Papo reto com Alê Youssef, ativista cultural paulista

Presidente do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta explica por que o Carnaval de rua paulistano precisa ser livre, democrático e descentralizado

Tentaram privatizar o Carnaval de rua de São Paulo, mas conseguimos impedir

Alê Youssef

A cidade para todos

“Ocupação da cidade é entender a dinâmica urbana por meio da apropriação dos espaços públicos, criando o sentimento de pertencimento. A partir disso, tudo melhora: as pessoas cuidam mais da cidade, têm lazer nas ruas, ganham saúde e se relacionam melhor. A sociedade se torna pacífica utilizando a força da arte, da cultura, do esporte e da interação com o meio ambiente. Uma cidade sem o hábito da ocupação é uma cidade fria, pobre, cinza e sem calor humano.”

O bloco de Carnaval e a rua

“O bloco Acadêmicos do Baixo Augusta foi criado em 2009, mas a primeira vez que saiu às ruas foi em 2010. Esse movimento [de ocupar a rua] ficou latente em 2008, quando o Baixo Augusta se transformou na meca da cultura independente no Brasil. Todo mundo que era alternativo vinha para a região tentar carreira. Foi uma explosão: a rua ficava lotada. Um cenário que perdura até hoje. O bloco foi fundado na mesa do bar, numa brincadeira entre amigos (moradores, empresários e habitués) que captaram esse espírito. Nosso público vai só aumentar, pois assimilou a ideia de que somos um bloco ativista, que nasceu com a bandeira de ocupar a cidade.”

Gestão pública conservadora

“Em 2010, a gestão do [Gilberto] Kassab era contra a ocupação. Tanto que recebi ordem de prisão. Só não fui para a delegacia por que havia muitos advogados no bloco e eles interferiram. Foi uma gestão desgastante, cheia de burocracias e com servidores públicos não preocupados em entender o interesse da população. Porém, ao mesmo tempo em que foi ruim, teve um lado positivo. Somada aos outros blocos que tentavam sair na cidade, a luta se transformou em um movimento – que se fortalecia à medida que as proibições aconteciam. Quando entrou o [Fernando] Haddad, o secretário de Cultura Juca Ferreira compreendeu que era importante dar força ao movimento. Mas defender o Carnaval de rua não foi uma decisão política do PT ou do Haddad. Foi uma conquista da sociedade. Não precisa ser de direita, nem de esquerda, nem coxinha e nem mortadela para entender que era um direito da população.”

O resgate do passado

“O Carnaval paulistano, essencialmente, é uma festa de rua. Os cordões – que hoje são blocos – eram a tradição. No governo militar, houve um confinamento dos cordões e eles entraram no conceito de escola de samba à la Rio de Janeiro. O Cordão da Saracura virou a Vai-Vai. Porém, o carioca tem a tradição das escolas e peculiaridades nos blocos de rua. Assim como Salvador tem um esquema próprio de folia. O Carnaval de São Paulo é o que mais cresce no país. Em um ano, aumentou em 60% o número de inscrições de blocos na prefeitura [306 no ano passado e, em 2017, são 495]. Esse número vai crescer em progressão geométrica. É bonito ver uma grande massa não deixar a cidade para curtir a festa aqui.”

A legalização da folia

“O projeto de lei 298/2016, que estava em trâmite na Câmara, tentava transformar em lei o modelo do Carnaval de rua usado hoje. A festa precisa de uma lei, senão depende de decretos para protegê-la do direito de ser livre, democrática e descentralizada. Até que esse modelo vire lei, está ameaçada por interesses econômicos. Alguns vereadores tentaram aprovar um projeto de lei para privatizar o Carnaval de rua de São Paulo, sugerindo a criação de uma liga. Aí o bloco só sairia na rua se fosse filiado. E essa liga, objeto no qual eles estavam interessados, administraria os fundos arrecadados com o Carnaval: receita, publicidade, patrocínio etc. Mas os blocos se movimentaram e conseguimos impedir isso.”