O Oscar 2012 foi o “Oscar da tia velha”. Nenhum dos nove indicados a melhor filme provocou um mísero do impacto causado, por exemplo, pela seleção de 2008, quando no páreo estavam os geniais Onde os Fracos não Têm Vez e Sangue Negro. A seleção de 2012 foi correta e anêmica, qualidades que só agradam de verdade à sua tia. A vitória de O Artista resume bem as escolhas: um bom filme, que daqui a três anos continuará sendo só isso, um bom filme. Se a Academia decidiu entregar pela primeira vez a um filme francês seu prêmio máximo, resolvemos escolher 15 títulos do país que mereceram essa honra com muito mais respaldo.

Filmes para manutenção de caráter

1. O Salário do Medo
(Le Salaire de la Peur, Henri-Georges Clouzot, 1953)
Para tentar ganhar uma grana fácil e sair da porcaria de vila onde vive, um grupo de homens aceita o trabalho que paga melhor por um curto tempo de serviço: transportar dois caminhões lotados de nitroglicerina por um rascunho malfeito de estrada, sem nenhum tipo de segurança. O filme acompanha como os escolhidos fazem a travessia do material, no par de horas mais tenso do cinema francês.

2. O Ódio
(La Haine, Mathieu Kassovitz, 1995)
Durante protestos de moradores dos subúrbios de Paris, Abdel é preso e violentamente espancado pela polícia.  O filme se passa ao longo de 24 horas, acompanhando seus três amigos, um judeu, um negro e um árabe, que prometem matar o policial que agrediu o jovem, caso ele morra. É o melhor cruzamento de Spike Lee e Martin Scorsese daquele lado do Atlântico.

3. A Regra do Jogo
(La Règle du Jeu, Jean Renoir, 1939)
Geralmente, é esse o filme que disputa o posto de melhor de todos os tempos com Cidadão Kane em listas mais flexíveis. E o peso do clássico às vezes dá uma ideia errada do quão acessível e imensamente divertido é o filme de Renoir. Mostrando um grupo de amigos ricos e seus empregados ao longo de um fim de semana em uma casa de campo, as piadas abundam e sentimentos genuínos aparecem quando ninguém se contenta com o parceiro ou parceira que tem.

Filmes noir de respeito

4. Ascensor para o Cadafalso
(Ascenseur Pour L’échafaud, Louis Malle, 1958)
Florence convence Julien, seu amante, a matar o marido dela. Julien dá cabo do plano, fazendo parecer o mais crível dos suicídios. Mas, ao sair do local do crime, esquece a corda que o ajudou a entrar na sala da sua vítima. Por causa desse mísero erro, até o figurante mais distante vai sofrer alguma consequência. Seria a melhor comédia de erros, se houvessem piadas no lugar do banho de sangue que segue. A trilha do filme foi toda composta por Miles Davis, que faz uma breve ponta.

5. Rififi
(Du Rififi Chez les Hommes, Jules Dassin, 1955)
Depois de passar cinco anos na cadeia, Tony planeja um último roubo, para conseguir o pé de meia definitivo e livrar a sua ex-namorada das mãos de um calhorda. Ele e seu melhor amigo juntam mais uns especialistas e executam o plano à perfeição. Obviamente, algo dá errado depois. De Kubrick a Tarantino, todo grande cineasta já tirou uma lasquinha de Rififi. A sequência de roubo segue invicta como a melhor do gênero.

Suspense com biquinho

6. As Diabólicas
(Les Diaboliques, Henri-Georges Clouzot, 1955)
Um homem violento trata mal tanto sua mulher quanto sua amante. As duas decidem se unir por vingança e assassinam o troglodita. Mas o corpo desaparece e os eventos mais escabrosos começam  a acontecer com as duas. É um dos suspenses mais bem calculados do cinema, até a  cena mais banal é carregada de uma aura assustadora. A sequência final é de congelar o mais bravo dos espíritos.
7. Eles
(Ils, David Moreau e Xavier Palud, 2006)
Casal mora longe da cidade e, numa noite, escuta barulhos estranhos. O telefone e as outras conexões com o mundo exterior falham e, de repente, os dois estão à mercê de uma gangue que brinca com suas vítimas das maneiras mais sádicas. Uma produção econômica conseguiu deixar tudo mais realista.

8. Não Conte a Ninguém
(Ne Le Dis à Personne, Guillaume Canet, 2006)
A propaganda do longa é a melhor sinopse do filme: “Oito anos atrás, a mulher de Alex foi assassinada. Hoje, ela lhe enviou um e-mail”. Enquanto Alex tenta descobrir se ainda é viúvo, o filme segue numa tensão tão asfixiante que só esmurrando o sofá para se acalmar. Ah, horas depois de assistir, você vai se tocar de que não é um suspense, é um romance.

9. As Presas
(La Traque, Antoine Blossier, 2011)
Se faz tempo que Hollywood não produz nem um filme de monstro decente, até nisso os franceses estão sabendo se virar melhor. Basta dizer que os vilões de As Presas são javalis ensandecidos. Rivaliza com qualquer filme campeão na quantidade de sangue e sustos.

Safadeza cult

10. À Beira da Piscina
(Swimming Pool, François Ozon, 2003)
Uma escritora se refugia na casa de campo de seu editor para tentar furar um bloqueio criativo. Só que a fogosa filha do dono da casa chega ao local e interfere no trabalho da escritora com muito barulho e sexo. Ludivine Sagnier, uma das atrizes francesas mais gatas em atividade, passa quase todo o filme pelada.

11. Desejo e Obsessão
(Trouble Every Day, Claire Denis, 2001)
Um casal americano passa a lua de mel em Paris. A viagem também é uma desculpa para que o marido encontre um cientista que, talvez, tenha a cura para a sua doença: desejo sexual seguido de uma incontrolável vontade de consumir, literalmente, suas parceiras. Ao misturar sexo e canibalismo, a diretora
Claire Denis construiu um romance sangrento e angustiantemente original.

12. A Bela da Tarde
(Belle de Jour, Luis Buñuel, 1967)
A personagem de Catherine Deneuve em A Bela da Tarde ama tanto seu marido que não consegue fazer sexo com ele. Mas não  vê problema em passar as tardes como uma prostituta, dando para estranhos o que nega para o homem que ama diariamente.

13. Lua de Fel
(Lunes de Fiel, Roman Polanski, 1992)
Um casal de franceses conta a história da turbulenta relação que tiveram a um casal de ingleses, durante uma viagem a bordo de um navio. Por meio de flashbacks, Oscar conta como desprezou o amor que Mimi sentia por ele se aproveitando da sua submissão para explorar uma série de sadismos. Emmanuelle Seigner, que faz Mimi, é uma enciclopédia ambulante das nossas fantasias mais clichês.

Um baita diretor

14. A Noite Americana
(La Nuit Américaine, François Truffaut, 1973)
Sendo o cinema uma invenção francesa, é justo que essa lista cite ao menos um filme que fale sobre a graça de fazer filmes. A Noite Americana mostra o trabalho que dá controlar a criação e produção de uma película. O filme é uma boa arma para provar àquela moça cult que você tem bom humor e ainda entende de cinema.

15. O Homem que Amava as Mulheres
(L’homme Qui Aimait Les Femmes, Françoies Truffaut, 1977)
Aqui Truffaut fala de seu amor pela literatura e pelas mulheres. O filme começa com o enterro de seu protagonista, Bertrand, acompanhado
de dezenas de mulheres. Por flashbacks, Bertrand nos mostra trechos do livro que decidiu escrever sobre todos os seus casos, desde a primeira vez num bordel até pouco antes da morte. Mulherengo, mas não cafajeste, Bertrand lamentava que não conseguia encontrar numa só mulher todas as qualidades que apreciava. E seguiu procurando até o último dia.