Confissões de um lesionado
O coração vai bem. Mas o músculo da coxa me traiu

POR MAURÍCIO BARROS, colunista da VIP

Se machucar é uma merda. Desculpe o palavrão, mas nenhum verbete limpinho daria conta de como issoé um saco. É mais chato que a maldita hora em que o cunhadão bêbado sai vendendo pedaços da gravata do noivo na festa de casamento. Tem sete semanas que estou parado. Foi assim: meu futebol rola de quinta-feira à noite.É minha missa, onde eu professo minha religião. Segui o ritual. Fiz meus alongamentos mandrakes para a combalida lombar (preparação), enfaixei o tornozelo para dar uma impressão de estabilidade (ciência) e fui pro campo (arte). Jogo pegado, jogo bom, times parelhos. Lá pela metade da partida, ela sobrou para a canhota. Mas estava bem junto ao corpo. Eu deveria ter tentado ajeitar melhor. Mas quis chutar pro gol. Tá no meu DNA (fazer o quê?). O movimento saiu curto, improvável. No momento do impacto, notei uma tremedeira no músculo da coxa. Na hora, foi como se uma agulha de tricô atravessasse a perna. Nunca senti pontada tão forte. Doeu demais.

Experiente, diagnostiquei a enfermidade com precisão — um híbrido de contratura, distensão e estiramento. “O que foi?”, perguntaram. “Fisgada”, vaticinei em tom grave. E fiz o que um homem decente deve fazer nesses momentos: fui para o gol. Não tinha ninguém na reserva e eu jamais avacalho um jogo. Mal conseguia dar um passo, nível Clemer mesmo. Mas lá estava eu, o cone. E assim levamos o jogo até o final.

Cheguei em casa, aquele silêncio, dona patroa dormindo. Preparei o miojo, abri uma Norteña (da grande mesmo) e meti um SportsCenter. Depois, na frente da TV, fiz um gelinho na coxa e passei para o Multishow, que àquela hora da noite exibia sua programação educativa. Dali pro berço.

No dia seguinte, a dor me fazia mancar. E eu, de novo, fiz exatamente o que se espera de caras como nós nessas horas: não fui ao médico. Gelo e inatividade, o tratamento era simples, todo mundo sabe. Eu pressentia que iria demorar. Era contusão gorda, inédita pra mim. Mas a cura era a de sempre. Três semanas se passaram até que a dor se foi. Resolvi dar uma corridinha teste. Botei o All Star, subi na esteira e mandei 5 km. Foi tranqüilo. Quatro dias depois, mais 5 km. Corri bem. Estava pronto para voltar.

Chegou o grande dia, fizeram festa pra mim. “Rapaziada, hoje eu tô leve, só tapa com a destra”, avisei. Repeti o ritual sagrado e a bola rolou.

Durou 10 minutos. Na primeira esticada para o lado com a esquerda, a lesão sorriu pra mim: “Oi, tô aqui!” Peguei a mochila e saí cabisbaixo. Meus amigos me desejaram sorte. Entrei no Del Rey e parti, com Raul no toca-fitas.

— Já? O que houve? — me perguntou a voz doce que vinha do sofá.

— Senti de novo, amor.

— Eu te disse que estava cedo pra voltar, mas você não me ouve...

— Eu sei, mas eu tinha que tentar. Eu corri bem antes, não doeu. Acontece. Vou ao médico amanhã.

Os olhos verdes perceberam minha tristeza, e minha bela foi pessoalmente me assar o miojo. Me serviu uma taça de Almadén. Dali a pouco, sob os lençóis, evitei o W.O. Mesmo combalido, eu nunca avacalho um jogo.

 

 

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