Vida executiva

Mais do que trabalhar, é importante aparentar estar sempre produzindo. “Vista a camisa.” Para quê?

Entre em bom colégio. Decore. Tire boas notas. Escolha a profissão que o definirá pelo resto de sua vida enquanto ainda é adolescente. Sempre quis ser advogado, publicitário ou marqueteiro desde minha mais tenra idade. Escolha uma faculdade de renome, de preferência pública. Passe seus quatro ou cinco anos usando a lei do mínimo esforço. Receba um canudo. Estagie em alguma multinacional de nome reconhecido pelos seus familiares. Seja trainee. Faça reuniões intermináveis, videocalls que não levarão a lugar algum, mostre que você é importante para a estrutura. Mais do que trabalhar, é importante aparentar estar sempre produzindo. Vista a camisa. Carro 1.6 flex. Encontre alguém. Namore. Noivado. Casamento. Elimine oponentes, escale a pirâmide corporativa. Lamba botas. Troque de emprego. Seja gerente. Carro da firma. Casual friday e happy hours. Ternos mal cortados e sapatênis. Vista a camisa. Alugue seu primeiro apartamento, tenha um filho. Após dois anos, segundo filho. SUV. Troque o carro ano sim, ano não. Compre um apartamento em suaves 180 prestações. Primeiro caso extraconjugal com aquela pessoa interessante do marketing. Disney, dois anos depois tour de sete dias pela Europa, Miami, Europa, EUA de novo. Mais reuniões que não levam a lugar algum, pessoas completamente desqualificadas sendo promovidas antes de você, projetos que começam e desmoronam como seus desejos. Um sentimento contínuo de embrutecimento, o vazio que os passeios no shopping nos fins de semana já não conseguem mais aplacar, a descarga momentânea de prazer que se vai tão logo o lacre da mercadoria é rompido. Vista a camisa. Beber socialmente todo santo dia. O primeiro apartamento na praia. Ansiolíticos, antidepressivos. A crise da meia-idade, o encontro com os colegas da faculdade, “meu Deus, como os anos passaram rápido”, é, a vida é curta. Os filhos no colégio, ternos bem cortados por alfaiates do centro, você diretor. Você Sociedade Anônima. O primeiro sítio. Fim de semana na praia, fim de semana na montanha, vamos vender o apartamento da praia, as crianças cresceram e nem querem ir mais. Vista a camisa. O colesterol está um pouco alto, seu corpo flácido como o de um astronauta que passou anos flutuando em gravidade zero, nenhuma cárie por causa do saudável hábito de usar fio dental após todas as refeições. Suco verde, glúten free, lactose free, plano semestral da academia que você usou por dois meses, hoje é quarta, dia de feijoada, drive-thru para um hambúrguer depois de ficar até tarde na firma para fechar um projeto porque a vida é curta demais para se comer alface. A vice-presidência que, apesar de todos os seus esforços, nunca chegou e provavelmente nunca chegará. O medo contínuo de perder o emprego, hoje não valorizam a experiência. O medo de tudo: das novas gerações, da mudança, do novo. Porque no meu tempo. Medo contínuo que o impede de viver. De morte. Uma ligeira sensação de sufocamento. Cadê o ar, senão eu sufoco. A completa desconexão com seus filhos decorrente das 12 horas diárias de trabalho há décadas. A aposentadoria vazia, cercada de coisas inúteis e pouco afeto. Você é um vencedor, seu único consolo. Sua vida de executivo, executada. Vista a camisa. De madeira. Pela derradeira vez.

Facundo Guerra, argentino naturalizado paulistano, é empresário da noite e pai da Pina 24 horas por dia