A melhor orgia do mundo
O clube dos libertinos mais belos e ricos da Europa veio ao Brasil para
uma festa com sexo livre. Uma dupla de editores da VIP esteve lá

POR: MARCOS NOGUEIRA E CLÁUDIA DE CASTRO LIMA

 

No andar de baixo, lindas mulheres se beijam em grupos de três, quatro ou cinco. Em cima, nos quartos da mansão, há casais, duplas de casais e turmas de meninas fazendo sexo sob o olhar dos curiosos. Todos os convidados são gente bem-nascida, bem-criada, bonita, elegante. Eles integram a sociedade libertina Madame O, que há dois anos promove festas inspiradas na orgia do filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Ku brick. Nelas, a elite da Europa veste máscaras e se despe do resto para realizar fantasias em público. Desta vez foi em São Paulo, com belas mulheres brasileiras. E nós.

 

O ESQUENTA

O primeiro bacanal ninguém esquece, o que vem a calhar para jornalistas a trabalho. Se quiséssemos espiar, a Claudinha e eu não poderíamos portar bloco, câmera ou gravador. A máscara era obrigatória. A roupa, opcional a partir da meia-noite. Um mês antes de entrar no casarão do bairro do Morumbi, caiu em nossas mãos uma revista espanhola com uma reportagem sobre uma certa sociedade libertina que promove noitadas de sexo livre em castelos e palácios da Europa. No texto, pinçamos a palavra “São Paulo”: a cidade estava no roteiro da tal Madame O. Um amigo de um amigo de um amigo nos levou ao homem brasileiro da madame, que explicou o espírito da coisa. O encontro reuniria gente bonita, rica, elegante e culta – adequada às rígidas regras da sociedade da Madame O (nome inspirado no romance erótico francês História de O, de Pauline Réage). O endereço só seria revelado em um pergaminho entregue na mesma noite. Entrariam apenas casais e mulheres solteiras. Nós deixamos os respectivos parceiros em casa para encarnar uma dupla voyeur. Dava para perceber que não era um vale-tudo. Diferente das festas “normais”, em que as pessoas chegam duas horas, três horas após o horário do convite, esta exigia pontualidade. Quem não aparecesse entre as 22h e as 23h ficaria de fora. Na hora combinada, fomos buscar o tal pergaminho junto ao muro de um famoso restaurante. Lá um rapaz de terno perguntou “Madame O?” antes de estender um rolo de papel pardo. A quatro quadras dali, BMWs e Audis preenchiam quase todas as vagas da rua residencial. Os casais – homens de terno e gravata,

mulheres de longo com grife – se aproximavam da mansão sem se preocupar em cobrir o rosto com a máscara compulsória.Nada indicava que em poucas horas começaria uma orgia. “Antes só havia os clubes de swing, que são de mau gosto, e festas muito pequenas”, disse, dois dias mais tarde, a pessoa que adota a identidade de Madame O. “Eu faço festas muito cool com um lado libertino.”

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RITUAIS DE ABERTURA

No hall de entra da, havia uma lojinha que cobrava R$ 90 pela máscara feminina e R$ 60 pela masculina, a salvação dos casais desprevenidos. Perto dali tinha um bar de caipirinhas. Peguei uma de lichia com saquê e descemos para o salão principal, para o Marcão pegar um prosecco. Tendo o que fazer com as mãos (segurar um copo), fiquei mais à vontade. E fui prestar atenção nos códigos. Não pega mal em uma festa dessas encarar os outros. Era verdade: só tinha gente bonita. Ficamos impressionados com a quantidade de mulheres lindas, todas bem vestidas (mais tarde descobriríamos que oito entre dez estavam sem calcinha), que entravam com seus pares também atraentes. Reparei nas alianças na mão esquerda. Os casais casados contrariavam nossa expectativa de ver coroas com garotas de programa. Essas duplas eram amigas entre si. Logo o salão lembrava uma festa de casamento, inclusive com garçons e suas bandejas de salgadinhos. Mas parecia que ninguém estava muito interessado naquele tipo de comida. De repente, uma movimentação na sala de jantar, onde a mesa havia sido trocada por uma grande cama. Sobre ela, duas mulheres se pegavam e se despiam enquanto um fotógrafo disparava seu flash. Eram modelos contratadas, tão bonitas quanto as convidadas pagantes. Quando a atenção se voltou para o salão principal, lá estava uma japonesa totalmente nua, magérrima e cheia de piercings (um

 

deles na genitália). Ela era amarrada por um homem num longo, lento e pouco excitante ritual sadomasoquista: segundo o Marcão, os barbantes na perna da moça a deixaram igual a um provolone. Todos pareciam pensar o mesmo e bebiam como se ela não estivesse ali. Até que se ouviu uma música no segundo andar da casa. A festa começava de verdade.

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COMEÇAM OS AMASSOS

A fita que bloqueava a escada para o último andar havia sido cortada. Os casais, de braços dados, subiam em fila indiana para a suíte principal, onde um ator e uma atriz faziam sexo coreografado sobre a cama king size dupla. Velas iluminavam o quarto, e a trilha sonora era música eletrônica bem suave. Quem chegava se acomodava em pé ao redor da cama para olhar a performance. Todos hipnotizados de início. Depois, cochichando. Um pouco mais tarde, falando em voz alta e rindo. Quando o interesse (meu e dos outros) arrefeceu, era hora de explorar os outros recintos do casarão. No quarto vizinho, no fim do corredor, vazio, minha presença foi vetada. “Aqui é exclusivo das meninas”, disse a funcionária. Eu poderia olhar pela porta. Ainda não havia o que se espera de uma orgia. Desci para pegar um uísque. Bebíamos e conversávamos na área da piscina, de olho no trânsito crescente para o andar superior. Ali embaixo, os grupos de amigas deixavam os copos de lado para dar beijaços coletivos. Fumante ocasional e comprador semestral de cigarros, um amigo nosso (fomos com outro casal) subiu atrás da nicotina. Eu o acompanhei. Cruzamos o quarto principal, onde já não havia show – mas casais em amassos cada vez mais quentes nos sofás ao redor da cama –, até uma cortina que escondia um vestíbulo e o banheiro. Atrás dela estava o cigarro. E também um casal transando, ele sentado num sofá, ela por cima dele, indiferente aos olhares das outras seis ou sete pessoas no

 

recinto. Tampouco os incomodava o sujeito que se masturbava na almofada ao lado. Sorri. Não só porque a mulher nua em pleno ato sexual era quase perfeita. Mas porque soube que teríamos uma boa matéria.

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