“Quem estiver fora dos serviços de streaming pode perder a relevância”, diz CEO do Rdio

O site da VIP bateu um papo com Anthony Bay, CEO do Rdio, e Scott Bagby, Presidente Internacional da marca, sobre as novidades do mercado fonográfico e o futuro da música. Serviço de streaming, que é nosso parceiro, anunciou mudanças nesta quinta-feira (4/9)

family-lineup-PT-BRA versão básica do Rdio agora é gratuita

O jeito de ouvir música está mesmo mudando. Depois da última crise, logo quando apareceram os primeiros serviços de download de canções como o Napster, a indústria fonográfica vê o modelo de música por streaming como uma saída possível — e a grande entrada para novos ouvintes e novas bandas se conhecerem. No Brasil, destacam-se três grandes serviços de streaming musical: o francês Deezer, o sueco Spotify e o norte-americano Rdio.

Para tentar se destacar, este último — que é parceiro da VIP — lançou nesta quinta-feira (4/9) uma nova maneira de funcionamento. Agora, o usuário do Rdio não precisará pagar para ouvir músicas através do serviço. Para falar sobre a novidade, Anthony Bay, o CEO da marca, e Scott Bagby, Presidente Internacional da Rdio, estiveram no Brasil.

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Aproveitamos a visita e fomos bater um papo com os dois sobre o que interessa: música.

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Como ser diferente em um mercado com serviços tão parecidos em termos de oferta de bandas assinadas e qualidade de serviço?
Anthony Bay: É por isso que estamos lançando esse novo formato para o Rdio. Pela primeira vez, o nosso serviço será gratuito. A versão mais básica da ferramenta, sem custos para o consumidor, será composta por estações de rádio — construídas a partir de artistas, usuários ou marcas. Por exemplo, eu terei a minha própria estação de rádio, a Anthony FM. Os usuários poderão ouvir as músicas que tocam na minha estação de graça. E a programação desta rádio será feita com base no que eu ouço.

Essas estações terão propaganda, certo?
Scott Bagby: Correto. Mas são os donos das estações que vão controlar quais anúncios vão tocar na sua rádio. Você pode controlar as músicas e as propagandas.

Mas quem vai faturar com as propagandas? Os donos das estações ou o Rdio?
Anthony Bay: As marcas que quiserem anunciar irão pagar para o Rdio. Eles nos enviam as peças. E os donos controlam quais peças entram em cada estação.

A pirataria no Brasil preocupa? Como vencer conteúdo pirata?
Anthony Bay: Apostamos no nosso serviço. Colocá-lo de graça é uma forma de tentar combater a pirataria, porque a pirataria pode ser uma saída fácil, mas você precisa baixar as músicas, precisa ir atrás dos arquivos, precisa administrar o espaço da sua máquina… Com os serviços de streaming, isso não é necessário. O usuário tem a comodidade de ter uma quantidade muita grande de canções à disposição.

Scott Bagby: A pirataria é um problema mundial, não é só no Brasil. Quando chegamos, a pirataria era uma preocupação. Mas uma boa experiência para o usuário pode combater isso. Se provemos uma maneira legal e legítima de se consumir música, por que não optar por ela? A maioria das pessoas é de boa índole. Elas gostam dos artistas. Elas preferem pagar para escutar — e ajudar — o artista do que roubá-lo.

O streaming é o futuro da indústria musical?
Scott Bagby: 
É definitivamente um futuro. Não vou dizer que é o futuro, mas é um caminho.

Anthony Bay: Não sei se é o futuro. Quer dizer… As pessoas vão continuar comprando discos. Disseram que o download iria acabar com os CDs, mas isso não aconteceu. Mais e mais pessoas  vão ter acesso a música com esses serviços, que não são só streaming. Você pode ter a música no seu celular, no avião, offline. Acho que vai acontecer o que aconteceu com os filmes. As pessoas vão assinar o Netflix e talvez não comprem o DVD. Mas existem pessoas que querem o DVD.

Você mencionou o Netflix. No Brasil, eles começaram como serviço de streaming e hoje produzem as próprias séries, como ‘House of Cards’, ‘Arrested Development’ e ‘Orange Is The New Black’. O Rdio planeja fazer o mesmo?
Anthony Bay: Acho difícil, no nosso mercado, que o Rdio lance um artista exclusivo no Rdio. Mesmo que por um breve período, já que a música está em todo lugar. Não é como na TV ou no cinema. A série está nesse canal e não está naquele. Ponto. Acho mais fácil promovermos artistas de forma exclusiva.

Como shows?
Anthony Bay: 
Sim, tem muitas possibilidades. Podemos organizar shows. Isso pode acontecer, mas não vejo como uma prioridade.

Scott Bagby: Exatamente. Nós temos várias parcerias ao redor do mundo, e em alguns lugares temos as ‘sessions’, onde o artista comparece e toca suas músicas. Isso é exclusivo, mas o Rdio não vai criar uma gravadora, um selo.

Como funciona a negociação com os artistas e bandas?
Anthony Bay: A maioria das negociações são feitas com os representantes dos artistas. A gravadora ou o selo que o lançou. Quem quer que detenha os direitos autorais. Em casos específicos, conversamos diretamente com o artista. E artistas independentes podem fazer isso.

E como lidar com bandas que não querem estar nesses serviços de streaming?
Anthony Bay: 
Olha… Quando o iTunes surgiu, há onze anos, muitos artistas disseram que não queriam fazer parte, estavam reticentes. Hoje todo mundo está lá, até os Beatles. Acredito que vá acontecer a mesma coisa. É uma questão de tempo.

Vocês acreditam que vai rolar um convencimento ideológico ou eles não terão escolha?
Scott Bagby: 
Acho que são duas coisas. Ainda não acredito que o mundo esteja dentro dos serviços de streaming. A escala de usuários comparada com o número de amantes de música no planeta não é tão significativa ainda. Mas quando chegar lá, vai ser inevitável que todos os artistas estejam lá. A coisa boa desse novo serviço do Rdio é que será criada uma nova maneira de ouvir música. Sabe o conceito de binge-watching (emendar um capítulo de uma série no outro, passando horas na frente da TV)? Vamos fazer o “binge-listening”. Eu amo Beatles, mas talvez não compre ou baixe um álbum inteiro deles. Agora a chance de eu colocar uma música dos Beatles numa playlist ou na minha estação de rádio é muito alta! Quando as pessoas entenderem que basicamente todo o conteúdo do iTunes está disponível no Rdio por R$ 14,99, elas vão ver que isso é incrível! Então quando isso acontecer, quando todo mundo estiver ouvindo música por streaming, esses artistas vão ter que subir no barco.

Mas não é uma grande preocupação do Rdio? Ter os Beatles?
Anthony Bay: 
Está fora do nosso controle. Como disse, no começo do iTunes, alguns disseram: “Hum, eu não sei” e eventualmente o iTunes ficou tão grande que todo mundo foi para lá. Com o streaming vai acontecer o mesmo. Você precisa lembrar: as pessoas podem ouvir muita música, mas elas não vão comprar tudo que escutam. Quando um artista diz que teve sua canção escutada por milhões de pessoas, isso não quer dizer que milhões de pessoas comprariam algo dele. Com streaming e assinaturas, o artista recebe quando suas músicas são escutadas. Pode demorar um pouco, mas os artistas vão perceber que o que eles querem é um número grande de pessoas ouvindo suas músicas. Assim como é interessante para uma marca ter seguidores no Facebook ou Twitter.

Scott Bagby: Mas respondendo sua pergunta… Se nos incomoda? Queremos todas as músicas produzidas no planeta. Queremos levar a Bárbara Eugênia para a Austrália, para a Alemanha. Queremos tudo! Mas não estamos preocupados ou chateados. Como disse o Anthony: eles virão.

Anthony Bay: Os artistas precisam estar onde os ouvintes estão. Quem estiver fora dos serviços de streaming pode deixar de ser relevante.

O Rdio será totalmente gratuito em algum momento da história?
Scott Bagby: 
Não. Por uma série de motivos. Mas principalmente porque acreditamos que a música tem um valor. Os artistas acreditam nisso e somos parceiros. Nós acreditamos que estamos oferecendo uma solução contra a pirataria, mas a música é valiosa.

David Byrne, ex-líder do Talking Heads, disse que a Internet vai sugar todo o conteúdo criativo do mundo. O que vocês acham disso?
Scott Bagby: Discordo. O mundo mudou. Grandes artistas começaram na Internet! A Lorde, por exemplo. Justin Bieber — goste ou não da sua música — foi descoberto na Internet. Pessoas criativas serão criativas! A Internet possibilitou que essas pessoas sejam descobertas. Você pode gravar um disco no seu celular. Tenho certeza que milhares de artistas talentosos passaram desapercebidos no passado porque não existia Internet.

Vocês acreditam que o Rdio tem alguma responsabilidade pela cena musical?
Scott Bagby: 
Definitivamente. Nós somos uma empresa de música e estamos muito envolvidos com a indústria musical. Somos responsáveis pelas gravadoras, pelos artistas. E levamos tudo isso muito a sério! Como disse antes, queremos levar Bárbara Eugênia para o Canadá, para o resto do mundo!

Anthony Bay: Acho que as pessoas vão olhar para trás e tentar lembrar como era o mundo antes dos serviços de streaming de música da mesma maneira que hoje tentamos lembrar como era sem as redes sociais. Você se conecta de maneiras que nunca achou possível. Acho que é o próximo passo.

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