Papo VIP: John Taylor, do Duran Duran

Conversamos com o baixista de uma das atrações do Lollapalooza sobre a década de 1980, sex symbols e projetos paralelos

Baixista do Duran Duran e um dos principais membros de The Power Station (banda da década de 1980), John Taylor retornará com a banda para shows no Brasil — em especial, no festival Lollapalooza, ao lado de Metallica, The Weeknd e the xx. Conversamos com o músico na última semana, e você confere a entrevista, na íntegra, a seguir.

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A década de 1980 é lembrada por ser um período em que havia “muito de tudo”, onde tudo era exagerado e colorido. Você concorda com isso, sendo um ícone da época?

O começo dos anos 1980 foi uma época muito criativa. Para entender bem a moda e a música, você tem que ir para o final dos anos 1970, para o punk rock inglês (por volta de 1976, 1977), com a tremenda energia que aquilo criou nos anos seguintes (1978 e 1979), com bandas como Joy Division e Simple Minds. Naquela época houve o cruzamento de moda e música, era um tempo fértil. Sinto que no começo dos anos 1980, a energia saía da Inglaterra, e essa energia foi para os Estados Unidos — mais ou menos em 1982, 1983 — com Michael Jackson e Madonna. A energia foi tomada por artistas americanos. Muito o que aconteceu depois do punk foi o que definiu os anos 1980.

Qual a maior diferença entre shows deste período pós-punk e os festivais da atualidade?

O que eu mais gosto é a oportunidade de ter uma ampla variedade de estilos musicais, onde você pode aproveitar coisas. No caso do Lollapalooza, temos The Weeknd, Metallica, artistas brasileiros… e também temos Duran Duran [risos], é uma verdadeira mistura. É ótimo para ouvintes jovens que querem se alfabetizar musicalmente, sendo uma proposta um tanto quanto séria, da qual estou muito feliz de estar participando. No pós-punk a escala era muito menor: a música não era feita para grandes espaços. Junto da moda, ela também era mais provocante e extrovertida. A música  estava primeiro lugar, por ter uma escala tão grande, para tantas pessoas… o que você espera, no sentido da moda, no Lollapalooza? É muito forte, marcada?

Com certeza. Como em muitos festivais por aqui (como Lolla e Rock In Rio) é fácil ver a variedade de estilos junto da música.

Sim! É, eu gosto disso.

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(GettyImages)

Voltando a falar sobre os anos 1980: você se arrepende, em algum momento, de ter usado aquelas roupas?

Bem, não sei o que mais poderíamos ter usado [risos]. Acabou sendo o estilo da época e, se você está presente, você estará sujeito a tendências. Se você é criativo e expressivo, então você sempre fará do jeito certo. Se você vestir jeans e camiseta, quando adolescente, é como se fosse os Ramones. Você não vai tentar nada diferente, certo? O Duran Duran foi uma banda que pôde experimentar muito com a imagem ao longo dos anos . Acho que tivemos mais acertos que erros.

Você costumava aparecer em diversas listas, incluindo da revista People, com o título de “o homem mais sexy”. Na sua opinião, quem é o sex symbol no mundo da música em 2017?

Uhh… [pausa; risos] isso é difícil! Uau… Não tenho certeza sobre “essa” [resposta]! Quer dizer, Kanye tem sido “o cara” nos últimos dez anos. Ele é criativo, interessante, e tem trabalhado no mundo da música nesses últimos anos. Não sei a respeito de “ser sexy”, mas tendo este senso de controle e poder criativo sempre é sexy.

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E como era o assédio dos fãs?

Ah, para mim era como se fossemos os Beatles! Era tudo o que você pode esperar. Quando eu era mais novo, assisti “A Hard Day’s Night” [filme ficcional/documentário dos Beatles] e em todo o lugar que íamos havia mulheres gritando, era muito divertido. Mas isso cansou muito rápido. Me sentia confinado no quarto do hotel porque tudo tinha que ser coordenado, com seguranças e etc. Foi divertido por uns dois anos. E eu não sinto falta. Foi algo bom que ocorreu a nós logo no começo, mas logo você quer sair disso. Você não se imagina nesse tipo de situação, e quer começar a levar as coisas com mais seriedade. Eram adolescentes na porta de casa todo dia, toda hora.

Existe alguma história engraçada em particular?

“Nah” [risos] foi há muito tempo… posso dizer que tudo o que era para acontecer, aconteceu!

36 anos depois, como é olhar para o primeiro álbum do Duran Duran?

Amei o primeiro álbum, foi muito bem realizado. Éramos um grupo de músicos que sabia o que queria, sempre muito focados. Queríamos algo que tivesse atitude, que você ouvisse e pensasse “como os músicos podem tocar assim na gravação?”, algo que parecesse bem estabelecido, como se estivéssemos tocando juntos por muito tempo. Gostei do nosso foco. O segundo álbum ainda tinha isso, bem como bastante energia e confiança.

E quanto os clipes ajudaram na divulgação?

Demais! Com tudo o que estava acontecendo nos anos 1982 e 1983, a MTV começou a decolar, em específico nos EUA, com um mercado muito difícil. Era um país difícil para “entrar”, sendo artistas britânicos. Era um meio imediato de levar a música às pessoas. Acho que [a MTV] foi o que fez a música tão forte. Eles tinham desviado de seguir a tradição ao tocar os clássicos e começaram a tocar músicas novas, como Peter Gabriel, Madonna… Duran Duran! [risos] Foi música de ponta. Artistas como Led Zeppelin e Rolling Stones levaram muito tempo para gravar clipes musicais (apesar de Led Zeppelin nunca ter feito de verdade). Então havia uma variedade de clipes e foi um meio animador por muito tempo.

Por que houve a divisão entre a banda e Power Station?

Comecei a achar muito frustrante o terceiro álbum [Seven and the Ragged Tiger], por ser complicado de fazer. Me senti mal; queria fazer algo diferente. Estávamos perdendo tanta energia, então queria algo que soasse mais próximo de funk. A oportunidade de trabalhar com Tony Thompson, baterista do Chic, e Robert Palmer foi uma grande oportunidade de fazê-lo. Quando você lança hit após hit e é bem visto por onde anda, você tem bastante confiança em seguir com um projeto para tornar-se um sucesso — quer dizer, quando você tem essa confiança e a indústria também confia em você. Fizemos o álbum em três meses e assinamos com uma gravadora. Não acreditávamos no que estávamos fazendo. E claro, foi um enorme sucesso, e acho que os outros caras [integrantes do Duran Duran] também pensaram “bem, nós precisamos fazer algo, precisamos representar nossa posição na banda”, mas acho que foi mais como uma reação a nossa situação nesse caminho.

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Por fim, como é voltar ao Brasil? Espera fazer algo em especial enquanto estiver por aqui?

Bem, é emocionante voltar ao Brasil para tocar no Lollapalooza, pois é uma oportunidade para levarmos nossa música a diversos fãs de música que não viram a banda antes. Essa é a grande oportunidade e é a respeito disso que estou mais ansioso. Claro, ansioso para ouvir a música local, sentir a cultura brasileira, que é tão calorosa e vibrante. Talvez ouça um pouco de música brasileira enquanto estiver por aí. Será bom para nós e para os fãs.