O que é que a Brawn GP tem?
Vasculhamos os bastidores da F-1 para descobrir como uma equipe estreante
montada em cima da hora com poucos gastos conseguiu dominar a primeira
parte da temporada 2009. Até filamos o prato feito deles nos boxes!
por: RODRIGO FRANÇA, DE ISTAMBUL
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| Button na máquina que
tem o melhor ano de
estreia da história da F-1 |
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| De bloquinho na mão, nosso
repórter espia o box da Brawn |
Contos de fadas são raros na F-1, o esporte mais caro do
planeta, onde a consagração é para os mais fortes e mais
ricos. Eis que, em 2009, veio a Brawn GP, uma equipe criada
em cima das sobras da estrutura da Honda, que deixou
as corridas no fim de 2008 por causa da crise econômica mundial.
Sem patrocinador grande, com orçamento apertado e carro
que só terminou de ser desenvolvido a poucas semanas da primeira
corrida, a novata disparou na liderança e já se tornou a
escuderia com mais vitórias no ano de estreia desde que a F-1
surgiu em 1950. E quem acompanha a categoria passou a apontar
o antes obscuro inglês Jenson Button como campeão “antecipado”,
depois que ele venceu seis dos primeiros sete GPs (86% de
aproveitamento) de 2009. Esse time milagroso também levou
nosso Rubens Barrichello de volta aos pódios e à parte de cima da
tabela de pontuação. Para entender
melhor esse sucesso repentino, acompanhamos
o dia-a-dia da equipe-sensação
durante o fim de semana do GP da
Turquia (que, para variar, foi vencido
pelo Button), em junho. A missão não foi
fácil, mas a receptividade por lá é maior
do que na McLaren ou na Ferrari.
Visitamos os boxes, assistimos aos treinos
e à corrida no enxuto motorhome da equipe, bem diferente
dos palácios mantidos pela concorrência. Só nos proibiram de
fotografar detalhes dos carros – eles não são bobos... Conclusão:
o sucesso se deve muito a dois fatores principais: política de mordomia
zero e uma feliz combinação de sacadas estratégicas.
Estrutura enxuta e sem gastos
desnecessários é a filosofia do inglês
Ross Brawn, 54 anos, exmecânico
da Williams e ex-diretor
técnico de Benetton, Ferrari e
Honda. Quando esta última desistiu
da F-1 em dezembro passado,
Ross deu o bote e comprou o
espólio para criar outra equipe.
Bem econômica. “Prefiro gastar o
orçamento no túnel de vento. Investir
para construir o carro mais
rápido”, diz Brawn.
• A estrutura da Brawn GP tem:
US$ 130 milhões (R$ 251 milhões)
de orçamento para 2009.
É metade dos gastos da Ferrari e
da McLaren.
• 550 funcionários no total.
A McLaren tem mil. A Honda
tinha 800.
• 1 profissional para o atendimento
à mídia. As equipes grandes
têm de 6 a 8 pessoas nessa área.
• 1 produto de merchandising:
um boné com o logotipo da equipe,
vendido a cerca de R$ 100 na
loja comum de cada GP. A Ferrari
tem sua própria lojinha, oferecendo
mais de 50 itens diferentes.
• Nenhum fã-clube oficial nem brindes para
agradar o público dos GPs. “Não temos dinheiro
para isso”, resume Nicola Armstrong, diretora
de comunicação da Brawn GP.
• 1 cardápio único de almoço por
dia, com pratos básicos (experimentamos
um risoto no “bandejão”
da Brawn e aprovamos). Em
comparação, a Red Bull oferece a
funcionários e convidados um
vasto bufê com opções criadas
por chefs europeus de prestígio.
• Nenhum patrocinador de peso (a
empresa inglesa Virgin fez um contrato
de curto prazo e sua marca
aparece bem pequena nos carros).
• Nada de camarotes ou eventos
boca-livre para convidados dos patrocinadores
ou da equipe. Enquanto
seus boxes ficam no “cantão”
do paddock junto aos das
equipes menores e seu motorhome
não tem badalação, as áreas das
grandes equipes têm até champanhe
liberado para convidados VIP
(não “da VIP”).
• O motorhome da Brawn só
tem três atendentes para cuidar
dos funcionários e poucos convidados.
Já a Ferrari libera um andar
inteiro de uma de suas “casas
móveis” só para os convidados
da empresa de investimentos
Mubadala, dos Emirados Árabes,
uma de suas patrocinadoras.
• Hospedagem em hotéis três-estrelas e viagens
por companhias aéreas bem econômicas,
como a Easy Jet. |
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Difusor traseiro
Apontado como o maior trunfo da
equipe, é um recurso que permite
maior passagem de ar pelo assoalho
do carro, melhorando a performance
aerodinâmica. Ou seja, “gruda” o carro
no asfalto e o deixa mais rápido e fácil
de guiar. Mas só ele não explica o domínio
tão amplo da Brawn no início da
temporada, uma vez que Williams e
Toyota também começaram o ano
usando essa peça.
Motor-canhão
Os pilotos são unânimes: o melhor motor
da F-1 atual é o Mercedes-Benz, que
serve à McLaren e à Brawn GP. Só que,
na McLaren, o resto do carro está ruim.
Já na Brawn, o propulsor ideal e um
carro acertado garantem excelente
desempenho nas retas.
Aposta no futuro
A Honda começou 2008 com o pior
carro da F-1, segundo os próprios pilotos
Button e Barrichello. Então diretor
da equipe japonesa, Ross Brawn decidiu
abrir mão daquela temporada e focar
100% em 2009, quando o regulamento
teria mudanças importantes.
Seu plano sofreu um abalo quando a Honda abandonou a F-1. Mas ele conseguiu
capitalizar todo o investimento
feito no novo carro ao comprar
o espólio dos japoneses.
Proibição dos testes
Como os testes entre os GPs foram
proibidos pelo novo regulamento,
a equipe que começou na frente tem
grandes chances de permanecer na
frente até o final. Obviamente, o desenvolvimento
ocorre em várias frentes,
como no túnel de vento. Mas
a falta de tempo em pista dificulta
muito a melhora imediata dos rivais.
Grupo unido
Imagine seu emprego indo para o espaço.
Até que um salvador da pátria garante
sua vaga e lhe proporciona o melhor
ano de sua carreira. Pois essa é a
gratidão dos 550 ex-funcionários da
Honda que passaram a trabalhar na
Brawn com motivação redobrada.
Inclusive Button e Barrichello. |
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| PIT STOP COM OS PILOTOS DA BRAWN |
Rubens Barrichello
Qual o segredo do sucesso
da Brawn GP?
Temos um grande líder,
que é o Ross Brawn. Antes,
na Honda, era muito
confuso. Tinha muito cacique
para pouco índio. Agora, não. Todas as áreas
têm ligação direta com um único chefe, que assume
a responsabilidade por tudo.
Como a equipe consegue tanta hegemonia
com um orçamento reduzido?
Nosso time gasta o dinheiro de forma inteligente.
Todos sabiam no começo do ano que seria
necessário algum sacrifício. Eu mesmo reduzi
meu salário, ganho cinco vezes menos [que em
2008]. Em todas as áreas houve cortes. Por
exemplo, o motorhome só tem três meninas
servindo os convidados. A Honda tinha oito! |
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Jenson Button
O que mais impressiona
no carro da Brawn GP?
A forma como o time lidou
com tanta pressão, numa circunstância
em que tudo poderia
dar errado. Nosso carro é quase perfeito.
Quando acaba uma corrida, poderia guiar
por mais 200 voltas, tamanha a felicidade que
sinto com um carro tão competitivo. Em março,
sabíamos que teríamos um carro competitivo,
só não sabíamos o quanto.
Você tem tudo para ser campeão este ano?
Estou em uma boa posição no campeonato e nosso
caminho está correto. Temos que continuar
trabalhando de forma positiva e consistente. Na
F-1, no momento em que você relaxa, tudo vai por
água abaixo. Eu adoraria ganhar todas as corridas,
mas outros 19 caras querem me impedir. |
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