Conversa com Russo Passapusso, do BaianaSystem, atração do Lolla

Reggae, axé, ragga, hip-hop, arrocha e tudo mais que servir: o caldeirão musical do BaianaSystem é vasto e está prestes a desembarcar no Lollapalooza

A guitarra baiana — ou pau elétrico — foi um instrumento criado em 1940 pela dupla Dodô e Osmar, que resolveu colocar captadores em cavaquinhos. Desde então, o instrumento marcou para sempre a sonoridade da música baiana sendo o responsável pela criação do trio elétrico. Foi com isso na cabeça e o amor à música jamaicana que nasceu o BaianaSystem, grupo musical brasileiro que busca ressignificar a música urbana baiana misturando elementos brasileiros com influência de sons jamaicanos, africanos e tudo mais que agradar a banda na busca pelo novo.

Uma das principais atrações brasileiras no Lollapalooza 2017, o Baiana tem em Russo Passapusso a mente por trás do “system” em seu nome — herdado dos Soundsystem jamaicanos, influência da grupo. Às vésperas do festival, o cantor e compositor falou um pouco das origens da banda e de como pensa um show em festivais, que segundo ele são totalmente diferentes de apresentações avulsas.

Crédito: Facebook/Reprodução

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Baiano com jamaicano

Começamos tudo com o samba reggae na Bahia. A questão é que naquela época o pessoal só ouvia um som roots — Bob Marley, Peter Tosh. Nós viemos desse cenário, mas também gostávamos muito de outras vertentes do gênero, como o ragga e o dub. Começamos então a fazer nosso som baseado nisso, e misturando com outras influências que tínhamos, como a psicodelia e as batidas africanas.

O engraçado é que logo no começo o pessoal começou a fazer um paralelo do nosso som com ritmos tradicionais da Bahia. Então quem não conhecia o Ragga, por exemplo, costumava escutar aquilo e pensar que era o repente. Foi um processo encontrar nossa sonoridade, mas sempre buscamos isso, quebrar os caminhos óbvios.

O rádio ainda funciona?

Eu gosto de rádio. O próprio Soundsystem é um rádio que as pessoas se juntavam para escutar na Jamaica. Acredito no seu poder de disseminar música, eu mesmo participei de diversas rádios comunitárias antes e durante o Baiana.

Minha crítica é o sistema de jabá que tomou conta das emissoras atualmente. Não tenho nada contra as músicas tocadas, que contam com grandes músicos, mas o rádio deixou de ter essência. Quando tocava nas rádios, colocava Fela Kuti (músico nigeriano pioneiro do afrobeat), uma música quase toda instrumental de quase 15 minutos. Fazia isso e colocava o ouvinte no contexto da música, fazia ele entender o que estava ouvindo. A música tem valor, e seu lado comercial ofuscou isso. A rádio hoje perdeu o contato com o público.

Crédito: Facebook/Reprodução

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Como se destacar na era do streaming?

Música é um trabalho a longo prazo, é preciso respeitar o tempo e mais importante, respeitar seu som, seu perfil. Não se pode mudar no processo a longo prazo.

Uma coisa que percebo é que hoje, mais do que nunca, o músico faz tudo — grava, edita, imprime e distribui flyers e propaganda, fecha acordos – e claro que com todo esse trabalho, ele quer ver o resultado rapidamente. Você precisa confiar no seu trabalho para que seu público confie no seu trabalho. É uma relação mútua importante.

Existe diferença em tocar em um festival e em um show solo?

Tocar em festival é totalmente diferente do que tocar em um show. É preciso respeitar o público e entender que você faz parte de um todo. Tentamos montar nossa setlist em festivais de acordo com as outras bandas do dia. Não adianta a gente tocar um som meio afrobeat depois de um show de rock, não vai rolar.

Uma coisa que podemos adiantar é que nosso som vai trazer imagens sonoras do carnaval — literalmente, porque nossas apresentações usam muito do audiovisual — afinal, vamos ter acabado de sair dessa que é a época do ano mais intensa do ano para a gente. Nós incorporamos o carnaval na música, pegamos seu clima, fica diferente. Adianto também que teremos músicas novas no Lolla. O processo de tocar no carnaval é insano, tocamos até sete horas seguidas, e nessa maratona temos muito tempo para experimentar e criar coisas novas, então dá pra dizer que teremos novidades.

Como você escolhe o que vai tocar em cada apresentação?

Olha, antes a gente tinha esse negócio de tentar tocar algumas músicas específica para determinado público, mas ultimamente andamos pagando nossa língua. Certa vez fomos tocar em um campeonato de surf, e que pensamos uma setlist com muito reggae por conta do público. Eles estavam gostando, mas não da maneira que imaginávamos. De repente colocamos um som com muitas batidas africanas, e o público reagiu muito bem, curtindo muito o som. Esse foi só um caso de um processo que passamos para deixar de esteriotipar o público.

O mais importante para o artista é sentir a vibração da plateia durante o show e entender o que eles estão curtindo. É preciso ter uma conexão com o público.