Cinema bom é filme bandido
O lado marginal que aparece nos meus trabalhos é influência de O Bandido da Luz Vermelha

por Selton Mello

o bandido da luz vermelha
O que é mais hediondo: matar uma gata destas ou usar este colar?



dvd o bandido da luz vermelha
Quando recebi o convite para o Cabeça Feita, não precisei pensar muito. De cara, veio o filme do Rogério Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha. É uma obra que gosto tanto de ver como de comentar. O melhor longa brasileiro de todos os tempos.

Histórias de bandidos sempre me encantaram, mas O Bandido da Luz Vermelha foi especial porque é o primeiro a misturar rádio com cinema. O diretor teve a brilhante idéia de colocar dois locutores narrando os fatos do filme como se fosse um programa sensacionalista, algo muito parecido com o Aqui Agora!. Ao longo da história, isso fica muito divertido.

Apesar de inspirado em fatos reais na cidade de São Paulo, o resultado consegue ser ao mesmo tempo comovente, divertido e subversivo na montagem e na maneira como é contado.

GOTAS DE FILOSOFIA

Frases do Jorginho, o Bandido da Luz Vermelha

•“Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha, avacalha e se esculhamba.”

•“Posso dizer de boca cheia: ‘Eu sou um boçal’.”

•“Eu não tenho dinheiro, mas tenho meu cartaz.”

•“Nesse país o cara precisa ser grosso para ser forte.”

•“Meu fraco é mortadela.” Frase do candidato à presidência da Boca do Lixo - J.B. da Silva

•“No meu governo, os pobres finalmente vão ter o que mastigar. Vou distribuir chicletes a todos.”

O filme deixa uma pergunta no ar: o bandido é herói ou vilão? Na verdade, nós não somos apenas um, e o próprio longa responde nos diálogos. “O Bandido da Luz Vermelha é um gênio ou uma besta?” É isso, nós somos gênios e bestas, os dois ao mesmo tempo.

Os atores são ótimos, o Paulo Vilaça, que viveu o bandido, fez um grande trabalho minimalista na interpretação, incrível. A Helena Ignez, que era esposa do Sganzerla e musa do cinema marginal, estava fabulosa.

Outro destaque do filme são os pensamentos existenciais do protagonista. Ele tinha isso no enredo todo, lembrava da infância, das mulheres que teve com um sarcasmo melancólico muito particular. A obra conseguiu imprimir isso o tempo todo. Da trilha sonora ao tom debochado, passando pela escolha do elenco e a maneira como Sganzerla dirigiu, esse filme é uma obra-prima.

Não posso esquecer da coragem do Rogério de ir contra a corrente em pleno ano de 1968, com a ditadura. Para fazer um filme desse estilo, tem que ter muita força. O Sganzerla dirigiu muito jovem, com apenas 22 anos.

O meu entusiasmo com essa obra é tanto que o Sganzerla deixou um roteiro que seria uma espécie de continuação do Bandido e fui convidado para fazer o filme, mas acabei declinando. É como se me chamasse para fazer a refilmagem do Laranja Mecânica. Eu gosto tanto daquilo que não vou lá estragar com a minha incompetência, então é melhor ficar só na memória.

(Depoimento a Diego Muniz)

 

selton melo O mineiro Selton Figueiredo Mello tem 35 anos. Atuou em novelas de TV e depois foi brilhar no cinema em filmes como Meu Nome Não É Johnny e O Cheiro do Ralo. Sua estréia na direção de Feliz Natal chega aos cinemas no dia 21 de novembro.

 

 

 

 

Adicione esta página aos seus favoritos    

 Twitter    Facebook    Orkut