Papo VIP: Banda Scalene e a atual perspectiva do rock nacional

Conversamos com o grupo brasiliense a respeito de hobbies, drinques, política e muita música

A atual fase do rock nacional conta com dezenas de bandas amigas que se suporta nas mídias físicas e, principalmente, nos serviços de streaming. Bem, pelo menos foi este ponto de vista que saiu como resultado da nossa entrevista com a banda Scalene, que está lançando o primeiro DVD, o Ao Vivo em Brasília. Para a VIP, Lucas Furtado, Gustavo Bertoni e Philipe Nogueira falam sobre rotina, shows, planos para o futuro e quais as perspectiva em relação aos parceiros de outros grupos musicais e o crescimento da própria Scalene no mercado. Abaixo, o bate papo com eles:

Sobre a rotina de shows  e a gravação de clipes

Gustavo Bertoni: Para o DVD, naturalmente, houveram mais ensaios. Viemos de uma sequência de shows muito intensa — desde o semestre passado —, então estávamos bem afiados, mas em todo show nós damos o melhor e encaramos com seriedade. Porém, não tem como negar que para o DVD a gente focou mais. Não é à toa que bateria não teve overdub [gravação de som posterior, adicionada na edição] e o resto teve pouquíssima correção de efeitos no estúdio, para passar essa energia ao vivo. Repetimos duas músicas no fim do show — devido a problemas de equipamento — mas, no final, usamos as originais.

Condicionamento físico

GB: É difícil manter uma rotina de exercícios e de alimentação durante as viagens porque você abraça o que tem. Em Brasília, por exemplo, eu faço yoga, jogo basquete e malho. Nada louco de “rato de academia”, não. Manter uma rotina faz muita diferença no show (que geralmente tem média de uma hora) e eu sinto falta de manter um exercício aeróbico, mas quando viajamos a gente faz o que dá.

Lucas Furtado: Durante o show, muitos outros fatores influenciam no quanto a gente vai se cansar ou no quanto estaremos fisicamente preparados. Por exemplo, durante três semanas, fazendo shows de sexta, sábado e domingo, com entrevistas durante a semana, nosso corpo se cansa rápido. No fim, o tempo de show influencia pouco em relação a essas outras variáveis que podem acontecer. Eu ando de bicicleta em Brasília e agora cada vez mais eu tenho usado bike como um meio de transporte. Se for ensaiar, vou de bicicleta, se for a alguma reunião também. Faço isso para manter o físico.

Philipe Nogueira: Reduzimos muitos shows de 12 músicas porque, às vezes, eu saio mais cansado que show de 20 músicas. Pode ser que o lugar esteja muito quente, ou eu acabo dando toda a energia que tenho. Bom, como tive filho agora, às vezes fica complicado manter uma “rotina de exercícios”… mas eu tenho a bateria que me deixa dar uma malhada todos os shows [risos].

Shows em festival ou solo?

LF: Cada um tem a sua graça. Festival é o momento em que a gente toca para uma galera, que preparamos o show de uma maneira diferente — para abraçar o maior público possível. É um bom momento para quem está assistindo e quer conhecer banda, então a gente sabe que muita gente vai ter o primeiro contato com a gente lá. Um show que é só nosso (seja um grande ou não), não serve para convencer/chamar aquele público, afinal a galera já está lá para ver a banda. Tocamos as músicas que mais curtimos e a troca de energia com a galera é um pouco mais intensa, já que todos estão lá esperando aquilo. No final, cada um à sua maneira tem a sua delícia, seu prazer.

Sobre a parceria entre bandas e crescimento na indústria musical

GB: As bandas [por exemplo, Scalene, Supercombo e Far From Alaska] se admiram e realmente tornam-se inspirações e referência. Conhecemos os humanos por trás das canções e este é um privilégio. Existe a noção de crescer junto, por mais que isso seja de forma natural. De um jeito do tipo, “cara, vamos tocar junto, fazer música junto, vamos curtir e nos ajudar, falar um do outro porque naturalmente a gente gosta”. Enfim, é um momento muito bom e estamos bastante otimistas em relação a este momento do rock. Ficamos orgulhosos por fazer parte disso e sermos uma das “cabeças” da parada.

Brasília e a questão político-social nas músicas

LF: Os dilemas e crises que a geração do Legião Urbana e do Capital Inicial e outras bandas passaram são bem diferentes do que a gente vive hoje. Aquelas questões aconteceram naquela época e hoje até existem algumas semelhanças, mas toda a conjuntura de eventos sociais (e políticos) é diferente. Na posição de formador de opinião, percebo que falta a muitos artistas falar menos e escutar mais. É isso que a gente vê principalmente nas mídias sociais, que acontece um fato e tal pessoa comenta na hora, sendo antagonizado por aquelas que o seguem. Sinto que, às vezes, essas pessoas não estão abertas a ouvir o que outras estão falando. Se você vai se posicionar, se posicione de uma maneira que você esteja aberto a ouvir o que as outras pessoas tem a dizer, pois você não é o dono da verdade.

GB: Também é bacana que elas se mostrem interessadas e curiosas para entender, sem ter uma urgência de se posicionar, antes de entender a coisa e se entender dentro da situação. O artista pode tentar compreender e mostrar a opinião dele sobre a coisa sem tentar impor uma verdade, sabe? É bem importante se antenar em relação a essa coisa, mas também ter isso que eu falei em mente, pois muitos jovens nos seguem e a gente não pode compartilhar temas como verdade, já que nosso objetivo é gerar reflexão e curiosidade em cima do assunto.

Bandas que não querem acabar

GB: São vários casos, consequências e motivos bem específicos. É difícil generalizar. Por exemplo, um “Guns n’ Roses da vida” cai dentro de uma categoria completamente diferente de um Metallica — tá, não foi a melhor comparação [risos], mas é difícil saber… Depois de muitos anos, as motivações dos artistas mudam. Antes ele era jovem e queria se expressar, mudar… talvez em algum momento da vida ele diga “tá, eu construí um legado, vou continuar alimentando ele, mas não necessariamente eu ainda quero ser músico pelos mesmos motivos de antes”. E se você não gosta mais, é só parar de ouvir. É engraçado isso, porque o público às vezes coloca expectativa dele em relação à banda antes do que a banda quer propor.

PN: Também vai do relacionamento dos outros [integrantes], porque depende das emoções que eles estão sentindo. Tem aquilo de sempre de falar “ah, não, gosto muito dessa banda antiga”, então eles lançam um CD que lembra os discos antigos e você fala “poxa, tá bem igual” ou tá bem diferente, e, no fim não agrada ninguém.

Relação da banda com vinil

GB: Lançamos o Éter em vinil. Meus pais tem coleção de discos, então naturalmente (mentira, naturalmente não porque eu peguei deles) [risos] acabou ficando no meu quarto. Às vezes eu escuto, até hoje tenho um tocador, mas quero comprar um belo leitor com belos monitores — porque não faz sentido ouvir com qualidade do vinil sem ter boas caixas de som. Tem a terapia de ler o encarte, de limpar o disco e tudo mais, que eu gosto, mas a gente é total do meio digital.

LF: Eu não tenho muito apego, gosto muito de CD acho uma mídia maneira. Compro alguns [discos] ainda, meus favoritos — a “discografia da minha vida” em CD mesmo —, mas eu não tenho essa coisa especial com o vinil, porque consigo o mesmo prazer no CD. E no digital também, com certeza existe diferença de qualidade, lógico, mas não é uma coisa que vai me fazer ter mais prazer ouvindo de uma mídia ou outra.

PN: No caso, eu fico com só com o digital. Principalmente porque hoje em dia não ouço CD no carro, meu computador não tem leitor de CD e eu dependo de digital. Hoje conseguimos ter a opção da alta qualidade no próprio serviço de streaming, então se você realmente pega a qualidade baixa fica uma experiência ruim (mas também é possível conseguir a mesma experiência em alta qualidade de CD com algumas opções de streaming).

Como divulgar/se destacar no mundo do streaming

GB: É um trabalho conjunto, toda uma arquitetura que vai de várias coisas que você faz que possibilita um destaque na plataforma de streaming. A frequência de lançamento de produtos é importante, a galera consome muito rápido (gostamos de brincar que é a “geração snapchat”) então mantemos uma frequência boa de lançamentos. Prezamos muito pela qualidade destes lançamentos e sempre tentamos trazer a música com algum diferencial — seja com clipe ou lyric video —, para tornar a experiência mais completa e realmente se destacar. É um conjunto da obra. Também fazemos playlists de influências e do que estamos curtindo agora.

LF: Nos nossos perfis sempre fazemos playlists para coisas vamos usar, então para mim, por exemplo, existe uma para andar de bicicleta, uma para ir viajar de avião e uma para jogar videogame. Isso fica salvo no meu perfil para quem quiser escutar.

Carreira no exterior?

PN: Visar o internacional é o que todo artista quer. Uma vez que você está mandando bem no nacional, acaba surgindo um reconhecimento internacional. Se você almeja fazer algo assim, tendo a oportunidade hoje em dia, deve antes estar bem no nacional.

GB: O foco é, por enquanto, 99% no mercado nacional. Nunca descartaríamos a possibilidade, porém, ainda queremos crescer muito musicalmente para pode ir. Não tem um porquê, sabe? Quando fomos tocar no South By South, a gente ouviu muito feedback positivo de gringos, inclusive muitos deles se surpreenderam. “Músicas cantadas em português, para a gente é muito legal ouvir isso.” Às vezes existe essa noção de “ah, se você tem carreira internacional, deve cantar em outra língua”, mas não é bem assim.

LF: A forma que eu enxergo isso é a seguinte: trabalhamos para ter reconhecimento e sucesso nacional. Se tivermos uma chance concreta, que a gente consiga enxergar um caminho, uma oportunidade muito boa, podemos investir nisso. Contudo, não vamos ficar indo atrás disso como o foco da nossa carreira. Queremos estabelecimento no mercado, crescendo cada vez mais. Como o Gustavo falou, o objetivo é o desenvolvimento como músicos, pessoas e também como banda. Caso surja a oportunidade, nunca descartaríamos e seria um prazer também ter esse estabelecimento fora.

Drinques

GB: Curtimos cerveja, naturalmente… uísque também. Às vezes um “vinhozinho” para jantar com a namorada…

PN: Me amarro em drinks, curto mojito, tomei um manhattan outro dia — e foi muito bom. Drinque para mim é um guilty pleasure, do tipo “quero pedir um piña colada mas nunca pedi na frente de todo mundo” [risos].

Se não seguissem essa carreira, o que fariam

LF: Quando eu fazia faculdade, era muito envolvido com artes visuais. Primeiro queria fazer uma especialização de história da arte, mas acabei mudando de curso. Depois voltei para a universidade fazendo museologia, curti bastante e, enquanto isso, foi aberto o curso de teoria crítica e história da arte na Universidade de Brasília, (que era o que eu queria fazer desde o início) mas eu não tinha o curso lá. A minha visão era “a faculdade eu posso voltar, então eu volto e faço o curso que quiser, contudo, só tenho essa chance para fazer o que eu estou fazendo com música”. Então larguei as ideias, mas ainda é algo que sempre me interessou muito.

GB: Minha outra paixão é basquete, então talvez eu me envolveria nisso. Se não, iria para uma área de publicidade ou algum outro tipo de arte — talvez tentaria algo de artes plásticas. Gostaria de psicologia, talvez. O artista decodifica sentimentos e sensações, enquanto psicólogo meio que teoriza essas sensações… ambos estão próximos. Seria algo bacana para seguir.

PN: Provavelmente eu trabalharia com o meu pai na loja de sapato dele, fazendo parte de criação, desenvolvimento de produto, esse tipo de coisa. Sou formado em design de moda.