Qualidade de vida: o mindfulness de Chade-Meng Tan

Como praticar? Descanse a mente por períodos muito curtos mas com frequência. Exercite também a felicidade: deseje o bem às pessoas ao seu redor

Uma meditação laica, com práticas simples, desmistificada. O engenheiro Chade-Meng Tan, um dos primeiros funcionários do Google, virou um dos gurus do mindfulness, técnica que ajuda a melhorar saúde mental e emocional e tem atraído cada vez mais executivos

O engenheiro Chade-Meng Tan foi o 107º contratado do Google, em 2000. Com o tempo, percebeu que as pessoas ao seu redor estavam infelizes e improdutivas. Resolveu implementar na empresa um programa baseado em estudos seus, chamado Search Inside Yourself (ou “Busque dentro de você”). O método era alicerçado em um tipo de meditação que nada tem de religioso: o mindfulness. Traduzida como “atenção plena”, a prática ensina, com a ajuda da respiração, a ter foco no presente. Segundo Chade, treinar nosso cérebro para isso garante mais saúde (diminui dores crônicas e pressão arterial, evita ansiedade e depressão) e mais produtividade, criatividade e resultados. O programa fez tanto sucesso no Google que virou livro e até um instituto, cujo objetivo é disseminar a prática. E Chade ganhou fãs do gabarito de Barack Obama e Dalai Lama.

O programa de mindfulness que você desenvolveu no Google virou referência no mundo. O método tem fãs de perfis diferentes. Mas por que você acha que ele se ajustou tão bem entre os executivos?
Porque ele é uma vantagem competitiva. De muitas formas, o mindfulness é como um exercício. Se você se exercitar, vai ganhar saúde e ficar em forma, e com isso tem mais energia, fica menos dias doente, ganha confiança – e se transforma numa pessoa mais bem-sucedida no trabalho. O mindfulness é um exercício para a mente. Ele ajuda a ganhar saúde mental e emocional. Você consegue lidar muito melhor com as situações estressantes e os relacionamentos. Em outras palavras, isso faz de você um líder melhor. Por isso os executivos amam o programa. Mas não é só para eles: ele beneficia qualquer pessoa.

Que benefícios trouxe para você?
Ele mudou minha vida. Quando eu era jovem, era muito infeliz. Meu “patamar” de felicidade era a angústia, o que significa que se nada de bom acontecesse eu me sentia angustiado. Hoje, se nada muito ruim ocorre, me sinto muito feliz. Várias pessoas acreditam que o patamar de felicidade é mais ou menos fixo, mas em minha própria experiência percebi que o meu mudou profundamente. O que proporcionou a mudança foi a meditação. Descobri que a mente é altamente treinável, como nosso corpo. A felicidade é o estado padrão da mente, o “default”. A mente tem uma qualidade inerente de felicidade genuína (o termo técnico é sukha), que está sempre lá. É como o barulho do ar-condicionado na sala. Não o percebemos até aquele momento em que nos aquietamos e prestamos atenção. Há um estado de felicidade serena sempre presente na mente. Quando você se aquieta e percebe, e desenvolve habilidade para acessar essa felicidade interior, você terá acesso seguro a uma fonte extremamente sustentável de prazer.

Como praticar?

Um truque é descansar a mente por períodos muito curtos mas com frequência. Exercite também a felicidade. Deseje o bem às pessoas ao seu redor e você se sentirá melhor.

Algumas pessoas têm certa dificuldade em meditar. Você teve no começo?
O truque para os iniciantes é começar com práticas muito curtas, fáceis e efetivas. Um exemplo é fazer frequentes micropausas mentais. Descanse a mente por um tempo muito curto, mas faça isso com frequência. Leve toda sua atenção ao processo de respiração por um ciclo completo, apenas isso. Não é preciso parar de trabalhar e ir para um quarto de meditação. Você pode dar essas micropausas entre suas tarefas diárias. Você vai ter benefícios com praticamente nenhuma dificuldade. Outra técnica que é ótima para qualquer pessoa, mas especialmente para gestores, é a prática da gentileza: por 10 segundos a cada hora, das 9h da manhã às 5h da tarde, aleatoriamente identifique duas pessoas e pense consigo mesmo: “Desejo que fulano seja feliz e desejo que sicrano seja feliz”. Esse pensamento, quando surgir com frequência suficiente, transforma-se num hábito mental, que é chamado de prática da gentileza.

Em seu novo livro [Joy on Demand, ainda inédito aqui], você trata sobre a felicidade. É fácil ser feliz?
Não é muito fácil, mas é muito mais fácil do que as pessoas imaginam. Há práticas muito simples e eficientes. Uma é treinar o cérebro para identificar “fatias finas” de alegria. Há muitos momentos fugazes de alegria em nossas vidas que não são superintensos – são “fatias” de alegrias que são “finas” tanto em tempo quanto no espaço. O método é simplesmente percebê-las. Você experimenta mais prazer apenas porque percebe esses momentos. Há um benefício ainda mais profundo. Quando a mente está treinada para perceber esses momentos de alegria, eles se tornam familiares – e isso muda sua inclinação. Textos antigos comparam a inclinação da mente a ladeiras de montanhas. Quando o chão está inclinado em determinada direção, a água flui sem esforço para ela. Da mesma forma, quando a mente está inclinada, pensamentos e emoções acontecem sem esforço de acordo com a natureza dessa inclinação. Se está familiarizada com a alegria, se inclina para isso. Essa é a habilidade de acessar a felicidade sob demanda.

Pessoas felizes são bem-sucedidas ou pessoas bem-sucedidas são felizes?
Sou chinês e cresci em Singapura. Minha ascendência asiática me levou a acreditar que no dia em que eu fosse bem-sucedido seria feliz. De fato, o oposto é verdade. Todos nós conhecemos pessoas bem-sucedidas que são angustiadas. E o contrário é verdadeiro: a felicidade leva ao sucesso e isso já foi estudado. A felicidade no trabalho aumenta em 37% as vendas, em 31% a produtividade e a acuidade nas tarefas em 19%. Ela ainda torna as pessoas mais populares e melhores em seus trabalhos ou estudos. O sucesso não leva à felicidade porque ele é um multiplicador de personalidade. Se você é cruel e maldoso, por exemplo, ser muito rico vai torná-lo mais ainda, porque você não tem mais nenhuma razão para ser bacana com as pessoas. É sempre bom aprender a ser feliz e é útil fazê-lo isso antes de se tornar bem-sucedido. Isso irá ajudar você a ter sucesso – e a desfrutar dele.