DJ MARLBORO
DE BAILES NAS FAVELAS DO RIO, há 30 anos, ele foi
parar na casa noturna de Jennifer Lopez, nos EUA, com
Britney Spears e Justin Timberlake dançando na platéia.
Fernando Luiz Mattos da Matta, o DJ Marlboro, conta
para a VIP como é ser adorado pela Xuxa e respeitado
pelos traficantes

POR FERNANDO GUEIROS FOTOS: DARYAN DORNELLES

Ele saiu de uma família pobre do Méier,
subúrbio carioca, para fazer dinheiro
e conquistar o país – e o mundo –
com música. Morava tão longe dos bailes
que os outros diziam que ele vinha “da terra
de Marlboro”. Aos 44 anos, DJ Marlboro
anda sempre rodeado por amigos, MCs
e tchutchucas, no conforto de um
condomínio de luxo na Barra. Dirige
uma Pajero 4×4, blindada, e é dono de
um sítio com pista de kart. Na entrevista,
ele fala de amantes, dos bailes e de como
resiste à pressão para tocar proibidão,
tipo de funk de apologia ao tráfico.

O FUNK FEZ VOCÊ FAMOSO E RICO.
DEPOIS DE TRÊS DÉCADAS TOCANDO,
QUAL É O MAIOR LUXO QUE VOCÊ TEM?

Meu sítio em Mangaratiba (interior do
Rio de Janeiro), com meus brinquedos
e as crianças – filhos e sobrinhos de meus
amigos. Se tem uma coisa que eu gosto
muito é de criança. Adoro ver a molecada
correndo. Não tem prazer maior. Lá tem
campo de society, quadra de futebol, pista
de kart. Se eu vou sozinho ou com adulto,
não tem tanta graça. Quando as crianças
vão, elas pulam no rio, vão para cachoeira,
ficam brincando. É a maior satisfação que
eu tenho. Porque a criança aproveita aquilo
como eu gostaria de aproveitar, mas
não tenho tempo para isso.

COMO FOI A SUA INFÂNCIA?
Pobre, muito sacrificada, com muito
problema. Problema de família, pais…
Nunca tive mesada nem condições de
ter muita coisa. Sempre foi tudo muito
limitado, controlado, sem liberdade. Minha
mãe não deixava nem eu empinar pipa.

TEM PLANOS DE TER FILHOS?
Tenho, claro! Quero ter uns dez! Como eu
disse, adoro criança. O problema é que não
quero ter mulher. Não gosto de mulher
pegando no pé, perturbando, ciúme, crise. " É QUE HOMEM É BURRO,
ARRUMA AMANTE DEPOIS
DE CASAR. EU PREFIRO
TER AMANTE SEM CASAR. É MUITO MAIS TRANQÜILO"
E, com a quantidade de tempo que eu gasto
no trabalho, se eu arrumar uma mulher, vou
ser corno com certeza. Eu não paro. Estou
trabalhando o tempo todo, correndo atrás.
Não tem férias, não tem folga. Mulher
nenhuma agüenta isso. Por mais que
ela goste e queira, ela não vai suportar.
Estou quase contratando uma barriga de
aluguel para poder ter um filho (risos).

ROLA ASSÉDIO DA MULHERADA?
Rola, sim. Eu conheço muitas meninas.
Não tenho namorada, mas tenho um
monte de amante. É que homem é burro,
arruma amante depois de casar. Eu prefiro
ter amante sem casar. É muito mais
tranqüilo, não pega no pé, não perturba,
não enche o saco e você não trai ninguém
e não magoa ninguém.

VOCÊ OU SUA MÚSICA JÁ SOFRERAM
ALGUM TIPO DE PRECONCEITO?

Cara, passei por isso a minha vida inteira.
Quando eu comecei a ser DJ, em 1977,
o mundo todo era contra mim. Ninguém
queria aquilo. Meu pai, minha mãe, minha
família toda era contra. Porque até aquele
momento, nenhum DJ tinha conseguido
nada na vida. DJ não tinha reconhecimento,
não era considerado porra nenhuma,
a não ser um trocador de discos. Fui
ser DJ por amor àquilo que eu fazia. Eu
não tinha nenhuma perspectiva. Aí, em
1989, quando eu fui campeão brasileiro
num torneio nacional, passaram a ver
que poderia dar certo. Quando eu comecei
a tocar funk, o preconceito duplicou!
Ser DJ, que na época era uma profissão
marginalizada, junto com o funk, que era
mais marginalizado ainda, coisa de preto,
pobre e favelado… Neguinho falava: “Tá ferrado! Esse cara não vai conseguir
nada na vida, em lugar nenhum”.

E A EVOLUÇÃO DO FUNK?
O QUE VEM DEPOIS?
O funk tem várias vertentes. Está
em constante mutação. O funk, hoje,
é pop. Você ouve o programa na rádio
hoje e daqui a três meses já são outras
músicas, com outras batidas. O funk é a
música eletrônica brasileira. Vai se misturar
cada vez mais com as tendências que
aparecerem no mundo e na nossa cultura.
Funk é a música do futuro e eu acho
que o Brasil é o país do futuro. Aqui,
americano é vizinho de iraquiano.

COM ESSE DISCURSO, VOCÊ
PODERIA SER POLÍTICO…
(risos) Rapaz, eu até já pensei que,
quando eu não tiver mais nada para fazer
ou realizar e for tirar as minhas férias,
talvez eu fale: “Vou me candidatar”.
Com a vida ganha e filhos criados, vou
me meter na política para avacalhar tudo.

AVACALHAR COMO?
Avacalhar no bom sentido. Avacalhar,
que eu falo, é não se corromper, não
se vender, fazer sempre a coisa certa.
Quando eu me eleger, chegar lá e nego
ficar puto porque eu não quero comer
dinheiro, porque eu quero fazer a coisa
certa, vão mandar me matar. Quando
eu for para a política, estarei pronto para
morrer. Sei que não vão me aceitar.

NO FILME TROPA DE ELITE, ROLA
UM TIROTEIO NUM BAILE FUNK.
AQUILO É FIEL À REALIDADE?

Se fosse de verdade, as manchetes dos
jornais seriam: “Tiroteio em baile funk”,
“Funk termina em tiroteio”, “Violência
em baile funk”. Quem viu o filme sabe
que o baile não tem nada a ver com
aquele tiroteio. Tem toda uma história
para o tiroteio acontecer, que não tem
É LEGAL VER O PESSOAL
ENGRAVATADO, TODO
MUNDO DANÇANDO.
VER NOIVA SE ACABANDO
COM O NOIVO NO SALÃO
a ver com o funk em si. Se algo assim
acontecer na vida real, a manchete
do dia seguinte vai botar o funk no
alvo, como se fosse culpado por aquilo
que a música não causou.

MAS AQUELA MÚSICA INSTIGA,
FALANDO DE INVASÃO, ARMAS, AR-15…

É o Rap das Armas. Quando eu lancei essa
música, chegou uma autoridade e disse: “Meu filho, de 13 anos, que nunca teve
nenhum contato com arma, fala o nome de
todas essas armas. É uma sacanagem você
colocar isso na música”. Eu respondi: “Cara,
você está indignado porque o seu filho,
através de uma música, conheceu o nome
de algumas armas. Cadê a preocupação com
os filhos daqueles que estão com as armas
na mão, lá na favela? Aqueles que estão
usando essas armas e sendo mortos por
elas?”. Para ele, o filho dele saber aqueles
nomes era uma “filhadaputagem”. Agora,
quem tá com as armas na mão, tirando a
vida dos outros e morrendo, não importa.

VOCÊ JÁ SOFREU ALGUM TIPO DE
AMEAÇA NOS BAILES DO MORRO?

Só por não tocar proibidão. Os caras me
cercaram, com fuzil na mão, dizendo para
eu tocar proibidão. Eu disse que não ia
tocar e não toquei. Depois de fazer pressão,
eles viram que eu realmente não ia tocar
e aceitaram. Hoje a minha produtora,
a Big Mix, faz vários bailes no Rio,
não toca proibidão e não precisa tocar. As
pessoas que permitem os nossos bailes nas
comunidades aceitam e reconhecem isso.

QUAL É A SUA RELAÇÃO
COM O PROIBIDÃO?

O proibidão é uma vertente do hip hop
no funk, que fala da realidade que eles
vivem no cotidiano. Essas músicas, que
fazem apologia ao crime, eu não toco e
não sou a favor. Mas também não vou
crucificar essa galera. Na verdade, eles
estão falando do que vivem no dia-a-dia.
Eu acho muito pior o playboy que curte,
dança e glamouriza essas músicas, do
que propriamente aquele que faz a música.
Quem faz está retratando a realidade dele.
A gente tem de se indignar não com o que
ele canta, mas, sim, com o que ele vive.

VOCÊ JÁ FOI ASSALTADO?
Já. E o cara só foi me reconhecer
depois que eu fui na favela buscar
o carro. Eu morava num condomínio
que, na frente, tinha cinco assaltos
por dia. Mesmo de carro blindado,
não teve jeito. Para evitar um tiroteio,
desci, dei a chave, ele entrou e eu disse: “Vou lá na favela buscar”. Ele olhou
para mim, não me reconheceu, e
foi embora. Depois fui pegar o carro
na favela, graças ao localizador.

QUEM OUVE A SUA MÚSICA HOJE?
Não tem limite de classe social,
religiosidade, raça ou cor. E nem
de nacionalidade. Até no Japão os
caras estão escutando funk. Todas
as barreiras foram quebradas.

VOCÊ SE VÊ COMO PRECURSOR
DESSA HISTÓRIA TODA?
Quem pode dizer isso melhor são os
historiadores, aqueles que pegaram o
livro do Hermano (Vianna, antropólogo
e pesquisador musical).

VOCÊ TEM AMIGOS FAMOSOS, COMO
XUXA, FERNANDA ABREU, REGINA
CASÉ. COMO É SUA RELAÇÃO COM
ESSAS CELEBRIDADES?

Muito legal. Conheci a Regina, a
Fernandinha… mas a Xuxa foi outra
história. A Marlene (Mattos, ex-diretora
dos programas da Xuxa) me procurou,
depois de eu já ser primeiro lugar nas
rádios, para colocar uns funkeiros
no filme Lua de Cristal. Durante as
gravações do filme, percebi que a Xuxa
gostava de dançar funk de verdade.
A partir daí, surgiu a nossa afinidade.

QUAL FOI A FESTA MAIS BOMBADA
EM QUE VOCÊ TOCOU?

Cara, é difícil. Já toquei em todo tipo de
festa. Em algumas, eu pensava: “O que
estou fazendo aqui?”. Mas é legal ver o
pessoal engravatado, festa de 15 anos,
casamento, e todo mundo dançando.
Ver noiva se acabando com noivo no meio
do salão. Agora mesmo, estou indo para
o Japão, pela segunda vez, tocar funk.
Pra Holanda, já fui três ou quatro vezes.
Vou para a Inglaterra, pela vigésima vez, tocar funk. Já toquei tanto em
Portugal, que perdi as contas. Deus
tem sido muito bom comigo. Nem Cartola
nem os precursores do samba tiveram
a oportunidade de ver até onde a música
deles chegou. A Madonna quer
conhecer um baile funk. As pessoas
mais importantes do pop mundial querem
saber o que é, como faz, o que acontece.
Nos Estados Unidos, eu fui tocar na casa
noturna da Jennifer Lopez. A Britney
Spears e o Justin Timberlake estavam lá.

MUITOS FUNKS FALAM DE
SACANAGEM. QUAL É A DIFERENÇA
ENTRE SENSUALIDADE E
PORNOGRAFIA?

Sensualidade e duplo sentido eu acho
legal. Pornografia eu sou contra. Não
toco música que fale palavrão. Não toco
uma música que seja escrachadamente
pornográfica. Porque o funk atinge
muitas crianças. O ritmo quebrou muitas
barreiras e uma delas foi a barreira da faixa
etária. A partir do momento em que o
funk chega na casa da pessoa mais idosa
e aos ouvidos de uma criança de 3, 4 anos,
eu não tenho o direito de desrespeitar
essas pessoas. Não posso tocar música
com palavrão. Mas duplo sentido eu posso.
Só vai entender quem tem maldade. Se
o funk não tivesse essa sensualidade,
não seria brasileiro. O samba é sensual,
o forró é sensual, o axé é sensual. Ou
seja, música brasileira autêntica é sensual.

VOCÊ ACHA QUE É POR ISSO QUE
ATÉ A GAROTA MAIS COMPORTADA
LEVANTA, REBOLA E DESCE ATÉ
O CHÃO QUANDO SOLTAM UM
FUNK NA PISTA DE DANÇA?
Rapaz, a mulherada perde a linha. Até as
meninas de Minas Gerais, que são mais
recatadas e conservadoras, perdem o pudor
quando eu toco funk. O mais legal é que é
uma coisa espontânea, de alegria mesmo.
É como o samba. Há alguns anos, a
mulata sambando no Carnaval era vista
com maus olhos. Hoje, todo mundo
acha lindo, coisa da nossa cultura. Isso
faz parte da nossa cultura, do sangue
brasileiro. É a nossa sensualidade