Gracie o clã brasileiro que
dobrou o mundo POR EDUARDO STRYJER
"Se você quer ter sua face esmurrada e arrebentada, seu traseiro chutado e seus braços quebrados, entre em contato com Carlos Gracie no endereço...”. Com este anúncio em jornais da década de 20, o paraense Carlos anunciava seus dotes de luta para poder pagar suas contas e também demonstrar a superioridade do jiu-jítsu (a “arte suave”, em japonês). Ele aprendera as técnicas com um mestre japonês e já as adaptava para iniciar a única arte marcial brasileira realmente internacional. A mensagem do anúncio era abusada. Mas Carlos Gracie, morto em 1994 aos 92 anos, podia. Assim como seus irmãos (como Hélio), filhos (como Carlson e Rolls), sobrinhos de vários graus (como Rickson, Royce e Rorion), netos (como Ryan) e bisnetos (como a bela Kyra). Juntos e com um orgulho familiar explícito, os Gracie aperfeiçoaram a versão brasileira da luta ancestral japonesa com manobras de imobilização que possibilitam a alguém fisicamente mais fraco sobrepujar um oponente mais forte. E desafiaram e derrotaram praticantes de judô, caratê, capoeira, boxe, luta-livre e tantas outras modalidades. O Brazilian Jiu-Jitsu se espalhou, superou em importância o jiu-jítsu original, triunfou em competições de vale-tudo e transformou o sobrenome Gracie numa marca forte, invejada, respeitada e temida. Que hoje se impõe com cerca de 150 descendentes do clã lutando, administrando academias ou apenas ensinando a arte no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão e Emirados Árabes. O clã até chegou a Hollywood, mas nos bastidores ou em pequenas pontas, como a que Rickson fez recentemente em O Incrível Hulk (teve o papel de instrutor de Bruce Banner). Falta estrelar filmes como Bruce Lee fez nos anos 70, popularizando as lutas chinesas– em especial, o kung-fu. Talvez tal destaque nas telas desmontasse a associação do nome Gracie a um temperamento casca-grossa eà violência gratuita – uma distorção causada mais por pretensos seguidores (como os “bad boys” ou “pit-boys”) que ignoram os conceitos rígidos de disciplina, filosofia de vida e dieta vegetariana da família. Porém, po de ser que sucessos do cinema nem sejam necessários. Quase 90 anos de saga já transformaram os Gracie numa marca global.
Por volta de 1917, em agradecimento à ajuda de Gastão em seu trabalho, o Conde Koma aceitou dar aulas de sua arte para o filho mais velho do amigo, Carlos, nascido em 1902. Ensinar as lutas a um ocidental ainda era um grande tabu para um oriental naquela época. Dessa forma, Carlos foi um aluno privilegiado e, nos anos 20, já circulava pelo Brasil para disseminar o jiu-jítsu em aulas e desafios. Numa delas, em São Paulo em 1924, atraiu grande público – e respeito – ao em patar com o mestre oriental Geo Omori, que chegou com o status de melhor lutador de qualquer estilo a pôr os pés em nosso território. Carlos consolidaria a reputação de sua arte ao derrotar o ágil e fortíssimo capoeirista Samuel com golpes que espalharam sangue no ringue. A reação violenta se deveu à revolta do Gracie pioneiro com os truques sujos que Samuel usou para tentar vencer: apertou os testículos e mordeu a perna de Carlos.
Apesar do físico franzino, Hélio teve a esperteza de desenvolver técnicas para lutar no chão e imobilizar o oponente. Essa é a adaptação estilística fundamental do jiu-jítsu brasileiro, priorizando uma estudada submissão sem necessidade de golpes vistosos. Unidos, Carlos e Hélio passaram a encarar desafios de vale-tudo contra praticantes de outras lutas para provar que seu método era superior. Com o tempo, Hélio (até o fechamento desta edição, ainda vivo e prestes a fazer 95 anos em 1o de outubro) assumiu o pa pel de difusor da técnica, enquanto Carlos deixava os ringues para se dedicar à medicina alternativa. Nos anos 50, os desafios de Hélio lotavam ginásios no Rio e sua fama de valente era enorme na então capital do Brasil, onde tinha muitos amigos da boemia, como os membros do folclórico Clube dos Cafajestes. Era um contraponto à retidão mais rígida e algo mística de Carlos, que se dedicava à dieta natural que elaborou (seguida até hoje pelos Gracie) e defendia que sexo podia oferecer prazer, desde que com o objetivo de procriação. Como principal lutador da família, Hélio foi o primeiro ocidental a derrotar um campeão do Oriente: em setembro de 1951, superou o japonês Jukio Kato num combate de tira-teima no ginásio do Pacaembu, em São Paulo, três semanas depois de um empate entre ambos no estádio do Maracanã. Houve derrotas, mas épicas, sem motivo para vergonha. Em 1952, o japonês Masahiko Kimura, 35 quilos mais gordo, achatou Hélio no tablado depois de uma chave de braço específica que os Gracie batizariam depois de “kimura”. E, em 1955, Hélio voltou após três anos sem lutar para encarar Waldemar Santana, um dissidente da Academia Gracie que o desafiara. Hélio resistiu a 3 horas e 40 minutos intensos de combate até levar um pontapé na cara e cair derrotado. Mas, meses depois, seu sobrinho Carlson, filho mais velho de Carlos, derrotou Waldemar numa revanche em nome de toda a família – algo que virou uma tradição dos Gracie. A globalização Em 1980, aos 21 anos, Rickson retomou a velha prática dos desafios de vale-tudo, estreando em Brasília contra Rei Zulu, um capoeirista com um cartel invicto de 122 lutas. Rickson chegou a ser arremessado para fora do ringue e pensou em desistir. Mas foi reanimado por um balde de água gelada virado sobre sua cabeça pelo primo Rolls (filho de Carlos que morreria jovem num acidente de asa-delta em 1982, após algumas importantes vitórias no exterior). Rickson reagiu e venceu Zulu com um mata-leão. Ponto de partida para que se tornasse uma lenda, com cerca de 450 lutas invictas (os números de vários levantamentos variam) até 2000, quando parou. Também foi ele quem popularizou o jiujítsu brasileiro no Japão com vitórias impressionantes em eventos na década de 90. Este ano, Rickson anunciou um retorno às lutas,às vésperas de completar 50 anos. Nos anos 80, enquanto Rickson apavorava nos ringues, Rorion planejava na Califórnia novas formas de divulgar o jiu-jítsu. Encaixou a arte em Hollywood, ensinando Chuck Norris e dando consultoria nos filmes Máquina Mortífera, estrelados por Mel Gibson. Com seu espírito empreendedor e a vontade comum aos Gracie de provar que sua arteé superior, Rorion e um aluno idealizaram um torneio-show de vale-tudo especialmente para a TV: o Ultimate Fight Championship (UFC). O espetáculo tinha um visual caprichado, com um ringue octogonal cercado por telas que impediam a fuga de um lutador mais assustado. As batalhas eram praticamente brigas de rua via satélite. Rorion escalou seu irmão Royce para representar o jiu-jítsu e a família no UFC. Com um porte físico normal, Royce faria a melhor propaganda do método se vencesse oponentes musculosos de outros tipos de luta. Não deu outra: Royce foi campeão do primeiro torneio em 1993, em Denver, finalizando três adversários com rapidez. O combate mais longo durou 2 minutos e 11 segundos. Royce seria campeão de outros dois UFC. Com a popularização da TV paga, o evento bombou internacionalmente e Royce virou um mito. Atualmente, uma nova geração na casa dos 20 anos de idade dá continuidade à saga, com destaque para a campeã mundial Kyra. Apesar das conquistas, ainda há quem associe o nome Gracie à brutalidade. Confusão que só aumentou em 2007 com a morte de Ryan (neto de Carlos) por overdose numa delegacia de São Paulo, horas depois de ser preso por agressão e roubo. Mas é uma saga com muitos personagens – ter muitos filhos é normal: Carlos teve 21; Hélio, seis; Rorion, nove – e cada um tem seu temperamento. Pelo menos, a complexidade da família foi organizada no livro Carlos Gracie: o Criador de uma Dinastia, escrito por sua filha Reila e lançado em julho pela editora Record. Uma tora de quase 600 páginas que prova que o clã tem muito para contar.
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