Seria o narcisismo coletivo culpado pelo “Fla-Flu nacional”

Estudo de psicologia pode explicar a falta de diálogo no mundo: cada lado quer ser admirado e se sentir superior 

Um narcisista admira a si mesmo e adora que outros o admirem também. Um estudo defende que essa característica não se aplica apenas a um indivíduo, mas a grupos de pessoas – seria o narcisismo coletivo. Esse perfil é objeto de estudos da equipe liderada pela psicóloga
Agnieszka Golec de Zavala, da Goldsmith University of London, na Inglaterra. Ela identifica que resultados inesperados de votações recentes – como a vitória do Brexit para a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos – foram afetados por turmas de narcisistas.

A psicóloga resume o narcisismo coletivo como uma crença na grandiosidade do grupo ao qual alguém pertence, mas condicionada ao reconhecimento externo. “Os narcisistas coletivos são viciados na admiração de seu grupo por outros. Se isso não ocorre, eles podem se tornar violentos ao exigir essa admiração”, diz ela à VIP por e-mail.

Como isso afetou as votações britânicas e americanas? Pelo estímulo a uma espécie de nacionalismo xenófobo – os imigrantes são vistos como responsáveis pelas dificuldades econômicas. “O ‘Make America Great Again’ [slogan de campanha de Trump] define um objetivo de restaurar a grandeza americana com ações vagas. Em nossas pesquisas, o narcisismo coletivo americano foi mais forte que qualquer outra variável psicológica ou ideológica no apoio a Donald Trump. E o narcisismo britânico indicava a rejeição aos imigrantes e, por isso, o voto no Brexit”, disse a psicóloga.

No Brasil, o chamado Fla-Flu que polariza discussões entre grupos de preferências políticas diferentes pode ser motivado pelo narcisismo. Cada parte quer se afirmar como superior e ser reconhecida por isso. Muitos se sentem ofendidos por algo que vem do outro lado e partem para a retaliação. Entre tantas agressões verbais e até físicas, chega-se até ao extremo de haver comemorações quando algo ruim acontece com alguém da turma oposta.

Agnieszka recomenda cautela com o termo. Mas diz: “Grupos em conflito frequentemente mobilizam seus membros aplicando a narrativa do narcisismo coletivo: ‘Somos especiais, mas eles nos ameaçam, então precisamos retaliar’. Narcisistas agridem porque acreditam que seu grupo foi atacado. E nem é preciso muito. Nosso estudo mostrou que eles se sentem ofendidos quando alguém faz uma piada ou relembra que o grupo teve momentos pouco elogiáveis no passado”.

As torcidas de futebol podem se enquadrar no conceito. Pense naquele torcedor que prefere berrar “Chupa!” para os rivais em vez de comemorar o gol de seu time. Ou, pior, nas brigas em estádios e imediações. “Nem todos os torcedores são narcisistas. Alguns têm orgulho e prazer em apoiar seus times e não precisam forçar os outros a acreditar na mesma coisa”, esclarece.