Kamasi Washington: pulmão do “jazz-hop”

O saxofonista Kamasi Washington é prova de que o jazz pode ser vivo e pulsante hoje, e não objeto de culto ao passado

No filme La La Land, o protagonista Sebastian é um músico frustrado em busca do que chama de “jazz de verdade” – um som “puro” que reflete os grandes momentos do gênero na primeira metade do século 20. Esse suposto purismo não existe na vida real. Os mestres antigos eram como esponjas, absorvendo referências e levando-as para o jazz, que se renovava. Isso prosseguiu nas décadas mais recentes. Se nos anos 70 e 80 o fusion absorvia o rock, hoje há uma mistura ainda mais pulsante com o estilo que domina a cultura pop atual: o hip-hop. E um especialista nessa receita jazz-hop é o saxofonista Kamasi Washington, que acaba de passar pelo Brasil.

Californiano de 36 anos, Kamasi já colaborou com os rappers Snoop Dogg e Kendrick Lamar e o pianista de jazz Herbie Hancock. The Epic, seu primeiro álbum de estúdio, saiu em 2015 e foi banhado em elogios. O próximo lançamento será o EP Harmony of Difference, que já teve uma prévia em formato multimídia na Bienal de Whitney em Nova York, em março. O músico conversou com a VIP durante sua passagem por São Paulo.

Você esteve aqui com Stanley Clarke em 2013 e 2014, sentiu alguma mudança daquela época para 2017?
Agora visitei outros lugares, como a Pedra do Sal [monumento histórico e religioso localizado no bairro da Saúde, perto do Largo da Prainha, no Rio de Janeiro] e conheci João Donato, Ed Motta e sua coleção incrível de discos. Nesse sentido foi diferente.

Você é um músico que trabalhou tanto com lendas do jazz como novos nomes da cena do rap e do jazz. Quais são as diferenças?
Gerações diferentes tem um approach diferente em relação à música. Quando você trabalha com alguém como Stanley Clarke, ele vem de uma escola. Ele escreve toda a música, pensa mais na estrutura. E quando eu toco com Snoop Dog ou gente dessa geração, eles tem um approach mais solto em relação à música. Para eles nada é definitivo.

Você sente que os músicos mais novos estão mais preparados para trabalhar com outro gêneros musicais?
Acho que um pouco dos dois. As pessoas que trabalham com Stanley Clarke ou Herbie Hancock trabalham com todo tipo de artista. Grande parte do grandes músicos, não importam o quão velho sejam, são curiosos. Essa é uma característica de grandes instrumentistas, ser curioso. E isso faz com que você seja aberto para trabalhar com pessoas diferentes.

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O quarteto do Canadá vem cada vez ganhando o mainstream. Atualmente em seu quarto disco, a banda traz grande bagagem de teoria musical clássica, mas misturando isso com todo tipo de influência, principalmente do hip-hop e da música eletrônica. A base da banda é o baixista Chester Hensen e o baterista Alexander Sowinski, que mantém fortes graves e criando beats que funcionam em loop, como samples de rap, sem nunca deixar de lado a improvisação. O grupo vai fazer show em São Paulo em maio pelo segundo ano consecutivo.

Acredita que a internet e o fácil acesso a informação ajuda as pessoas a se envolverem mais com a música?
Fica mais fácil para as pessoas descobrirem música. Antes era preciso dinheiro e tempo. Agora tudo o que você precisa é o desejo. Se você quer encontrar algo, é fácil. Essa realidade é boa e ruim. Fica mais difícil para músicos fazerem dinheiro, mas é melhor porque faz a música atingir mais pessoas

No mundo do streaming, como músicos se fazem notados?
Você precisa fazer música que as pessoas amem. Na verdade não é nem isso. Você precisa fazer um som que seja verdadeiro para você. Eu acho que como músico você não pode se importar tanto com quem vai gostar da sua música, você não pode controlar isso. Tudo o que você pode fazer é produzir o melhor som que você puder e torcer para sobreviver disso. Existem grandes músicos que fizeram grande músicas que só foram reconhecidos depois de falecer. Então não sei se existe uma maneira de se fazer notado. Você pode fazer coisas como mídias sociais, mas no final do dia a melhor maneira de fazer as pessoas amarem sua música é fazer uma música que você ame.

Você acredita no conceito de gêneros ou isso já foi ultrapassado?
Eu acho importante. Eu entendo porque isso existe. Você precisa ter uma organização quando precisa encontrar algo. Tem um função prática. Mas eu não acho tão importante quanto as pessoas acham. Os gêneros não podem controlar a música, deveria ser ao contrário. O problema é que hoje o conceito de gênero está controlando a música. A noção do que uma música deveria ser está forçando músicos a mudarem a maneira como eles trabalham. Deveria ser o oposto. Os músicos devem fazer seu som para então mudar os parâmetros do gênero. Gêneros são só nomes. Eu não vou decidir o que gosto baseado no nome que aquilo tem. Isso deveria ser algo muito menor.

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O pianista nascido em Houston no Texas fez sua carreira em Nova York, onde conheceu e se envolveu com a cena hip-hop local. Fez participações para artistas como Kanye West, will.i.am e Snoop Dog sem nunca deixar de lado seu trabalho autoral, muito calcado no jazz clássico fundido com versos de rap. Seu mais recente trabalho foi em “parceria” com Miles Davis: o pianista serviu de consultor do filme biografia Miles Ahead, o que resultou no álbum Everything’s Beautiful onde reinterpreta a faz remix de faixas clássicas do lendário trompetista, citado como co-autor da obra.

Porque o jazz tem uma conexão tão grande com o hip hop e o rap?
São músicas similares. O jazz nasceu quando transformamos os standards e os musicais. Com o hip-hop aconteceu a mesma coisa com os samples.
Seu nascimento se deu quando Reagan tirou o ensino de instrumentos do sistema escolar americano e as pessoas começaram a usar seus toca-discos como instrumentos. O jazz nasceu quando músicos negros foram proibidos de tocar em orquestras, criando assim as big bands. Então eles têm trajetórias e energia similar. Os dois são muito expressivos, lidam muito com improvisação e são músicas muito inclusivas. E o alicerce do hip-hop veio do jazz. Os primeiros samples do gênero vieram do jazz com bandas como A Tribe Called Quest, Wu Tang Clan e mesmo com Dr. Dre.

Como foi trabalhar com Kendrick Lamar? Qual foi sua participação no álbum?
O Kendrick é um gênio musical. Eu sou fã dele há muito tempo, antes dele ser famoso. Em 2007, Terrace Martin [produtor musical que já trabalhou com Kendrick, Snoop Dog e Stevie Wonder] já nos falava desse raper com quem estava trabalhando que era como um “John Coltrane do hip-hop”. E era incrível porque tudo que escutamos dele eram mixtapes, e Quando o Section 80 [primeiro álbum de Kendrick] saiu, eu fiquei muito feliz de ver o trabalho dele. Então quando me chamaram para trabalhar em To Pimp a Butterfly eu fiquei muito animado mesmo não sabendo o que eles queriam que eu fizesse! Inicialmente eu ia fazer só a música “Mortal Man” que é uma entrevista do Kendrick com Tupac e eles queriam que eu fizesse a trilha, como se fosse um filme. Mas depois acabei compondo para outras faixas do álbum. Foi uma grande experiência, muito aberta, convidativa. Ele realmente te permite se jogar na música.

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Kendrick Lamar, Kamasi Washington, Erykah Badu e Suicidal Tendencies foram alguns dos nomes com quem o baixista trabalhou. Entre os artistas mais proeminentes de sua geração, Thundercat tem grande carreira como músico solo e convidado. Em seus trabalhos autorais, explora um lado mais pop, abusando de elementos eletrônicos como samples e pedais nos instrumentos.

Como a música pode ser usada para contar uma história, passar uma mensagem?
A música abre sua mente. Por isso ela é tão importante em um filme. Ela se comunica com você em um nível subconsciente. Você pode contar uma história e uma pessoa não entender. Mas quando você coloca uma música para tocar, você sente ela, é inevitável.

Seu trabalho mais recente, é uma peça multimídia apresentada originalmente na Bienal de Whitney, o EP “Harmony of Difference”. Acredita que a tendência do seu trabalho é se tornar multiplataforma?
Sim, estou sempre pensando em fazer coisas diferentes, expandir meu horizonte. O meu novo EP foi muito legal e emocionante de ser feito. Me forçou a sair da zona de conforto e fazer algo que nunca tinha feito.

No EP, você fala da situação política atual dos Estados Unidos. O que espera do governo Trump?  
Eu não sei o que esperar, mas espero que as coisas mudem. Ele criou uma divisão muito grande no país.

Não sei se você sabe, mas ele acabou de bombardear a Síria.
Meu Deus, muito triste. Não sabia disso… [longa pausa]. Eu realmente espero… eu não sei… é de quebrar o coração, matar pessoas por poder e dinheiro, é doentio.

E o que Trump significa para a consciência coletiva do país?
Duas coisas: eles está expondo o lado negro e ruim de muitas pessoas e despertando muita gente que antes não tinha voz. Você não pode mais ficar calado e fingir que nada está acontecendo. O país está dividido, mas são problemas que já existiam antes de Trump entrar na Casa Branca, ele é só a ponta do iceberg. O problema real são as 50 milhões de pessoas que votaram nele. Este é o verdadeiro problema. Sempre vão haver pessoas malucas, lunáticas ou racistas, mas você sempre assume que eles são a minoria. Mas quando você vê esse número, é de quebrar o coração. Você começa a pensar que pessoas próximas de você votaram nele e começa a ficar paranóico.

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