A louca noite em que Kurt Cobain atacou de DJ em São Paulo

A passagem do líder do Nirvana e colegas de grunge para o festival Hollywood Rock de 1993 tem histórias de bastidores que beiram o surrealismo

Kurt chegou a Guarulhos esparramado sobre a própria bagagem

Kurt chegou a Guarulhos esparramado sobre a própria bagagem (Márcia Zoet/Agência Estado)

Astros que não queriam ser astros, imprensa carrapato, fãs atirados… A passagem do líder do Nirvana e colegas de grunge por São Paulo para o festival Hollywood Rock de 1993 tem histórias de bastidores que beiram o surrealismo. E nós contamos aqui

Kurt Cobain apareceu na porta de desembarque do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), aboletado sobre as malas em um carrinho de bagagem. Calças jeans surradas, uma camiseta coberta por uma camisa xadrez clara e All Star pretos – era o tradicional visual com o qual os fãs já haviam se acostumado a vê-lo em fotos e videoclipes.

ilotando o carrinho com um grande sorriso no rosto, vinha Courtney Love, mulher de Kurt e vocalista do grupo Hole (nessa ordem). Era a manhã de sexta-feira, 15 de janeiro de 1993.

Na noite do sábado, o Nirvana subiria ao palco para cometer um show memorável – não exatamente pela qualidade. Tão memorável quanto sua única passagem pelo Brasil. Tão memorável quanto aquele Hollywood Rock, o mais esporrento de todos os tempos.

O Hollywood Rock foi um festival que veio na esteira do Rock in Rio de 1985. O evento musical carioca havia açulado o gosto dos fãs de rock e pop, criando um ambiente propício para o patrocínio da marca de cigarros.

Foi assim que, entre 1988 e 1996, o HR se tornou o principal festival de música do Brasil. De Barão Vermelho a Raimundos, de UB 40 a White Zombie, pelo HR passaram dezenas de artistas nacionais e internacionais.

A edição de 1993 aconteceu em dois fins de semana de janeiro: 15, 16 e 17 no estádio do Morumbi, em São Paulo; 22, 23 e 24, na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro.

Dois meses antes, o anúncio do line-up, com Nirvana, L7, Alice in Chains e Red Hot Chili Peppers entre as atrações principais, havia causado comoção geral (por “geral”, entenda-se jornalistas e fãs de rock). Eram as bandas do momento – e bandas do momento não eram algo normal nos festivais brasileiros.

Cartaz com o line-up do Hollywood Rock de 1993

Cartaz com o line-up do Hollywood Rock de 1993 (reprodução/internet)

Antes que alguém comece a estrilar, expliquemos: até aquele ano, tivemos festivais com artistas famosos e até mesmo lendários – Bob Dylan esteve no Hollywood Rock de 1990, por exemplo. Nenhum deles, entretanto, se encaixava na condição do Nirvana, que vivia seu auge.

Em 1991, o grupo havia lançado o segundo álbum, Nevermind, cujo efeito na música pop fora semelhante ao de uma bomba de nêutrons. Nevermind colocou o grunge no cenário mundial e inaugurou “a década do barulho”.

Durante 1992, o Nirvana tocou incessantemente em rádios e MTVs, vendeu milhões de discos e fez shows sold out pelo planeta. Foi com esse status que a banda de Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl desembarcou por aqui.

E que desembarque, amigo! Logo depois de Kurt ter passado com uma expressão entre perturbada e apavorada pelo batalhão de fãs que gritavam ensandecidos, surgiu Novoselic no alto de seu 1,90 m.

Empurrando um carrinho de bagagens, o baixista olhou para a turba que se espremia atrás do cordão de isolamento e esticou o braço direito em uma saudação nazista.

Lembremos que, pouco antes de vir ao Brasil, ele havia concedido uma entrevista à revista VEJA na qual chamava os fãs do Nirvana de “idiotas”. Começava bem a passagem do grupo por aqui.

Kurt Cobain no shor do Nirvana no Morumbi em 16 de janeiro de 1993: estado tão alterado que assustou até os colegas de banda

Kurt Cobain no show do Nirvana no Morumbi em 16 de janeiro de 1993: estado tão alterado que assustou até os colegas de banda (Marco de Bari/arquivo Abril)

Não só a passagem do Nirvana, diga-se. Aquele “Hollywood Rock grunge” foi marcado pela estranha reação química gerada pelo cruzamento entre uma imprensa sedenta de fofocas e um grupo de roqueiros alternativos que odiavam os holofotes como o diabo odeia a cruz e o Cunha odeia a PF.

Pense no encontro entre ácido e base, só para ficar na analogia com a química.

Uma pequena contextualização sobre a imprensa “cultural” daquela época. Em 1990, o jornalista Eduardo Bueno, do jornal O Estado de S. Paulo, havia dado um furo de reportagem ao flagrar Bob Dylan nos inferninhos do centro de São Paulo e acompanhá-lo em passeios pela região.

Aquilo mexeu com os brios dos editores de cultura de revistas e jornais. Nos anos que se seguiram, virou ponto de honra descobrir o que os artistas do rock e pop em passagem pelo Brasil faziam quando não estavam no palco – o que (e quem) comiam, onde bebiam, quanto gastavam, que marca de papel higiênico usavam.

Naquele tempo não havia essa vertente da imprensa conhecida como “jornalismo de celebridades”; logo, os responsáveis por essa ampla e invasiva cobertura eram os jornalistas de cultura mais renomados e respeitados de cada veículo.

A cada festival de música ou turnê de estrelas pop, os saguões dos hotéis eram invadidos por uma turba de jornalistas e fotógrafos. Eles se revezavam em plantões de 24 horas, espocando flashes na cara de músicos, roadies e empresários, bisbilhotando o que havia no prato de cada astro e tentando entreouvir as conversas nas mesas.

Era um comportamento agressivo e inoportuno, que irritava a maioria absoluta dos artistas. Houve casos de veículos de imprensa alugando apartamentos em prédios de frente ao quarto das estrelas ou reservando para seus repórteres suítes (caríssimas) no mesmo andar em que os astros estavam.

Isso havia acontecido um mês antes da chegada das bandas do Hollywood Rock ao mesmo hotel – o Maksoud era o local de hospedagem preferido das gravadoras e promotoras de eventos da época.

Então, o clima geral era esse quando as bandas desceram do ônibus diante do hotel: do lado de fora, um grupo de fãs histéricos como eles nunca haviam visto até então; dentro, uma horda de jornalistas desesperados por algo exclusivo e inusitado.

Era um pesadelo. Lembre-se de que não estamos falando de superstars acostumados aos holofotes, mas de gente que, até outro dia, saía do palco num inferninho e ia beber com os espectadores.

Flea, baixista do Red Hot, encara o tumulto na chegada ao Maksoud Plaza

Flea, baixista do Red Hot, encara o tumulto na chegada ao Maksoud Plaza (Helcio Toth/Folhapress)

Desde o momento em que a primeira banda desceu do ônibus, a coisa ganhou ares de surrealismo. Anthony Kieds, o vocalista do Red Hot Chili Peppers, precisou de pouquíssimos minutos para se atracar com uma groupie brasileira que ganhou status de namoradinha pelo resto da estadia – o nome dela era Karine Rueda, na época tratada como uma espécie de Cinderela grunge.

Uma fã afoita arrancou a medalha do pescoço do guitarrista do Alice in Chains, Jerry Cantrell, e esse foi à loucura. A medalha, uma identificação de soldado do Vietnã, era herdada do pai.

Cantrell chegou a oferecer 500 dólares (ou 7,3 milhões de cruzeiros, em nossa moeda da época) pela devolução. Não foi preciso desembolsar o dindin – uma prima da fã/tungadora devolveu a corrente para Cantrell e negou-se a receber o prêmio (ganhou, no entanto, um par de ingressos).

Cercados por fãs e jornalistas por todos os lados, os roqueiros passavam o tempo bebendo no restaurante do hotel. Enquanto isso, Courtney Love perambulava descalça pelo hall, sentava-se à beira da fonte interna, tascava beijos em Anthony Kiedis e em Jennifer Finch, da banda L7, e secava litros de vodca Absolut.

É bem verdade que a produção até tentou animar a galera com uma festa no clube mauricinho Limelight, cheia de garotas de programa.

Mas houve escapadas dos holofotes, claro. Enquanto fãs e grande imprensa concentravam atenções no Maksoud, alguns artistas marotamente se evadiam pelas portas laterais.

Encontrei Jerry Cantrell no New York, um bar dos Jardins (bairro chic da Zona Oeste de São Paulo) frequentado por aspirantes a músicos e pela turma do rock independente. Quem o ciceroneava era uma garota, frequentadora do bar, que o conhecera no lobby do hotel. Cantrell parecia maravilhado com o fato de ninguém encher seu saco.

Isso foi na madrugada de sábado, logo depois do show do Nirvana. Em 1993, os points alternativos eram raros e esparsos na cidade. A rua Augusta sequer imaginava um dia se tornar meca dos paulistanos hipsters.

Mas era na Augusta que estava um dos lugares mais underground da cidade: o Der Tempel. Se você era fã do rock alternativo e não estava no New York, era quase certo que estivesse no Der Tempel. E foi pra lá que João Gordo, vocalista do grupo punk Ratos de Porão, levou Cobain e turma após o show.

Sobre o show, um bom resumo do que foi aquela maluquice está na autobiografia Dave Grohl: Nada a Perder (Ed. Ideal). Relembra Dave:

“Havia uma loja no Maksoud Plaza, e na farmácia eles vendiam calmantes. Quando chegou a hora de ir pro estádio tocar, eu tive que procurar por Kurt, e o encontrei lá, tomando um calmante atrás do outro. Eu fiquei horrorizado. Quando entramos no palco a atmosfera era diferente de tudo que já vi: 120 mil pessoas!”

“A primeira música que tocamos foi School. Kurt começou cantando com uma voz absurda e tocando a guitarra muito lentamente. Eu olhei pro Krist, e ele veio e me disse perto dos ouvidos: `Rápido. Rápido, pelo amor de Deus!”.

No fim do show caótico, Krist Novoselic teve de convencer Cobain a deixar o palco

No fim do show caótico, Krist Novoselic teve de convencer Cobain a deixar o palco (Paulo Giandália/Folhapress)

João Gordo havia conhecido Dave Grohl em um festival na Holanda. Acabou virando uma espécie de cicerone informal do Nirvana em solo paulista. Foi João, inclusive, que leu um pedido de desculpas de Novoselic (aquela história dos fãs “idiotas”, lembra?) antes do show no Morumbi.

A trupe que seguiu para o Der Tempel era formada por Kurt, Courtney, Flea (baixista do Red Hot Chili Peppers), Caroline (baterista do Hole), João Gordo e sua então namorada Alê, baixista do Pin Ups.

Pouco depois que o grupo aterrissou na casa, o proprietário Gigio Wornicow Borges resolveu baixar as portas. Queria evitar o tumulto de fãs e imprensa.

Isso foi uma espécie de alívio para Kurt, que, em um raro momento de relaxamento, dançou, conversou com frequentadores e até arriscou uma discotecagem em um set list composto por músicas dos alternativíssimos Beat Happening e Action Swingers, além de Nirvana e Hole.

A balada acabou depois das 6 da manhã, com a turma dando um passeio de carro pela Boca do Lixo (bairro central de São Paulo, conhecido reduto de prostituição). Conta-se que Courney simpatizou com um travesti e lhe deu 300 dólares, enquanto dizia para a comitiva: “Isso não é nada pra quem ganhou 150 mil dólares hoje”.

E foi assim que a maior banda de rock da última década do século 20 passou por São Paulo: alucinada, mal-humorada, perseguida por fãs e imprensa. 

Kurt Cobain ainda deixaria um bilhete para Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, de quem se tornara fã. “Arnaldo, os melhores votos para você e cuidado com o sistema. Eles engolem você e cospem fora como o caroço de uma cereja marrasquino”, aconselhou o depressivo vocalista.

Para encerrar, um comentário que circulava entre a maledicente imprensa do saguão: Krist Novoselic teria sido visto na lojinha do Maksoud avaliando a compra de um souvenir – uma garrafa de cachaça em cujo rótulo estava estampado: “Cura Veado”. Se comprou ou não, é uma incógnita.