Movimento Black Rio: o The Get Down brasileiro

Enquanto o hip-hop nascia em Nova York nos anos 70, tema da série da Netflix, o movimento Black Rio celebrava a música negra no Brasil

A segunda temporada da série The Get Down chegou à Netflix em 7 de abril. Diferentemente da temporada inicial do ano passado, o foco agora é o embate entre o hip-hop – que ainda nem tinha esse nome – e a disco music. O ano era 1977 e Os Embalos de Sábado à Noite estreava nos cinemas com um Tony Manero (John Travolta) esmerilhando nas pistas disco ao som de Bee Gees e Donna Summer. Tony era do Brooklyn e seu visual e a música que dançava rivalizavam com os caras do Bronx, que penavam com a falta de dinheiro, segurança e até moradia, mas compensavam isso com o conhecimento de funk e soul e muita técnica – eles são os protagonistas de The Get Down. Já no Brasil, naquele mesmo ano, outro movimento que valorizava o funk e o soul chegava ao auge com o lançamento de um LP: Maria Fumaça, da Banda Black Rio.

A produção de black music brasileira ainda era incipiente devido ao pequeno mercado consumidor, mas os bailes, que já aconteciam havia cerca de um ano, fervilhavam. O livro 1976 – Movimento Black Rio relata que cerca de 300 bailes ocorriam pelo Rio de Janeiro nos fins de semana. “O Rio de Janeiro em peso e até pessoas de outros estados, interessadas nesse tipo de som, marcavam presença religiosamente nos nossos bailes”, afirma no livro Oséas Moura dos Santos, mais conhecido como Mister Funky Santos, um dos pioneiros do movimento. Ele comandava o baile do extinto Astória Futebol Clube, no bairro do Catumbi, que recebia cerca de 1 500 pessoas por noite.

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(Netflix/Divulgação)

O desejo do músico Oberdan Magalhães – frequentador dos bailes, além de saxofonista e líder da Banda Black Rio – era fazer a “música negra universal”, que misturasse funk, soul, jazz, samba e forró. E foi isso que ele conseguiu com o álbum Maria Fumaça, cuja faixa-título é a obra-prima do movimento Black Rio. “Mesmo tendo nossas formações no samba, nas bandas de baile e no batuque das escolas, éramos todos estudados nos modelos mais sofisticados dos principais músicos de jazz, como John Coltrane, Miles Davis, Herbie Hancock e Freddie Hubbard, por exemplo”, conta o contrabaixista Jamil Joanes no livro.

Depois de 40 anos, a Banda Black Rio segue nos palcos, agora sob o comando de William Magalhães, filho de Oberdan (que morreu em 1984). A banda está excursionando com um show especial: além dos clássicos e músicas novas, há uma exposição de fotos que relembra o movimento Black Rio, o The Get Down brasileiro.