Rodrigo Lombardi e sua experiência como pai de A a Z

O ator Rodrigo Lombardi é hoje o galã mais requisitado da TV brasileira , mas seu papel preferido não passa pelos palcos, e sim pela criação do filho

Jaqueta e camisa Prada | Relógio Baume & Mercier Clifton Cronógrafo Calendário Completo 10278 | Estatueta Iron Man Mark 46 Iron Studios (Maurício Nahas/Revista VIP)

Afeto

A entrevista começa e Rodrigo Lombardi diz que se considera um polvo. “Preciso dos meus braços para falar”, explica o ator, chacoalhando as mãos, num domingo luminoso do inverno paulistano.

Estamos no estúdio do fotógrafo Maurício Nahas, na Vila Leopoldina, em São Paulo. Falamos sobre como o ator se relaciona com o único filho, Rafael, de 9 anos.

“Sou umas daquelas pessoas que encostam em todo mundo, e ele eu aperto, agarro, beijo… Não tive isso com meu pai e senti falta depois.”

Bebida

Ary Lombardi, o pai de Rodrigo, não conheceu o neto. Morreu em 2003, aos 70 anos, em decorrência de um enfisema pulmonar. Ao voltar do trabalho, afrouxada a gravata, Ary permitia-se dois dedinhos de uísque, que Rodrigo pediu para provar quando criança.

Ao primeiro gole, o menino reagiu com cara de asco. O ator não dá bola para álcool até hoje. “Tentei outras vezes, mas nunca gostei de nada.”

Supõe que o filho seguirá o mesmo caminho: “Sou viciado em refrigerante e ele não bebe de jeito nenhum, diz que é veneno”.

Castigo

Do pai, Rodrigo apanhou só uma vez. Foi um tapa no queixo, em resposta a um palavrão dito quando tinha 8 anos. Rafael raramente passa do limite, jura o ator. “É um gato angorá. Você põe ele ali e ele fica.

Basta explicar que entende”, diz Rodrigo, que hoje vive um advogado na novela das 21h, A Força do Querer.

Os raros castigos são aplicados pela mãe, a maquiadora Betty Baumgarten, com quem ele é casado há 12 anos. As sentenças: nada de videogame ou TV durante a semana.

Drogas

A política do casal em relação às drogas ainda está sendo decidida. “De maneira bem suave, por sugestão da escola do Rafael, começamos a abordar esse tema e o da bebida há dois anos”, lembra Rodrigo.

“Drogas quero que ele negue sempre, mas não imponho terror. Quero que tenha cuidado, conhecimento. Digo: ‘O mundo é assim, tem isso, tem aquilo’. Com o álcool, se ele se interessar, vai ser uma questão de quanto beber.”

Escola

O garoto estuda desde sempre na Escola Suíço-Brasileira na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde a família mora. Semi-integral, o colégio ministra aulas em duas línguas. A segunda pode ser inglês, francês ou alemão.

A educação do filho em nada lembra a recebida por Rodrigo, que teve de trocar de colégio nove vezes.

“Quando a situação financeira da família piorava, trocava de escola; quando melhorava, ia para outra. Era um suplício ter de fazer amigos novos todo ano.”

Férias

A Força do Querer é sua décima primeira novela na Globo, na qual debutou em 2005, com uma ponta em Bang Bang. Já dublou mais de dez animações para o cinema, a exemplo de Zootopia – Essa Cidade É o Bicho; atuou numa porção de filmes – o último, O Olho e a Faca, sobre amigos que trabalham numa plataforma de petróleo, deve estrear até o fim do ano.

“Morro de medo de ficar pobre. Por isso não admito não trabalhar até nas férias.” Diz que nunca ficou em casa esperando o telefone tocar.

“Sempre estou correndo atrás de algo, e tento passar isso para o meu filho.”

Casaco, camisa e calça Hugo Boss | Boneco Falcon Explorador Estrela (Maurício Nahas/Revista VIP)

Grana

Representante comercial de fábricas de malhas e camisas, seu Ary enfrentou sucessivos altos e baixos profissionais.

“Ele teve muito, perdeu, ficou devendo, ganhou de novo…”, resume o filho, que antes de se firmar como ator foi garçom e agente de viagens.

“Aprendi desde cedo a me virar com pouco e acho que meu filho é parecido. Até hoje pude dar uma boa escola, uma boa casa, viagens, mas ele viveria tranquilamente sem nada disso.”

Homossexualidade

Questionado se teria problemas se o filho fosse gay, Rodrigo lembra o diálogo que um amigo disse ter travado com um médico. “Se seu filho fosse hermafrodita, o trataria como menino ou menina?”, indagou o último.

“Depende, porque há hermafroditas que são 80% masculinos, ou majoritariamente femininos”, titubeou o amigo. “Não”, cortou o especialista. “Você precisa tratá-lo como hermafrodita, que é o que ele é.” Rodrigo concorda.

“Dentro da sua casinha, todo mundo pode fazer o que quiser. É só não invadir a do outro.” Seu Ary reagiria da mesma forma? “Ele sempre teve muito amigo gay e era um cara muito aberto, mas não sei.”

Irmãos

Rodrigo é o segundo de uma prole de cinco, mas cresceu com status de filho único – a irmã mais velha tem seis anos a mais e o terceiro filho, seis a menos.

Essa condição o aproximou do pai na adolescência, quando saía da escola e ia direto para o escritório dele.

Ajudava a dobrar roupas e rodava com ele por São Paulo, onde Rodrigo nasceu e cresceu, para visitar revendedores. Adorava. Vez ou outra, no meio da tarde, ouvia a seguinte convocação paterna: “Vamos ao cinema”.

Foi assim que viu filmes marcantes em sua vida, como O Marido da Cabeleireira (1990), de Patrice Leconte. Aos 13 anos, Rodrigo decidiu que teria filhos. Calculou uma penca.

Após o nascimento de Rafael mudou de ideia. “Pela situação do mundo, pelo trabalho que dá, por tudo, concluí que não quero tantos. Se vier mais um, ok, mas depois a gente fecha a fábrica.”

Justiça

Quando se compara ao filho na mesma idade, o ator se considera um salame. Palavras dele. “Não sei se acho bom ou ruim, mas ele é muito precoce. Tem um senso de justiça e solidariedade que até assustam. Na idade dele eu só faltava babar.”

Os valores, em boa parte, são infundidos pela escola. “É bem mais fácil quando o colégio joga em conjunto.” O ator diz ter aprendido o que é certo e errado principalmente com o pai: “Foi quem me ensinou a ser honesto, que as grandes coisas estão nas pequenas e a olhar para o outro, a olhar no olho”.

Karma

Filho de mãe judia, Rafael reza diariamente e tem demonstrado interesse por religiões diversas. Os pais o incentivam estudando sobre elas em família, das ocidentais às orientais. “Acredito em Deus como uma força maior.

Já rezei, mas não mais, acho impositivo. Até porque muita gente busca a religiosidade no momento da dor.

Se eu conseguir nos momentos bons, acho que estou no caminho certo.”

Casaco, camisa e calça Hugo Boss (Maurício Nahas/Revista VIP)

Lutas

Rodrigo já cogitou ganhar a vida como jogador de vôlei. Ele começou a praticar na adolescência, mas foi desencorajado pela altura – tem 1,82 metro, uns 20 centímetros a menos que a maioria dos jogadores da seleção.

Hoje seu esporte preferido é o jiu-jítsu, o mesmo do filho, que também luta judô. “Já estamos lutando juntos”, conta o ator. “É um dos nossos programas de pai e filho.”

Machismo

A última coisa que o ator planeja, convém avisar, é transformar o filho num daqueles lutadores brutamontes. E que se acham acima de todos, principalmente das mulheres.

“Se eu conseguir educá-lo para que olhe os outros sempre como iguais, todo o resto se resolve”, acredita ele, que cresceu numa época obviamente mais machista.

Novelas

O filho não pode assisti-lo na TV, já que suas novelas em geral são mais que impróprias para crianças. Lembra de Verdades Secretas (2015), na qual deu vida a um empresário que pagou por uma noite com uma modelo menor de idade e depois se casou com a mãe dela?

Rafael o viu em Meu Pedacinho de Chão (2014), exibida às 18 horas, mas não deu bola.

Orgulho

Já seu Ary só pôde ver os primeiros trabalhos do filho da TV. “Ele morria de orgulho. Mas não perdia a chance de dizer: ‘Por que você não aproveita a exposição e abre uma loja?’.” Quando Rodrigo comunicou que seria ator, não ouviu nenhuma objeção do pai.

Pretende adotar a mesma política com o filho: “Quero que ele ande sozinho e morro de medo de projetar minhas vontades nele”. Ele já se pegou, é verdade, imaginando-se num palco ao lado do rebento.

Para ficar apavorado em seguida. “É uma carreira muito ingrata, você se doa bem mais que recebe. Sem falar que tenho amigos que são dez vezes melhores atores do que eu e não deram certo.”

Política

Ele não se lembra de ter discutido política com o pai e pretende fazer o oposto com Rafael. Mas não já. “O que importa agora é criá-lo com discernimento. Se ele tiver isso, jamais vou precisar julgá-lo por suas escolhas políticas.”

O ator aproveita o tópico para sugerir a volta das controversas disciplinas de educação moral e cívica (ECM) e de organização social e política do Brasil (OSPB), antes obrigatórias no ensino básico.

“Apesar de terem sido modificadas pela ditadura, ensinavam o que faz um vereador e um senador. Que adolescente sabe disso? Meu filho não vai aprender isso na escola.”

Q.I.

Um hábito recorrente do ator é analisar as atitudes paternas para tentar melhorar as suas, na esperança de que o filho faça o mesmo com o futuro neto.

A prática o levou a concluir que seu Ary volta e meia agia na esperança de receber algo em troca ou de que alguém o indicasse depois, o famoso Q.I. (quem indica).

“Ele às vezes procurava um jeitinho de se dar bem, o que abomino. E ficava puto porque em geral esqueciam dele.”

Jaqueta, blusa, calça e sapatos Louis Vuitton | Relógio Baume & Mercier Clifton Cronógrafo Calendário Completo 10278 | Triciclo Joanninha – Aluguel de Brinquedos (Maurício Nahas/Revista VIP)

Ressentimento

O ator afirma não guardar mágoa ou ressentimento do pai. Por outro lado, confessa sentir uma culpa enorme por participar pouco do dia a dia do filho. Só em dias como este, um domingo, o ator encontra tempo para o garoto.

Todos os outros são tomados por gravações, embora às vezes surja uma janela ou outra. “Ele não me cobra, desde que nasceu é assim, mas eu carrego esse peso.”

Sexo

Rodrigo adoraria estar mais presente para que o filho se sinta à vontade para falar sobre sexo, no futuro. “Acho fundamental, meu pai jamais tocou no assunto.” A torcida, aliás, é para que o rebento queira se abrir com ele sobre tudo.

“Já vivi dias difíceis em que, por falta de grana, não deu para comer. E não quis falar para o meu pai. Quero que meu filho se permita contar algo assim.”

Tricolor

A bem da verdade, o garoto já lhe comunicou uma notícia doída. “Pai, eu sou Botafogo”, informou dois anos atrás. São-paulino fanático como seu Ary, o ator até tentou demover o filho com a ajuda da diretoria do tricolor, que enviou a ele uma caixa com produtos com o símbolo do clube. Mas ele segue fiel ao alvinegro.

União

Se pai e filho não se entendem em matéria de futebol, são unha e carne quando o assunto são os filmes de animação. Rafael, por sinal, já atuou como dublador de alguns longas, como Procurando Dory, no qual deu voz a um peixinho.

Em cartaz desde junho, Meu Malvado Favorito 3 é o primeiro filme dos dois. Rodrigo dublou o garçom que acredita em unicórnios; Rafael, um menino que aparece num comercial.

Blazer camisa e lenço Dolce & Gabbana | Relógio Baume & Mercier Clifton Cronógrafo Calendário Completo 10278 (Maurício Nahas/Revista VIP)

Violência

“Moramos no Rio de Janeiro, uma cidade praticamente em estado de sítio, e vivo com medo. Tento não passar isso para o Rafael e sei que não posso superprotegê-lo.

Uma hora ele vai andar de ônibus, de metrô, a pé. E vai ser difícil para mim.”

Www

Os brinquedos geeks são comprados com poucos cliques, na internet, com a qual Rafael ainda ganha intimidade. Sob o olhar atento dos pais, que outro dia descobriram num caderno do menino uma porção de endereços de sites para lá de impróprios.

Xbox

Por enquanto, a única violência que o garoto enfrenta é no Playstation de Rodrigo, que joga videogames desde que ganhou um Atari do pai, na década de 80. Rafael tem seu próprio equipamento, um Xbox.

“Ele entende como ganhar de mim em segundos. E olha que sou nerd.” É mesmo. O ator adora HQs e tem várias réplicas de super-heróis hiper-realistas.

YouTube

Quando dominar a internet e descobrir o YouTube, o menino vai ter consciência da fama do pai. “Pai, meu amigo disse que você é famoso”, Rodrigo ouviu outro dia. E explicou: “Meu trabalho é diferente, ajudo as pessoas a descansar, a refletir”.

Zíper

Com 15 anos, Rodrigo visitava com o pai o ateliê do famoso alfaiate italiano Arturo Minelli quando seu Ary pediu: “Mede o garoto”. Quatro provas depois, o menino vestia o primeiro terno, que guarda até hoje.

“Foi com meu pai que aprendi o que é um bom tecido, um bom corte”, diz o ator, garoto-propaganda de marcas como Eudora e que hoje usa ternos bespoke de Alexandre Won. Ele não vê a hora de dar o mesmo presente ao filho. “O problema é que ele não gosta que se metam no seu jeito de se vestir.”