Moses, sofrendo, sofria em grande estilo.” É o que diz o escritor americano Saul Bellow do seu personagem mais conhecido, do livro homônimo Herzog (Cia. das Letras, 400 páginas, preço a definir). Moses E. Herzog sofre porque sua mulher o traiu com seu melhor amigo, um perneta que tentou emulá-lo a ponto de conseguir não só se parecer com ele, mas tomar a sua vida.

Herzog decide se agarrar às boas lembranças de amantes antigas e procurar conforto em outras mulheres, enquanto dá pitaco na vida de quase todo mundo à sua volta, do seu psicólogo ao presidente, de um vendedor de roupas a suas ex-mulheres, por meio de cartas que nunca serão entregues.

Nessas cartas, Bellow faz de Herzog uma pessoa indignada, mas uma com um senso de humor e observações tão afiados que merecem o apoio de qualquer homem sensato. Bellow também aproveita os momentos de alívio de Herzog para falar da beleza de mulheres que só agradaram ao protagonista porque deram o melhor de si na cama e o trataram como alguém realmente frágil, que merece atenção quase materna.

Mas Herzog não dá muito em troca a essas mulheres, compromisso não é o seu forte. Enquanto se esquiva delas, ele vai da melancolia extrema à ironia esperta, tentando retomar contato com a família, com os filhos, com velhos amigos, procurando estancar o sofrimento provocado por suas falhas constantes. O livro, lançado originalmente em 1964, é uma das reedições mais necessárias do ano.

Quando sexo é a solução

Além de Herzog, outros grandes personagens da literatura procuraram no sexo o alívio mais adequado para maiores problemas:

O Complexo de Portnoy – Philip Roth (Cia. das Letras, 264 páginas, R$ 49,50) Alexander Portnoy conversa com seu psiquiatra, ao longo de todo o livro, sobre a sua incapacidade de sentir mais prazer no sexo e como tenta superar o problema: fazendo mais sexo, de maneiras cada vez mais criativas. É o livro mais engraçado de Roth e um dos mais detalhistas sobre o tema.

Trópico de Câncer – Henry Miller (José Olympio, 294 páginas, R$ 40). Narrando suas experiências na França do final dos anos 1920, Miller procura inspiração entre as pernas de muitas mulheres. Um juiz que tentou banir a edição do livro nos EUA classificou a obra de “um poço de putrefação”. Trópico de Câncer é um dos 100 melhores livros do século 20, segundo a revista Time.

PAPO DE HOMEM
Os filmes do diretor americano Martin Scorsese podem ser vistos como lições de vida a serem seguidas. É só você focar mais na parte da lealdade, confiança e companheirismo dos seus personagens do que nas drogas, no esquartejamento e na traição desastrada. Em Conversas com Scorsese (Cosac Naify, 528 páginas, R$ 89), ele conta como os seus filmes procuram explorar justamente o lado mais nobre do ser humano, por meio de situações extremas (as quais ele mesmo já viu de perto). O entrevistador, Richard Schickel, é um amigo próximo. Eles discutem a filmografia do diretor detalhadamente,até o mais recente Ilha do Medo, o que ajuda a descobrir obras menos conhecidas e tão boas quanto os seus maiores clássicos, como Depois de Horas e Caminhos Perigosos (que valem tanto quanto Taxi Driver ou Touro Indomável).

Ouça enquanto lê: dê play nos três melhores discos dos Stones, banda que Scorsese idolatra – Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St.

TRANCADOS EM CASA
Em 1947, em uma casa de quatro andares na Fifth Avenue, em NY, os irmãos Homer e Langley Collyer foram encontrados mortos, em meio a mais de 130 toneladas de tralhas. Eles eram reclusos excêntricos que decidiram não pagar mais nenhuma conta e se isolar do mundo colecionando todo tipo de objeto. O escritor americano E.L. Doctorow resolveu ficcionalizar a vida dos dois em Homer & Langley (Record, 240 páginas, R$ 39,90), e o resultado é um livro mais otimista do que a tragédia sugere. Mesmo depois de optar pelo isolamento, o mundo teimava em visitar a mansão dos irmãos. Para Doctorow, eles souberam se divertir bastante antes de serem inteiramente dominados pela loucura. Curtiram o jazz, a revolução sexual e cultural, além de muitas mulheres que não se importavam com a cegueira de um (Homer) ou com as loucuras do outro (Langley). Só queriam agradar a dois homens que, apesar (ou por causa) das excentricidades, sabiam dar a atenção que elas mereciam.