Sex and the city

Há cidades passivas e ativas. Em São Paulo, o fluxo é tão rápido que sua vida sexual se esvai

Tenho uma teoria sobre as cidades. Cada uma tem um tempo específico. Há as que são ativas e outras, passivas. Uma cidade como São Paulo, por exemplo, é agressivamente ativa. Se São Paulo fosse um ator pornô, seria o bem dotado Rocco Siffredi numa cena hardcore de anal. Acontece que cidades ativas demais ditam o ritmo, batem de frente, têm um fluxo muito particular e intenso que, quando percebemos, está nos levando como uma correnteza. Esse tempo e a natureza passiva ou ativa das cidades afetam a vida amorosa e sexual dos habitantes.

Explico. Pensei tudo isso quando estava num lugar com um tempo completamente oposto ao daqui: o resort nudista Hedonism, numa cidadezinha da Jamaica. Percebi que a atmosfera erótica ali transcendia a obviedade do ambiente nudista (até porque, curiosamente, a nudez total naturaliza o corpo a ponto de muitas vezes tirar o caráter erótico). Tinha algo a mais ali que fazia com que as pessoas transassem muito.

Conversei lá com alguns casais sobre isso. Um deles me contou da diferença assustadora de sua vida sexual em Nova York, onde morava, e naquele paraíso jamaicano. Na “vida real” tinham um filho, uma rotina estressante, o sexo era ocasional e foi diminuindo com o tempo, com a correria, a rotina – aquela história que conhecemos bem. Mas quando eles iam a esse resort transavam mais de uma vez por dia, ficavam muito erotizados. Concluímos que esse algo a mais era o tempo. Aquela cidade da Jamaica, completamente passiva, permitia que você tivesse tempo. A falta de preocupação, a ausência da ânsia por resultados no trabalho, o dolce far niente eram os responsáveis por aquele tesão todo. Eu mesma senti claramente essa diferença em relação a minha vida aqui.

Já falaram que não existe amor em SP. Arrisco dizer que sexo também não é o forte da cidade. São Paulo é um lugar nada sexual. As pessoas têm uma série de outras prioridades. Aqui, sexo é algo que a maioria coloca rapidinho ali entre a reunião e a aula de pilates; a preocupação com status, a busca profissional e o stress com o trânsito. Essa tensão permanente, essa força estressante que a cidade exerce contra nós, é muito antissexual (porque sexo bom precisa de tempo). E é isso que gera os desencontros tão frequentes, que fazem as pessoas se perderem umas das outras.

Mas não me interprete mal: amo morar em São Paulo. Só que aprendi que às vezes você precisa dar uma puxadinha no cabelo dela e fazê-la sair de cima. Desde que concluí isso, tenho tentado criar o MEU tempo por aqui. E tenho feito viagens periódicas para cidades mais passivas que me lembram da importância desse tempo.

Talvez você, morador de São Paulo ou de uma cidade parecida, esteja lendo este texto e pensando: “Que besteira, minha vida amorosa e sexual está ótima”. Será mesmo?

Carol Teixeira é filósofa, escritora e autora do livro Bitch (Record). Siga-a: @carolteixeira_