o austríaco Thomas Muster, o 5º do ranking na época, na terceira rodada, em que Guga virou um jogo quase perdido], mostrou que tinha uma força mental e uma leitura de jogo incríveis, porque aguentar a pressão não era para qualquer um.” Guga diz que a partida mais difícil do torneio – e da sua vida – foi contra o russo Yevgeny Kafelnikov, nas quartas de final. “Era para ele ser campeão com as mãos nas costas. Vinha atropelando, havia vencido o torneio em 96. Eu era muuuito inferior a ele”, conta, esticando a sílaba. “Essa foi a única vez, talvez em toda minha carreira, em que entrei em quadra não acreditando que podia ganhar. Pensava: ‘Onde vou encontrar uma luz que me convença de que posso vencê-lo?’. Só achei essa luz no quarto set. Por isso, para mim, essa partida foi uma final, determinante.”

Surfe no Havaí

No fim de março, o treinador Larri Passos, agora comentarista de tênis do Canal Sony, encontrou seu antigo pupilo Gustavo Kuerten em Miami. Fazia seis meses que eles não se viam, porque Larri se mudou para a Flórida com a família no ano passado. “Eu estava trabalhando no Miami Open e ele foi para o torneio e veio me visitar. A Sony ia filmar nosso reencontro. Quando ele chegou, nos abraçamos e começamos a chorar. Aparecemos na TV com as lágrimas escorrendo”, conta Larri. “Só nos demos conta agora de que já se passaram 20 anos. A gente começou a relembrar e não tem como não se emocionar.” Larri acredita que o êxito de Guga em 1997 só pode ser entendido se voltarmos para um episódio 11 anos antes. “Em 86, fui a Roland Garros pela primeira vez e me apaixonei. Me perdi naquele lugar, fiquei tonto. E tive certeza de que um dia um jogador meu ia vencer lá. Quando levei o Guga pela primeira vez, em 1992, ele tinha 15 anos. Ficou extasiado, os olhos dele brilhavam. Ele nem tinha crachá, a gente enganava o porteiro para poder entrar nas quadras antes mesmo de o torneio começar e ficava lá o dia todo. Eu falava: ‘Vamos aproveitar ao máximo esse tempo aqui’. Percebi quando ele criou essa paixão por Roland Garros também. Fomos conhecer Paris e ele escreveu uma carta para a mãe e para a avó de dentro do Museu do Louvre, falando que seria o número 1 do mundo. Essa construção mental foi muito importante para que tudo desse certo em 1997.”

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O treinador Larri Passos, mentor e fiel escudeiro, era chamado de “pitbull” por blindar Guga. Ele e seu protegido fizeram uma promessa depois da vitória de 1997 de continuarem os mesmos (João Santos/Reprodução)

Larri era conhecido entre os jornalistas pelo carinhoso apelido de “pitbull”. “Imagina você ao lado de um moleque de 20 anos que ganha um torneio desses? Eu tinha que proteger o Guga de todo o assédio. Acharam que ele era fogo de palha, e mostramos que não.” O tenista venceu Roland Garros novamente em outras duas ocasiões, em 2000 e 2001, e tornou-se o número 1 do ranking, como havia prometido à avó e à mãe, por 43 semanas. Larri sabia que precisava cuidar para que seu pupilo fizesse duas coisas: 1. mantivesse o pé no chão; 2. aproveitasse o tempo que tinha livre. O treinador relembra a promessa que eles fizeram para a primeira missão funcionar. “Em 97, depois da vitória, fomos a um lugar reservado, choramos, rezamos e eu disse a ele: ‘Guga, vamos continuar os mesmos’. Ele me olhou e respondeu: ‘Vamos continuar os mesmos’. Nossa rotina permaneceu exatamente igual: a gente comia sanduíche no mesmo boteco, tomava o picolé do mesmo sorveteiro, pedia fiado quando tinha saído sem a carteira. Não escondi o ídolo.”

Sobre a segunda missão, Guga relembra: “Surfava sempre que podia. Me dediquei muito a aproveitar o tempo livre, porque espontaneamente tendia a não acontecer. Foi uma decisão, comprometia outras coisas, mas, por mais caxias e disciplinado que eu fosse em meus treinos, eu tinha a minha vida”. Ele chegava a bancar a viagem dos amigos para que todos fossem juntos surfar em algum lugar do mundo. Certa vez, em 1999, se confundiu e pagou uma passagem para o amigo de infância Sergio Viana, que hoje trabalha no GGK, para a Costa Rica, onde teriam hospedagem gratuita – só que a hospedagem era em Porto Rico. “Em 2000, quando ele venceu em Lisboa [o Masters Cup] e virou o número 1 do ranking, me falou: ‘Larri, tô pegando um voo pro Havaí pra surfar. Atende a imprensa pra mim no Brasil?’. Era direito dele”, conta o treinador. O ex-tenista sabe que deixou de fazer muitas coisas por causa da carreira, mas diz que elas não fizeram falta. “O que eu buscava era muito valioso e genuíno. Ir atrás de outros interesses? Aquele era meu maior interesse. Na época, ser o número 1 do mundo era maravilhoso, mas estar com os amigos, em casa, não fazer nada ou ir surfar também era espetacular.”

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Gustavo Kuerten amava o tênis, mas sempre soube da importância de ter um tempo só dele, mesmo que pouco. Nesses momentos, viajava para surfar – chegou a bancar a viagem de vários amigos (Sergio Gallo/Reprodução)

Guga nunca foi de sofrer pelo que passou nem de projetar o futuro. Sua filosofia se parece muito com a da atenção plena, pregada pelo mindfulness, técnica de meditação laica que hoje faz muito sucesso no mundo dos negócios e entre atletas de alto rendimento. “O esporte me fez viver muito assim, no agora, no que está aqui. No tênis, se a pessoa está com a cabeça em outro lugar, acabou. É uma meditação entrar em quadra e pensar só naquele momento, se envolver por completo naquilo. O Larri foi meu grande mentor nisso. Esse negócio de se relacionar com tudo o que está acontecendo agora nos deixa involucrado. E para mim permanece ainda. Acho que a qualidade de vida está muito relacionada a saber gerenciar a ansiedade, a perspectiva do que vem pela frente, o próximo passo.”

Nova missão

Duas décadas mais tarde, depois de fazer um baita sucesso como comentarista da Olimpíada do Rio na TV Globo (que lhe rendeu, além do apelido de labrador humano, um contrato com a emissora), Guga brinca que sua vida “está igual, mas diferente”. Ele teve que se aposentar das quadras compulsoriamente em 2008, após lutar por seis anos contra uma lesão na cartilagem do quadril – que surgiu por causa do jeito que ele jogava, com as pernas paralelas para dar angulação às bolas de direita. Orgulha-se de ter feito tudo o que pôde, inclusive quatro cirurgias, e de ter vivido para sua recuperação por um tempo. Mas também sabe colocar as coisas sob perspectiva e não lamenta o fim precoce da carreira. “Há quatro anos pus uma prótese, mas tenho diversas dificuldades ainda. Teria pelo menos mais uns cinco anos com chance de ganhar Roland Garros e, de repente, não dava mais. É difícil, mas a vida é assim. E é dessa forma que eu preciso seguir adiante. Aprendi muito com outras perdas, como a do pai [morto quando Guga tinha 9 anos]. Via meu irmão, sem andar [Guilherme tinha paralisia cerebral e morreu em 2007]. Minha perda foi pequena porque posso olhar para o lado e ver bilhões de situações mais delicadas.”

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(Paulo Vitale/Reprodução)

Guga diz que a carreira como tenista foi só o começo do que considera sua missão. “Olha tudo o que estamos conseguindo fazer”, ele fala, apontando para o SC401 Square Corporate, enquanto enumera os feitos dos demais braços do Grupo Guga Kuerten. O irmão mais velho, Rafael, dono de veia empreendedora, foi quem criou a empresa antes de Guga vencer Roland Garros – em 1995, decidiu viabilizar o sonho do irmão e ajudava a mãe a captar patrocínio. Hoje, a Guga Kuerten Company é quem gerencia a marca e imagem do atleta – ele tem parceria com Lacoste, Itaú, Peugeot e Hublot, entre outras marcas. A Guga Kuerten Participações é responsável pelos negócios que envolvem parcerias. A RGK gerencia os investimentos imobiliários do GGK. A Guga Kuerten Franquias é voltada para a expansão da rede Escolinha Guga, de iniciação no tênis para crianças de 5 a 10 anos, com 38 unidades no Brasil, e da Escola Guga, para alunos de 11 a 15 anos, que conta com 20 unidades.

Mas a menina dos olhos do ex-atleta é o Instituto Guga Kuerten, braço social do grupo, presidido pela mãe, Alice, que dedicou sua vida à causa da integração de pessoas com deficiência. O IGK desenvolve programas de esporte e educação para garantir a inclusão social delas e de crianças e adolescentes – já atendeu mais de 74 mil pessoas. “Nos Estados Unidos, muita gente que já esteve dentro da quadra usa aquele conhecimento brutal para outras associações, outros projetos. Fazemos o mesmo.” Estima-se que o faturamento seja em torno de 250 milhões de reais anuais – no tênis, Gustavo acumulou 47 milhões de reais só em prêmios. “Quero me envolver em tudo o que faço, tomar boas decisões, curtir as pessoas que amo, meus filhos [Luiz Felipe, que faz 4 anos em junho, e Maria Augusta, 5, que teve com a esposa Mariana Soncini], aproveitar todos os bons momentos da vida, as emoções. Quero transformar o tênis, dar oportunidades, decência de vida para crianças, investir em esporte e educação. E, sem dúvida, contagiar as pessoas, inspirar. Exatamente como fiz em Roland Garros em 1997.” É igual, mas diferente.

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