Sem limites: Fernando Fernandes

Fernando Fernandes estreia programa na TV em que se testa em aventuras extremas – e mostra que uma cadeira de rodas não torna nada impossível

“Eu adoro este.” Fernando Fernandes segura um costume branco feito sob medida por Alexandre Won. “Era muito difícil encontrar alguma coisa para mim depois do acidente. Tenho os ombros muito largos por causa da canoagem e dos anos de boxe. E, nas pernas, sempre sobrava pano. O Alexandre faz a calça com menos tecido e mais bunda, porque fico sentado. Depois que o descobri, fiz vários assim”, conta, mostrando outros paletós de cores diferentes, guardados num closet nos fundos de sua casa.

Depois que se veste e se posiciona no centro do cenário montado em sua sala, Fernando, aos 36 anos, navega em águas conhecidas. Sorri vários sorrisos com a segurança de quem passou anos em frente às câmeras como modelo, inclusive a de Mario Testino, para quem fotografou também uma campanha internacional da Dolce & Gabbana. Desde que dormiu ao volante e bateu em uma árvore, num acidente que o deixou paraplégico em julho de 2009, Fernando abandonou a profissão. Mas se recusou a uma vida monótona ou conformada. No dia 27 deste mês, estreia no Canal Off um de seus projetos pós-acidente: um programa em que ele se testa até o limite e que é também uma busca por autoconhecimento, cujo nome ainda não estava definido até o fechamento desta edição.

“Sempre tive muito prazer com o esporte”, conta o atleta, que já jogou futebol e foi pugilista com intenções profissionais. “Quando passei a ser cadeirante, vi que o esporte poderia servir, além de uma ferramenta que faria com que eu me encontrasse de novo como ser humano, também como uma quebra de paradigma, de mudança da forma como as pessoas me veem.” Na primeira temporada do programa, ele percorre 200 quilômetros de hand bike no Salar de Uyuni, na Bolívia. Rema, no Brasil, 150 quilômetros Rio Xingu adentro, até a aldeia dos kuikuros, em que, pouco tempo atrás, filhos com deficiência ainda eram mortos pelos pais, que julgavam impossível sua sobrevivência. Na Noruega, esquia em uma montanha virgem.

“Minha vontade de me testar é minha gasolina. E houve a possibilidade de levar para a televisão essas coisas que faço comigo”, diz Fernando, à mesa da confortável casa em que mora há dois anos, que passou por uma reforma e hoje é toda acessível. “Tem aquele preconceito de que quem está sentado na cadeira de rodas é um incapaz. Sentia que precisava mudar isso. Não tem nada a ver com ego de estar na TV. É por não me aceitar como incapaz por ter uma condição diferente.”

Foi na reabilitação, no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, que ele usou pela primeira vez um caiaque. Amou a sensação de liberdade. Dedicou-se com afinco, a ponto de ser tetracampeão mundial de paracanoagem. Não conseguiu se classificar para a Paralimpíada do Rio e, à época, reclamou do sistema da classificação funcional, que estabelece em qual categoria está cada atleta, de acordo com sua lesão. Afirma agora que “a competição de velocidade não me alimenta mais” e quer dedicar-se à canoagem oceânica. Ficar de fora da Paralimpíada acabou fazendo com que Fernando se aperfeiçoasse na televisão ao ser chamado para apresentar, na Globo, o Boletim Paralímpico. Com isso, além de a ideia de produzir e apresentar um programa ter ganhado mais força, ele também foi escalado pelo Esporte Espetacular como repórter.

A história de Fernando virou livro. Escrita a quatro mãos com o jornalista Pablo Miyazawa, a obra em primeira pessoa e ainda sem título vai ser publicada pela Editora Paralela no fim de junho. Ele avalia que o amigo de infância Pablo é a pessoa perfeita para contar sobre sua vida. “Não que ele queira apagar coisas do passado, como, por exemplo, ter participado do Big Brother Brasil, mas sua intenção é passar a mensagem de que o esporte pode salvar e levar a lugares inimagináveis.” Para Pablo, Fernando nunca se vitimizou nem quer ser exemplo de superação. “O livro traz, na íntegra, os diários que escreveu desde que estava no hospital. O mais impressionante é que já sabia que não ia desistir. Tinha planos A, B e C. E nunca jogou a toalha. Não é que ele se quebrou e precisou levantar das cinzas. Ele sempre teve uma postura positiva”, diz.

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